ÍNDIA: Banco Mundial acusado de danos ambientais

Nova Déli, 01/10/2008 – Um júri de 13 membros composto por economistas, cientistas, ex-funcionários, especialistas legais e líderes da sociedade civil acusou o Banco Mundial de prejudicar o meio ambiente e reduzir a qualidade de vida da maioria da população da Índia. Entre os integrantes do júri estavam Aruna Roy, ganhadora do prêmio Ramon Magsaysay, e Arundhati Roy, ganhadora do prêmio Booker. A equipe demorou um ano para avaliar cerca de mil testemunhos e 150 depoimentos tomados de grupos envolvidos de especialistas e comunidades afetadas em toda a Índia a fim de avaliar o impacto do Banco sobre 26 setores do desenvolvimento social e econômico deste país.

A Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi, tem uma historia de “intelectualismo de esquerda” e foi a anfitriã do Tribunal Popular Independente sobre o Banco Mundial na Índia, em setembro de 2007. As consultas em nível estadual aconteceram durante um período preparatório de dois anos, principalmente em Estados onde o Banco teve ou está tendo um papel ativo, como Uttar Pradesah, Orissa, Maharashtra, Karnataka, Andhra Pradesh, Tamil Nadu e Kerala.

Do encontro na Universidade, no qual colaboraram 200 estudantes voluntários, participaram cerca de 700 pessoas. O objetivo, segundo o Tribunal, foi “proporcionar um fórum justo e não tendencioso para as pessoas que sofrem o impacto de projetos e políticas financiadas ou promovidas pelo Banco Mundial”, que é a mais influente das instituições financeiras internacionais que trabalham na Índia.

O informe final, divulgado no último dia 21, acusa essa instituição de defender políticas que na realidade aceleram a crise agrícola e a fome na Índia, além de aumentar a divisão entre ricos e pobres do país e de não cumprir sua missão de reduzir a pobreza. A estratégia do Banco para a Índia inclui um empréstimo substancial nas áreas de infra-estrutura (estradas, transporte, eletricidade, fornecimento de água e saneamento, irrigação e desenvolvimento urbano), desenvolvimento humano (educação, saúde, proteção social) e meios de sustento rurais, particularmente nos Estados de Bihar, Jharkhand, Orissa e Uttar Pradesh.

O Tribunal estudou os impactos de projetos do Banco sobre comunidades vulneráveis, entre elas mulheres, crianças, indígenas pobres, pescadores, agricultores, operários e dalits (intocáveis), a casta mais baixa da Índia. Também analisou o impacto das condições impostas pela instituição para conceder empréstimos e que afetam a dívida financeira do país, sua soberania e os processos democráticos, seu vinculo com agências do governo e consultorias, e o grau de seu envolvimento com a elaboração de políticas. O informe também acusa o Banco de colocar deliberadamente ex-membros de seu quadro de pessoal em cargos públicos indianos para influir nas políticas locais, bem como de diluir a legislação ambiental, o que implica uma séria intromissão nas políticas administrativas da Índia.

Os direitos de voto no Banco se baseiam na contribuição financeira de seus membros, sendo que os Estados Unidos possuem o maior poder dentro do organismo. Desde junho deste ano, Washington tem 16,38% dos votos no Banco Internacional de Reconstrução e Fomento (Birf), 12,67% na Associação Internacional de Fomento (Aif) e 23,63% na Corporação Financeira Internacional (IFC) e na Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (Miga) por outro lado, o poder de voto da Índia é de 2,78% no Birf, 2,82% na Aif e 3,39% na Miga e na IFC. Desde julho de 2007, o Birf e a Aif emprestaram à Índia US$ 69,7 bilhões. A Índia é membro de todas as instituições do Grupo do Banco Mundial, menos de seu Centro Internacional de Acerto de Diferenças Relativas a Investimentos (Ciadi).

O Tribunal informou ter enviado cerca de 60 convites, entre outros ao Banco Mundial e aos departamentos relevantes do governo indiano, como o Ministério de Assuntos Econômicos e Finanças e a Comissao de Planjemento, mas, “nenhum decidiu participar apesar de o acontecimento ter lugar em Nova Délhi, onde todos os departamentos têm sua sede.

O Banco inicialmente concordou em participar da sessão final e pediu que o Tribunal lhe proporcionasse a evidência que lhe permitisse estruturar sua resposta. Mas, apesar de informes diários de todos os testemunhos e documentos gerais enviados ao escritório do Banco em Nova Déli, o Banco Mundial “no último momento escolheu não participar” e divulgou uma nota rechaçando o acontecimento, em seu site. O informe do Tribunal diz que, por outro lado, o Banco realizou reuniões com organizações da sociedade civil para demonstrar que estava aberto a consultas.

Os resultados destas consultas, também feitas em setembro de 2007, reconhecem um “sentimento antiBanco Mundial” e sugerem que seus projetos se “diluíram” em operações por diversos motivos. Em resposta às acusações, a porta-voz do Banco Mundial em Nova Déli, Patsy D’Cruz, disse à IPS: “O Banco dá as boas-vindas a um debate aberto sobre seu trabalho em todos os países. Mas, não estamos de acordo com o formato de um tribunal convocado para julgar o Banco sem um debate aberto e inclusivo sobre os assuntos propostos”. É uma pena que o Tribunal não tenha aceitado em setembro passado o convite do Banco para uma discussão “mais profunda e mais útil” sobre estas questões, acrescentou.

A secretária do Tribunal, Deepika D’Souza, disse esperar que “uma declaração tão forte deste distinguido grupo contribua de modo significativo com o debate sobre a legitimidade das operações do Banco no país e como instituição”. Também disse que a iniciativa indiana já inspirou processos semelhantes na Holanda e em Bangladesh. (IPS/Envolverde)

Keya Acharya

A journalist with over 20 years of experience in in-depth writing and researching environment and development issues in Asia, Africa, Europe and Latin America. Keya has travelled widely, covering assignments in various areas of the world. Her research has included climate change, urban solid waste management, rural alternative energy systems, implementation of laws on industrial hazardous wastes, human rights, ecotourism, wildlife issues, transgenic cotton, corruption and environment, population and gender, e-governance, agribiotech and forests and encroachments, among other topics. Keya is vice chair of the Forum of Environmental Journalists of India, and has organised several media-training workshops, convened international media meetings and undertaken media study tours. Keya has won several research and media fellowships and is the recipient of the Press Institute’s award for Excellence in Human Development Reporting; the Prem Bhatia Award for Environmental Reporting, and the Green Globe Foundation award for Outstanding Media Contribution by a Media Individual. Keya has also conducted development journalism studies as visiting faculty, chaired media and international conference panels, and edited ‘The Green Pen’, an anthology of essays on environmental journalism, the first of its kind in South Asia, featuring the region's most prominent and respected environmental journalists.

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