Peshawar, Paquistão, 23/07/2008 – “Consegui salvar minha filha e evitar que se convertesse em uma atacante suicida. Ela foi seduzida por um professor do seminário” para esse fim, contou o pai de Sameena, Jamilur Rehman. Sua filha de 13 anos foi seqüestrada por milícias do movimento islâmico Talibã, que treina atacantes suicidas na conflitiva região setentrional paquistanesa de Waziristão, fronteira com o Afeganistão. Rehman contou que sua filha adolescente Sameena recebeu aulas de religião em um seminário do distrito de Tank, na Província da Fronteira Noroeste, onde assistiu a vídeos de ataques suicidas. “A motivação foi tal que estava disposta a ir treinar como atacante suicida e destruir os inimigos do Islã”, disse Rehman à IPS por telefone.
Sameena e outra estudante, Mushtari Begum, de 15 anos, foram entregues por seu professor a dois homens, segundo relato da filha de Rehman, arrebatadas depois pelas autoridades políticas da área de Mir Ali, no Waziristão, nas Áreas Tribais Sob Administração Federal (FATA), que depois as entregaram à policia de Tank. “A situação é muito grave. Evitamos que as duas jovens se convertessem em atacantes suicidas, mas há indícios de que a tendência de treinar mulheres para essa finalidade é moeda corrente”, disse o policial Ahmad Jamal, do distrito de Tank, vizinho do Waziristão.
As FATA estão repletas de milícias do Talibã, que combatem a chamada “guerra contra o terrorismo” lançada pelo presidente norte-americano George W. Bush após os atentados de Nova York e Washington em setembro de 2001. Acredita-se que o movimento Talibã está por trás da escalada de violência e ataques suicidas no Afeganistão e neste país, nas FATA e na Província da Fronteira Noroeste. As agências de inteligência alegam que as FATA são uma zona de treinamento de atacantes suicidas. Haji Hussein Ahmed foi identificado como um dos que possui um desses centros.
“Vimos milhares de vídeos mostrando as atrocidades que forças norte-americanas cometeram contra muçulmanos no Iraque, Afeganistão (na base militar dos Estados Unidos) de Guantânamo. Estávamos dispostas a ser atacantes suicidas, matar as forças pró-norte-americanas e ganharmos a benção de Deus”, contou Sameena. O fato foi confirmado por Ashraf Ali, especialista no movimento Talibã da Universidade de Peshawar. “O Talibã paquistanês, impressionado pelo que acontece no Iraque, onde as mulheres suicidas se converteram em albatroses que rodeiam as forças dos Estados Unidos, preparam muitas como atacantes suicidas para causar mais danos aos soldaods que operam no Paquistão”, afirmou.
Mas não é apenas em Tank. Vinte e cinco adolescentes desapareceram este mês de centros religiosos do conflitivo distrito de Swat, na Província da Fronteira Noroeste. “Duas de minhas filhas, Bakhtshaida, de 17 anos, e Jamila, de 18, foram ao seminário de Rehmania no último dia 2 e não voltaram. Seus professores disseram desconhecer seu paradeiro”, contou Raham Badhsah, que denunciou a situação à polícia, em vão. Houve 41 ataques suicidas no Paquistão desde o começo deste ano. Todos cometidos por homens de diferentes organizações terroristas e facções sectárias deste país.
“Nenhum desses ataques foi cometido por mulheres. Talvez não tenham sido consideradas idôneas para os objetivos ou subestimaram sua capacidade como atacantes suicidas, mas o Talibã está vendo a possibilidade de recorrer a elas”, explicou Ali. No dia 4 de dezembro de 2007, um atacante suicida, que se acredita que era uma afegã, se imolou em um posto de controle em uma zona de alta segurança perto de um edifício do serviço de inteligência e de um convento cristão nesta cidade, capital da Província da Fronteira Noroeste. “Esse foi o primeiro ataque suicida cometido por uma mulher no Paquistão”, acrescentou o especialista.
No conflito palestino-israelense havia mulheres entre os combatentes palestinos, mas a primeira a se converter em atacante suicida foi Wafa Idris, de 27 anos, que trabalhava em uma ambulância e ao imolar-se matou um civil israelense e feriu outros 140, em janeiro de 2002. Quando as forças de segurança lançaram no dia 3 deste mês uma operação para erradicar as milícias de Lal Masjid, a mesquita vermelha de Islamabad, o clérigo Maulana Abdul Qayyum disse à imprensa que os atacantes suicidas receberam luz verde para buscar objetivos e atacar onde quisessem. “A possibilidade de os terroristas empregarem mulheres como atacantes suicidas no Paquistão não pode ser descartada”, concordou Jamiluddin, professor universitário de ciências políticas em Tank. (IPS/Envolverde)

