ISRAEL: Olmert sonha em deixar um legado de paz

Jerusalém, 01/09/2008 – O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, ainda tem a esperança de chegar a um acordo de paz com os palestinos e a Síria antes de deixar o cargo. No final de julho, assediado por escândalos de corrupção, Olmert anunciou que renunciará no momento em que seu partido, o centrista Kadima, eleger em eleições internas um novo líder no próximo dia 17, mas não abandonou as tentativas de avançar nas negociações. Detalhes de sua proposta de paz ao presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbass, vazaram para a imprensa. Colaboradores do primeiro-ministro viajaram a Istambul para uma nova rodada de conversações diretas com a Síria, nas quais a Turquia atua como mediadora.

Olmert não quer ser lembrado por ter aceito centenas de milhares de dólares de Morris Talansky, judeu ortodoxo morador em Nova York e principal diretor do grupo financeiro Globes Resources. Preferiria aparecer nos livros de história como o arquiteto de acordos de paz com a Síria e os palestinos. Um funcionário do governo, que pediu para não ser identificado, disse à IPS que Olmert não tem a intenção de permanecer inativo até que o Kadima escolha seu substituto. Mas, não fez comentários sobre haver agora mais chances de culminar com êxito as negociações. Acrescentou que se os sírios aceitaram um diálogo direto será um sinal da seriedade de Damasco sobre seu interesse em chegar a um acordo com Israel.

No momento, acrescentou o funcionário, a impressão é que a Síria quer desfrutar de melhores relações com o Ocidente, por sua disposição de participar dos contatos diretos com mediação turca, mas não está disposta a tratar diretamente com Israel em um esforço para chegar a um acordo de paz. Legisladores israelenses de linha dura estão furiosos com os esforços de Olmert por uma solução diplomática. Zevulun Orlev, líder do Partido Nacional Religioso, disse que o primeiro-ministro já não tem faculdades para conduzir as negociações. O que mais preocupa é que qualquer acordo que alcance com os palestinos ou sírios deverá ser respeitado pelo próximo governo, disse à IPS.

Legisladores mais moderados, que apóiam as negociações em curso, acreditam, entretanto, que Olmert não está posição de negociar com êxito, já que carece tanto de apoio político interno quanto de um interlocutor árabe disposto a assinar um tratado de paz com um chefe de governo que já anunciou sua retirada. Isto não parece deter Olmert, que entregou a Abbas uma proposta para um acordo sobre as fronteiras de um futuro Estado palestino, o problema dos refugiados dessa nacionalidade e questões de segurança.

Segundo o jornal Haaretz, o primeiro a revelar o plano, Olmert ofereceu uma retirada israelense de 93% do território da Cisjordânia, com a entrega de terras no deserto de Negev, perto da faixa de Gaza, como compensação pelas áreas que reterá. Esses 7% incluem os assentamentos judeus e a fronteira seria coincidente com a rota do muro de separação que Israel constrói na Cisjordânia. Também haveria uma estrada ligando esse território à faixa de Gaza, que correria através de Israel, para que os palestinos possam viajar entre as duas áreas.

O plano não faz referencia a uma implementação imediata caso se chegue a um acordo. Tudo estaria dependendo de o Movimento de Resistência Islâmica (Hamás) deixar o controle de Gaza e que o secular partido Fatah, de Abbas, restabelecesse sua autoridade nessa faixa costeira. Segundo o funcionário israelense que conversou com a IPS, foram realizados importantes avanços em matéria de fronteiras, refugiados e segurança. Considera que se chegar a um acordo oferecerá uma alternativa ao modelo do Hamás, que se recusa a reconhecer o Estado de Israel, e servirá para unir os moderados dos dois lados.

Funcionários palestinos consideraram a proposta “uma perda de tempo”, dizendo que não garante a continuidade territorial do futuro Estado nem aborda a questão de Jerusalém, que as duas partes consideram sua capital. Além disso, propõem que Israel retenha apenas 2% do território da Cisjordânia. Estes não são os únicos problemas que Olmert enfrenta. A chanceler e principal candidata para substituí-lo com líder do Kadima, Tzipi Lvni, e o ministro da Defesa, Ehud Barak, são contra um acordo.

Ambos preferem aguardar para ver se as eleições internas permitem formar um novo governo ou se o país caminha para eleições gerais no próximo ano. Se conseguir estabelecer um novo governo, Olmert terá só até novembro para garantir seu legado, mas se houver convocação de eleições em 2009, contará com um pouco mais de tempo a seu favor. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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