GEÓRGIA: Aumenta a ameaça de Guerra Fria

Nações Unidas, 29/08/2008 – O fantasma de uma nova Guerra Fria paira sobre a Europa desde a última terça-feira, após o reconhecimento formal pela Rússia da independência das províncias georgianas de Osetia do Sul e Abjasia.

Embajador de Rusia en la ONU, Vitaly Churkin - UN Photo/Evan Schneider

Embajador de Rusia en la ONU, Vitaly Churkin - UN Photo/Evan Schneider

Embora sem a visão ideológica da Guerra Fria, que parecia relegada ao esquecimento há uns poucos anos devido à queda do Muro de Berlim, o decreto assinado pelo presidente russo, Dimitri Medvedev, tem um potencial explosivo. A Geórgia é uma aliada-chave do Ocidente na região do Cáucaso, zona de passagem de energia com destino à Europa encruzilhada estratégica para o Oriente Médio, Irã, Afeganistão, Rússia e Ásia Central.

Por sua vez, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, qualificou o decreto russo de “irresponsável” e exigiu que Moscou respeite seus compromissos internacionais. “Esta decisão é inconsistente com numerosas resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas que a Rússia votou no passado. Também é inconsistente com o acordo de cessar-fogo de seis pontos patrocinado pela França, que o próprio Medvedev assinou”, no último dia 12, acrescentou Bush. “Abjasia e Osetia do Sul estão dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas da Geórgia, e assim devem continuar. A ação da Rússia apenas exacerba as tensões e complica as negociações diplomáticas. “A França também deplorou a decisão de Moscou reclamou uma solução política.

O acordo assinado por Moscou e Tiflis impõe a retirada das forças georgianas das duas províncias em conflito para onde se encontravam antes de começarem as hostilidades, no último dia 8. Pelo texto assinado, a Rússia também se retirou da Geórgia, mas não da Osetia do Sul e de Abjasia. Com o decreto de terça-feira, Moscou volta a exigir um acordo de segurança e estabilidade mais amplo na região. Mas a Geórgia e seus poderosos aliados ocidentais insistem que a Rússia também deve se retirar dos territórios em disputa. E o governo de Medvedev não está disposto a negociar isso. “O povo de Osetia do Sul e Abjasia se pronunciaram em várias oportunidades com referendos a favor da independência”, disse o presidente russo. “Têm direito a decidir seu destino por eles mesmos”, acrescentou.

O embaixador da Rússia na ONU, Vitaly Churkin, disse em entrevista coletiva: “Não questionamos a soberania e a independência da Geórgia, mas Osetia do Sul e Abjasia têm direito à autodeterminação, segundo a Carta das Nações Unidas e outros instrumentos internacionais”. Churkin acusou o governo georgiano e seus aliados ocidentais, incluídos os Estados Unidos, pelo bloqueio do diálogo diplomático. A Grã-Bretanha criticou este enfoque. “Estávamos avançando, mas a integridade territorial da Geórgia era parte essencial” do acordo, disse o embaixador britânico na ONU, John Sawers. Washington e seus aliados ocidentais exigem a retirada completa da Rússia, pois que considera sua presença militar em Osetia do Sul e Abjasia em consonância com os acordos internacioanis vigentes. Após a desintegração da União Soviética em 1991, Osetia do Sul e Abjasia ficaram incluídas na Geórgia, embora na época se soubesse que os habitantes dos dois territórios pretendessem que fossem reconhecidos como Estados independentes.

A Rússia criou forças de manutenção da paz nas duas regiões em 1992 e em 1994, depois de ocorrerem incursões militares ordenadas por Tiflis sob o lema “Geórgia para os georgianos”. Moscou afirma que procurou preservar a unidade da Geórgia por 17 anos, mas que foi obrigada a mudar a sua postura após o governo georgiano haver lançado uma operação militar maciça em Osetia do Sul, no dia 8 deste mês, que teve como conseqüência o deslocamento de centenas de milhares de pessoas e a morte de centenas.

Funcionários do governo russo compararam o reconhecimento da independência da Osetia do Sul e de Abjasia com a da província sérvia de Kosovo, que declarou a sua no dia 17 de fevereiro deste ano com o aval de numerosos países ocidentais. Já o parlamento da Geórgia advertiu que a Rússia procurava “alterar as fronteiras da Europa pela força”. O presidente georgiano Mikhail Saakashvili afirmou que a medida russa carece de “ base legal”. O embaixador russo junto à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Dimitri Rogozin, demonstrou ansiedade a respeito das possibilidades que se abrem para o futuro.

Rogozin comparou a atual tensão entre Rússia e Ocidente com a que prevaleceu às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e disse que um novo congelamento das relações parecia inevitável. “A atmosfera atual me recorda a situação que se vivia na Europa em 1914, quando por causa de um terrorista as principais potências do mundo se enfrentaram”, disse o embaixador ao jornal empresarial russo RBK, segundo The Guardian. “Espero que Saakashvili não passe para a história como um novo Gravilo Princip”, o sérvio-bósnio que, ao assassinar em 1914, em Sarajevo, o arquiduque austro-húngaro Franz Ferdinand deu origem à Primeira Guerra Mundial, afirmou Rogozin.

Das brasas mal apagadas dessa conflagração, que terminou em 1918, surgiu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), seguida, por sua vez, de quatro décadas de Guerra Fria entre os blocos ideológicos liderados por Estados Unidos, de um lado, e União Soviética, por outro. “O que podemos estar presenciando não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a passagem de um período particular da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal”, escreveu após a dissolução da URSS e do campo comunista o filósofo norte-americano Francis Fukuyama em seu ensaio “The end of History and the last man” (O fim da História e o último homem). Segundo Fukuyama, a humanidade talvez assistisse, então, “o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governo humano”.

Entretanto, o episodio georgiano pode resultar de uma reedição da Guerra Fria, embora não nos modes da anterior, como observou o ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha Joschka Fischer em uma coluna publicada no semanário Die Zeit. A atual pode ser uma conflagração entre a única superpotência, Estados Unidos, e uma Rússia que fortalece suas forças armadas com o dinheiro de suas enormes reservas de petróleo e gás. Se trataria, nesta ocasião, de um conflito dirigido por Moscou para ampliar sua esfera de influência e contrapor-se à estratégia da Otan, sob o controle dos Estados Unidos, de isolar a Rússia com radares e mísseis da “nova Europa”, isto é, os países que antes estiveram sob domínio soviético. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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