AGRICULTURA-BOLÍVIA: Nadando na sede

La Paz, 03/10/2008 – Milionários em recursos hídricos, mas, sem água. Camponeses de 42 comunidades da localidade de Zongo, oeste da Bolívia, vêem florescer a indústria elétrica impulsionada por rios de grande torrente, enquanto, paradoxalmente, diminui sua atividade por escassez de água e energia. Zongo é uma região que começa ao pé das montanhas nevadas Haayna Potosí e Chacaltaya, com altitudes de 6.030 e 5.344 acima do nível do mar, e se perde na profundidade de um cânion que termina em uma exuberante e tropical área a cerca de mil metros sobre o nível do mar, ao longo onde estão instaladas 10 hidrelétricas.

As turbinas ganham potência pela força das águas que caem das montanhas nos degelos e fornecem 2095 megawatts às cidades de La Paz, El Alto e Oruro, num total de aproximadamente 1,7 milhão de usuários. Porem, as quase duas mil pessoas que vivem nessa área em 42 comunidades não têm água potável nem eletricidade, disse à IPS o secretário de relações da Central Agrária Originaria Cantão Zongo, Genaro Mamani.

O líder camponês chegou a La Paz junto com outras 30 pessoas, muitas delas tendo caminhado até 16 horas desde suas comunidades para aproximar-se do caminho de ferradura, onde pegaram um transporte até La Paz, distrito ao qual pertence como área rural municipal. Os dirigentes Francisco Choquegonza e José Apaza entregaram à IPS uma cópia da carta enviada ao prefeito de La Paz, Juan del Granado, onde explicam que “a região de Zongo não conta com nenhum tipo de infra-estrutura.

“Nossas escolas não têm tecnologia, nem mesmo boas carteiras, não contamos com banheiros, nem hospital, não contamos com estradas e temos que nos locomover por dias a pé”, afirmam, na carta, entre outras reclamações. Também questionam as obras do prefeito voltadas ao redesenho das avenidas principais da cidade e dos passeios centrais, em contraste com o esquecimento da área rural, que há cerca de 83 anos é produtora de eletricidade para essas zonas urbanas.

Os degelos das montanhas circundam La Paz acumulam-se em lagoas e depois a água é enviada em forma de cascata até as turbinas que, instaladas uma após a outra em uma quebrada natural desde 4.751 metros acima do nível do mar geral grande quantidade de eletricidade. Para atingir a potência necessária para movimentar as turbinas os pequenos rios, riachos e correntes de água são desviados para um leito artificial para uso industrial, obra que causou a morte de espécies como a truta, disse Mamani. As famílias da região empregam querosene como combustível para iluminar suas casas e os estudantes fazem os deveres escolares à luz de pequenas lamparinas.

Segundo Mamani, apenas seis das 42 comunidades da região têm serviço de eletricidade. A lenha colhida serve para cozinhar devido à falta de gás liquefeito de petróleo, combustível inexistente na área por falta de meios de transporte, lamentou o dirigente. Os moradores aproveitam as condições climáticas e a fertilidade da terra para cultivar coca que, segundo Mamani, existe na região desde 1550, quando os colonizadores começaram a empregar o vegetal como suplemento alimentício para os escravos das minas de prata.

Hoje, os camponeses do lugar produzem até três colheitas por ano e uma cesta de 22,68 quilos é cotada até o equivalente a US$ 120. Na maioria dos casos é uma das poucas fontes de renda para as famílias pobres, explicou o dirigente. As condições da região também são apropriadas para produzir banana, arroz e cítricos, mas a falta de estrada para passagem de veículos de grande tonelada exclui qualquer possibilidade de comercializar a produção de La Paz.

Entre os pedidos ao prefeito Granado está a construção de uma estrada de mão dupla que facilite o transito de veículos de serviço público para passageiros e carga, em lugar da via estreita, de uso quase exclusivo para manutenção das hidrelétricas. Os dirigentes de Zongo estão decididos a conseguir uma resposta do governo municipal e se não forem ouvidos ameaçam desviar a água usada para gerar eletricidade, até à interrupção do serviço, que deixaria La Paz e El Alto às escuras. (IPS/Envolverde)

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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