Cidade do cabo, 22/08/2008 – Os produtores de frutas e vinho da África do Sul lançaram uma iniciativa para determinar o impacto ambiental de sua atividade. Procuram fazer o correto e, também, ganhar consumidores conscientes do exterior. Em um esforço para manter sua competitividade no mercado global, onde os consumidores exigem produtos “verdes” de forma crescente, esta pesquisa pode desafiar a idéia de que as exportações do mundo em desenvolvimento têm um custo ambiental maior.
Os consumidores se tornam mais conscientes do impacto de suas decisões sobre a mudança climática. Muitos dizem saber que os alimentos importados, por percorrerem grandes distâncias, contaminam mais do que os de produção nacional, devido ao consumo de combustível empregado em seu transporte. Mas, as emissões dos aviões e a milhagem são apenas uma parte da equação, segundo especialistas. Também tem importância considerar o impacto de um produto sobre o meio ambiente em seu ciclo de vida completo, conhecido como “rastro de carbono”.
A iniciativa é coordenada pelo Fundo de produtores de Frutas de Folha Caduca (DFTP) e conta com financiamento do Departamento para o Desenvolvimento Internacional, da Grã-Bretanha, através da organização não-governamental ComMark, com sede na África do Sul. O projeto inclui o desenvolvimento de uma ferramenta de avaliação acessível na Internet. Os agricultores poderão encontrar nela variáveis como seu consumo de energia e custos de eletricidade para calcular seu “rastro de carbono” individual e, por fim, a do setor em seu conjunto.
Quando o estudo foi lançado em julho, o ministro britânico de Comércio e Desenvolvimento, Gareth Thomas, disse que a contaminação derivada do transporte representa apenas um aspecto da questão e que o estudo em andamento se centrará “no ciclo completo de produção, que é a única forma justa de analisá-lo”. Thomas acrescentou: “Nossas pesquisas mostram que quase 75% do público da Grã-Bretanha deseja usar suas compras semanais para reduzir a pobreza no mundo em desenvolvimento, mas, também se preocupa com a mudança climática”.
A pesquisa, disse, “permitirá à indústria da África do Sul – um dos maiores exportadores de vinho do mundo – entender o custo de carbono de sua atividade. Isto é vital para que o país mantenha sua posição competitiva nos mercados de exportação de vinho e frutas para continuar dando emprego aos seus habitantes”. Norma Tregurtha, economista da ComMark, disse à IPS que “existe pressão dos consumidores do mundo, que querem conhecer o “rastro de carbono” dos produtos que compram nos supermercados. Este estudo visa a satisfazer as exigências de um mercado que se torna cada vez mais exigente”.
No ano passado, a rede de supermercados Tesco, a maior da Grã-Bretanha, anunciou que poria nos alimentos que vende rótulos especificando seu “rastro de carbono”. Também há indícios de que busca, como Marks & Spencer, comprar produtos frescos localmente ou em países europeus. Em uma declaração à imprensa, a ComMark afirmou que a Tesco coloca imagens de aviões em alguns produtos importados, entre eles vegetais de origem africana. Mas o “rastro de carbono” não está necessariamente determinada pela milhagem percorrida pelo produto, acrescentou Tregurtha.
De fato, estudos da britânica Universidade Cranfield indicam que flores do Quênia exportadas por via aérea para a Grã-Bretanha são produzidos e comercializados de uma maneira cinco vezes menos contaminantes do que as cultivadas na Holanda, em estufas com luz artificial. A Grã-Bretanha é um mercado fundamental para a África do Sul, que exporta para esse país 30% de sua produção de vinhos e 20% da de alimentos frescos. “Os supermercados são poderosos”, disse à IPS Hugh Campbell, gerente-geral do DFPT. “Antecipam tendências, mas devemos fazer esta pesquisa pelas razões corretas. Temos de saber onde estamos em termos de impacto ambiental e determinar uma estratégia. É preciso agir a partir do conhecimento”, acrescentou.
O setor agrícola sul-africana dá emprego a cerca de um milhão de pessoas, que representam 75% da força de trabalho. Além disso, gera quase US$ 4 bilhões em exportações. As de vinhos e frutas representam 25% do total. Analistas do setor consideram que deve ser fortalecido, particularmente em um momento em que são registradas mudanças no regime de chuvas que levam a inesperadas secas e inundações fora de época. Estas mudanças, somadas ao custo em alta da energia, causam incerteza. Também é importante garantir o crescimento, pois novos agricultores se somarão à atividade. O projeto de reforma agrária da África do Sul contempla que cerca de 30% das terras de uso comercial devem estar em mãos de produtores negros até 2015, e já existem produtores em pequena escala que tentam viver da terra.
“A ferramenta de avaliação da Internet nos permitirá determinar como estamos a respeito dos critérios e pontos de referência internacionais”, disse Campbell. Até agora, a discussão sobre o “rastro de carbono” não levou a uma redução das exportações sul-africanas, disse Stuart Symington, presidente do Fórum de Exportadores de Frutas Frescas. “Com esta pesquisa, e a ferramenta de avaliação na Internet, estamos adiantando os acontecimentos para mantermos nossas vantagens competitivas. Para sermos amigáveis com o meio ambiente, devemos ser pró-ativos”, afirmou. (IPS/Envolverde)

