ECONOMÍA-EUA: Acampamentos transformados em pequenas cidades

Nova York, 21/10/2008 – Por causa do recrudescimento dos desalojamentos em razão de execuções hipotecárias nos últimos dois anos, muitas comunidades nos Estados Unidos presenciam a proliferação de assentamentos precários, novo lar de uma classe média empobrecida pela crise. “Os assentamentos começaram a crescer em todo o país há quatro anos. Hoje observamos um lento, mas sustentado, aumento de pessoas sem ter onde morar”, disse à IPS Michael Stoopes, diretor-executivo da Coalizão Nacional para os Sem-Teto. Todas as associações desta coalizão, tanto em nível local quanto nos Estados, constataram um aumento no número de famílias que ficaram na rua desde que a crise imobiliária, iniciada em 2007, fez disparar os desalojamentos, hoje em torno dos 10 mil por semana.

O cenário faz lembrar o registrado na Grande Depressão, desatada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Nessa ocasião floresceram em todo o país os assentamentos marginais, que abrigavam até 15 mil pessoas e popularmente chamados de “hoovervilles”, numa alusão ao presidente Herbert Hoover (1929-1933), em cujo mandato a economia entrou em colapso total. Scott, que hoje vive em um desses assentamentos na cidade de Los Angeles, disse a um repórter de televisão que as cotas de seu crédito hipotecário aumentaram tanto que ficou impossível pagá-las. “Negociei com o banco e me deram mais prazo. Mas a dívida ficou muito alta e optaram pela execução hipotecária”, explicou.

Muitas das pessoas que agora moram nas versões modernas das “Hoovervilles” sofreram a mesma experiência que Scott. Uma mulher disse a rede britânica de rádio e TV BBC que vivia em uma casa de quatro cômodos com dois banheiros. Quando seu marido caiu doente, ficou impossível mantê-la. “Temos muitos negos, que habitualmente iam nos visitar e ficavam em casa. Agora, não quero que venham aqui. Vamos visitá-los”, disse. Ela e seu marido vivem em uma casa sobre rodas. A maioria das atuais “Hoovervilles” respeita o espírito comunitário e estão auto-regulamentadas, disse Scott à IPS. “Existem certas regras. Por exemplo, não às drogas, ao álcool e à violência”, disse.

Scott e sua organização apóiam a criação dos assentamentos. “Naturalmente, não são a solução, mas resultam necessários até que se possa encontrar abrigos e casas adequadas”, afirmou. “O assentamento em São Petersburgo, no Estado da Flórida, tem, inclusive, apoio do governo e algumas organizações sem fins lucrativos ajudam em outros semelhantes no resto dopais”, acrescentou. o diretor-executivo do Conselho para uma Política Nacional para os Sem Teto (NPACH), Jeremy Rosen, considera que a recessão econômica vai aumentar sensivelmente o número de pessoas sem um lugar para morar.

Segundo um estudo desta organização, para o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano norte-americano (HUD) a definição de uma pessoa sem ter onde morar “não inclui as crianças e as famílias que perderam suas casas, mas vivem temporariamente em hotéis ou com outras pessoas pelo fato de outro tipo de alojamento não ser apropriado ou não estar disponível”. Essas pessoas “se converteram em sem teto ocultos, movendo-se de um lugar a outro. Dormem em automóveis, abrigos, às vezes em casas de amigos ou de familiares. Infelizmente, nosso país prefere ignorar esta realidade e não considera muitos deles como gente sem teto”, acrescentou Rosen.

Estima-se que há mais de 600 mil crianças e jovens sem-teto não considerados como tais pelo HUD. “Mais de 60% dos estudantes sem casa identificados pelas escolas públicas carecem de acesso à assistência governamental”, destaca o estudo. “Nos últimos sete anos vimos aumentar o número dos que não possuem um teto, devido aos furacões, à recessão não admitida oficialmente e à crise das execuções hipótecarias. Há um mês, mais de 900 mil casas foram executadas e muitas dessas famílias acabaram na rua”, afirmou Stoops.

No condado de Cook, Estado de Illinois, o xerife Tom Dart anunciou que suspendia todo desalojamento hipotecário. A razão fundamental é a “crescente quantidade de desalojamento de inquilinos, a maioria dos quais pagava pontualmente seus aluguéis e que descobriram que os donos dos imóveis haviam deixado de pagar seus empréstimos e as casas foram executadas”, disse à IPS o porta-voz de Dart, Steve Patterson.

“As instituições financeiras vêem apenas pedaços de papel, não as pessoas, e não lhes importa quem mora nos imóveis. Só o que querem é o dinheiro e não têm a menor contemplação pelos que acabam prejudicados”, disse Dart em uma entrevista coletiva. O xerife quer que as companhias que concederam os empréstimos ofereçam ao seu escritório informação suficiente para que uma execução hipotecária possa ser feita.

A consultoria RealtyTrac disse que nunca na história norte-americana houve tantas execuções hipotecarias, que as petições respectivas aumentaram cerca de 100% no último ano e que meio milhão de pessoas perderão suas casas nos próximos dois anos, devido ao aumento nas prestações variáveis de suas hipotecas. Como não há abrigos suficientes nos Estados Unidos para todos que ficam sem casa, Stoops pediu “compaixão” ao governo. “Cada cidade deveria ter um parque ou outro espaço público para as pessoas instalarem suas barracas”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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