Melbourne, 08/08/2008 – Uma pista eletrônica leva à suspeita de que o conglomerado de comunicações Seven Network, da Austrália, ajuda o governo da China a dissuadir os jornalistas estrangeiros que cobrem os Jogos Olímpicos de informar sobre “cinco temas proibidos”.
O 7BMC está encarregado de fornecer serviços de telecomunicações aos meios internacionais que cobrem os Jogos Olímpicos, que começam hoje em Pequim. “Como estou certo de que você sabe, há regras estabelecidas para a mídia internacional que virá a Pequim/China 2008, e há temas politicamente delicados que o governo pediu à imprensa estrangeira para não cobrir”, escreveu o autor do e-mail. Segundo diversos meios de imprensa australianos, se trataria do atual chefe de operações da 7BMC, Gavin Romanis. O presidente da Seven Network Australia, Kerry Stokes, desenvolve atividades empresariais na China desde a década de 90.
As instalações do 7BMC se concentram na pequinesa Praça Pangu. Redes de rádio e televisão internacionais com a norte-americana CNN, a britânica BBC e a European Broadcasting Union, que reúne 75 emissoras-membro e 45 associadas em todo o mundo, contrataram seus serviços. O 7BMC foi criado porque a prefeitura de Pequim considerou necessário apelar para a experiência e tecnologia estrangeira para a divulgação dos Jogos. A mensagem de correi eletrônico, datada de 4 de março, observa que o 7BMC “é uma empresa cujo acionista majoritário é o governo da cidade de Pequim e que depende do apoio da assistência de muitos departamentos” do governo da China.
O executivo escreveu que “se a 7BMC fosse vista como apoio a um programa internacional cujas intenções fossem cobrir qualquer dos cinco temas proibidos, as repercussões para o 7BMC e seus clientes seriam desastrosos para o projeto olímpico e para qualquer posterior apoio aos demais 26 anos de sociedade’. A mensagem também alerta que será negado acesso às instalações do 7BMC aos meios de comunicação que também pretenderem usá-las para informar sobre assuntos que resultem inconvenientes ao governo chinês.
“Se vocês vierem a Pequim cobrir questões relacionadas aos Jogos Olímpicos, teremos prazer em ajudá-los, mas se vierem produzir segmentos e notícias sobre qualquer dos temas proibidos, então, sinto muito, não poderemos oferecer nosso apoio dessa vez”, diz o texto. A IPS se comunicou com o suposto autor do e-mail para saber quais eram os “temas proibidos”, mas Romanis não respondeu e indicou Simon Francis, porta-voz da Seven Network.
Francis assegurou em um e-mail enviado dia 31 de julho à rede Australian Broadcasting Corporation (ABC) que a Seven Network não havia se envolvido em censura. “Estamos simplesmente em uma aliança como provedor de instalações e facilitador na China”, escreveu. Em uma mensagem posterior, do último dia 1º, Francis disse à ABC que não tinha conhecimento algum sobre “tema proibido”. “Só podemos reiterar que não conhecemos os cinco temas proibidos. Suspeito que não os conhecíamos quando o e-mail foi enviado há cinco meses e ainda não os conhecemos”, escreveu.
Em seu blog desde Pequim na edição eletrônica do jornal The Sydney Morning Herald, o jornalista Stephen Hutcheon procurou elucidar os “cinco temas”, recordando que o governo bloqueia o acesso a sites que incluam “palavras e frases relacionadas com o que o governo chama de cinco grandes inimigos”. Hutcheon os enumerou: “a independência do Tibet, a independência de Taiwan, os muçulmanos da província chinesa de Xianjiang, o movimento (religioso) Falun Gong e os dissidentes”.
Mas um co-diretor da 7BMC, Doug Fraser, também disse desconhecer os temas proibidos e qualquer atividade de censura em sua empresa. “Nossa base de transmissões é independente. Não ajudamos a escolher os fatos a serem cobertos. Isso depende dos próprios jornalistas”, afirmou. Mas, a sindical Federação Internacional de Jornalista (FIJ) expressou sua preocupação pela advertência de março. O diretor de projetos da Fij para a área Ásia-Pacífico, Sam Grunhard, disse à IPS que “as regulamentações ao jornalismo emitidas em 2007 para toda a imprensa estrangeira que cobriria os Jogos reconhecia expressamente a liberdade de cobrir qualquer assunto”.
O secretário-geral do Comitê Nacional pelos Jogos Olímpicos em Pequim, Wan Wei, disse em 2001, quando apresentou a candidatura da cidade: “Garantiremos aos jornalistas completa liberdade para informar quando forem à China”. Mas o e-mail da 7BMC é apenas um em muitos indícios do contrário. Na semana passada ficou em evidência o bloqueio de alguns sites aos jornalistas no principal centro de imprensa da capital, ao que parece devido a um acordo entre o Comitê Olímpico Internacional (COI) e o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Pequim.
Essa constatação deixou em má situação o presidente da comissão de imprensa do COI, Kevan Gosper, que em março havia assegurado que os jornalistas teriam em Pequim tanta liberdade quanto a que tiveram nos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000. Depois, dois jornalistas japoneses foram atacados pela polícia quando cobriam o atentado que matou 16 funcionários da segurança na cidade de Kashgar, em Xinjiang. O Clube da Imprensa Estrangeira da China detalhou 270 casos de interferência das autoridades com o trabalho dos jornalistas desde 1º de janeiro. (IPS/Envolverde)


