Johannesburgo, 21/03/2005 – Na última viagem à África de Carol Bellamy como diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), antes de deixar o cargo, foi ofuscada pelo que ela chamou de "contraste cru" entre a escassa ajuda recebida pelo Zimbábue e por outros países africanos, especialmente no sul do continente. Desde 2000, a extensão da violência política e as violações dos direitos humanos piorou a reputação do governo desse país e determinou que os Estados Unidos e a União Européia aplicassem sanções contra as autoridades encabeçadas pelo presidente Robert Mugabe, no poder desde a independência, em 1980, e contra dirigentes da governante União nacional Africana do Zimbábue-Frente Popular (Zanu-PF).
Harare limitou consideravelmente as liberdades de reunião e de imprensa nos últimos anos, e poucos esperam que as eleições parlamentares previstas para o próximo dia 31 sejam justas e limpas. "Não é exatamente uma primazia que o Zimbábue está longe de ser o país mais favorecido pela ajuda de doadores", e isso afeta especialmente os integrantes mais vulneráveis de sua sociedade, entre outras coisas porque agrava os efeitos da pandemia de aids, disse Bellamy na semana passada durante entrevista coletiva em Johannesburgo. "Apesar de registrar a quarta pior taxa de infecção pelo vírus HIV, causador da aids, e 50% da mortalidade infantil desde 1990, o Zimbábue recebe apenas uma fração da ajuda concedida aos seus vizinhos", destacou Bellamy.
Atualmente, no Zimbábue ocorre uma morte infantil por aids a cada 15 minutos, segundo dados do Unicef. De acordo com esta agência, no ano passado o país recebeu escassa ou nula assistência dos mais importantes programas contra a aids financiada por doadores: o Plano de Emergência para o Alívio da Aids do Presidente dos Estados Unidos (Pepfar, sigla em inglês), o Programa Multinacional para a África do Banco Mundial e, ainda, o Fundo Global de Combate contra Aids, Tuberculose e Malária. A média de ajuda contra a aids desses três programas é cerca de US$ 74 por pessoa infectada, e o Zimbábue recebe apenas US$ 4, enquanto Zâmbia, com menor incidência da infecção pelo HIV, recebe US$ 187 anuais por pessoa afetada pela doença. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas contra o HIV/aids, a prevalência de HIV no Zimbábue é 24,5%e em Zâmbia de 16,5%.
A África austral é a região do mundo mais afetada pela aids. Mais ao norte do continente, Uganda recebe US$ 319 anuais por pessoa infectada, e a Eritréia US$ 802. Os registros do Unicef indicam que a aids é atualmente a primeira causa de morte de crianças com menos de 5 anos no Zimbábue, e que a mortalidade infantil nesse país é 70% maior do que seria sem as infecções pelo HIV. De 1,3 milhão de órfãos no país, um milhão perderam seus pais por causas relacionadas ao HIV/aids, destaca o Unicef. "A cada dia, no Zimbábue o HIV/aids causa mortes infantis, orfandade e deserção escolar para cuidar de pais e mães afetados" pela pandemia, enfatizou Bellamy.
Segundo críticos, o mal manejo da política econômica, incluindo um problemático programa de reforma agrária, e grandes gastos para financiar o envolvimento do Zimbábue no conflito da República Democrática do Congo afetaram as possibilidades de Harare realizar políticas sociais. Mas, quando se perguntou a Bellamy se acredita que o aumento da ajuda ao Zimbábue poderia fortalecer suas autoridades repressoras, respondeu que os doadores deveriam "buscar outras maneiras" de pressionar por melhor governo, em lugar de "as crianças pagarem o preço". Quando se insistiu sobre o risco de um eventual desvio da ajuda no Zimbábue, funcionários do Unicef admitiram que essa possibilidade sempre existe, mas, acrescentaram ser pouco provável o mal uso da ajuda que essa agência fornece, voltada ao assessoramento para a atenção de aproximadamente cem mil órfãos e a vacinação contra o sarampo.
Em um comunicado de imprensa divulgado na quinta-feira passada, sobre assistência a países da África austral, o Unicef indicou que, segundo dados do Banco Mundial, o Zimbábue recebe apenas US$ 14 anuais por pessoa, contra US$ 68 da Namíbia e US$ 111 de Moçambique. Bellamy se reuniu em Johannesburgo com o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e sua esposa, Graça Machel, que é uma destacada ativista pelos direitos da infância. A diretora-executiva do Unicef deve deixar o cargo no próximo mês, por já ter cumprido os dois períodos consecutivos de cinco anos que é o máximo permitido pelas normas que regem esta agência. (IPS/Envolverde)

