Ramalá, Palestina, 06/11/2008 – Barack Obama assumirá a presidência dos Estados Unidos no auge da onde de extremismo no Oriente Médio desatada pela invasão do Iraque em 2003. A guerra de Washington contra “o terror” se tornou uma ameaça à paz. Uma combinação de regimes despóticos árabes apoiados pelo Ocidente, neocolonialismo, intolerância religiosa, paralisação na área educacional, choque de culturas e ideologias e uma política externa norte-americana inclinada a favor de Israel consolidaram esta situação. A possibilidade de um ataque israelense contra o Irã torna o futuro ainda mais abominável. Mas, nem todas as esperanças estão perdidas, segundo um analista israelense e outro palestino.
“Há possibilidades de se reparar o vínculo entre Estados Unidos e Oriente Médio, mas isso exige uma grande mudança de atitude por parte de Washington em relação aos árabes e muçulmanos”, disse à IPS Ahmed Yousef, assessor de Ismail Haniya, líder do Movimento de Resistência Islâmica (Hamás). Por outro lado, Moshe Maoz, professor de estudos islâmicos e de Oriente Médio na Universidade Hebréia de Jerusalém e do Instituto de Pesquisas para o Progresso da Paz Harry S. Truman, disse à IPS que “os governos árabes e os próprios líderes extremistas deverão refletir e trabalhar duro para que exista alguma esperança de avanço no campo político”.
Há sete anos, no pior da espiral de morte e destruição que surgia no Iraque, o norte-americano Conselho sobre Políticas no Oriente Médio (MEPC) examinou em uma conferência quais erros foram cometidos pelo Ocidente e pelo mundo muçulmano, e por qual motivo. Milton Viorst, autor de “Storm from the East” (Tempestade do Leste) e especialista em assuntos de Oriente Médio disse na época que, de fato, na região se registra um choque de civilizações. “Aqui temos duas civilizações que precisamos entender. Creio que a guerra no Iraque é simplesmente o último foco de um conflito que remonta à época do profeta Maomé, há quase 1.400 anos. Nem a civilização crista nem a muçulmana são necessariamente superiores, mas ambas são profundamente diferentes”, afirmou.
Os sangrentos massacres ocorridos durante as Cruzadas cristãs, desde o século XI, levaram ao enfrentamento com o Império Otomano que se estendeu até começo do século XX. “O Império Otomano se interpunha no caminho de Grã-Bretanha e França, as duas grandes potências imperiais, na conquista da região. E quando os otomanos caíram na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), toda a região voltou a abrir-se ao Ocidente cristão”, disse Viorst. Shibley Telhami, da Universidade de Maryland e do Instituto Brookings, nos Estados Unidos, disse que ao longo da história foram registrados choques de civilizações, o que, de todo modo, não basta para explicar choques internos como os existentes entre muçulmanos moderados e os de linha dura no Oriente Médio. “Na segunda Guerra do Líbano (com Israel em 2006), a maioria do público árabe simpatizava com (o xiita e pró-sírio Partido de Deus) Hezbolá, embora o governo libanês seja pró-ocidental”, destacou Telhami.
Para Anthony Cordesman, do Centro para os Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington, “a luta é religiosa, cultural, intelectual, política e ideológica, não militar ou guiada por valores seculares. Assim, a guerra real contra o terrorismo só pode ser ganha parcialmente dentro do Islã e em um nível religioso e ideológico”. Boa parte dos pobres do Oriente Médio se vêem atraídos para o extremismo religioso em resposta à falta de esperanças pessoais. Além disso, muitos árabes dizem que a apelação dos Estados Unidos à força militar é contraproducente se deseja ganhar corações e mentes da maioria dos árabes muçulmanos moderados.
“Há muitas lembranças do colonialismo e muita indignação pelos vínculos dos Estados Unidos com Israel para que as forças ocidentais tenham êxito”, disse Cordesman. “Os Estados Unidos devem compreender que só podem usar sua influência e sua capacidade antiterrorista e militar se mudar sua imagem no mundo islâmico”, acrescentou. “Esse é o centro do assunto”, afirmou Yousef. “Os árabes e os muçulmanos estão fartos do enfoque parcial de Washington sobre o conflito palestino-israelense. Isto causou amargura e ressentimento. Se este conflito for resolvido, terá um efeito domino sobre a paz no resto da região”, disse à IPS.
Para Cordesman, as tentativas de mudar a imagem dos Estados Unidos exigem esforços para apoiar uma reforma genuína, sem limitar-se à retórica. Será necessário criar postos de trabalho, estabilizar as economias, respeitar os direitos humanos e melhorar a educação, acrescentou. Moaz disse à IPS que, para vencer o extremismo e o terrorismo também é necessário que os governo árabes corruptos avancem para a democracia e distribuição mais igual da riqueza. Explicou que a maioria dos árabes está mais preocupada com a sobrevivência diária do que pelas preocupações ocidentais em torno dos direitos humanos.
Mas, seria contraproducente forçar essas sociedades a realizarem eleições democráticas antes de se estabelecer sistemas políticos que incorporem sólidos sistemas de pesos e contra-pesos e de controle recíproco entre poderes, afirmou. “Como podem ser estabelecidos governos livres e democráticos se o Ocidente, com sua falta de visão, persegue seus próprios interesses geopolíticos e econômicos no curto prazo, que envolvam o apoio a regimes despóticos e ditatoriais que lhes sejam leais?”, perguntou. Telhami disse que o problema é que nem os governos árabes não eleitos nem seus apoiadores ocidentais se preocupam muito com a opinião pública árabe e suas necessidades.
“Respeitávamos a tecnologia e as tradições de democracia e direitos humanos. Todos estivemos com os Estados Unidos quando combateu os comunistas e se alinhou com os mujahidines (combatentes islâmicos) no Afeganistão”, recordou Yousef, que viveu anos nos Estados Unidos. “Não odiamos os cidadãos norte-americanos comuns, e não temos nenhuma simpatia pelos criminosos que cometeram os atentados de 11 de setembro de 2001. mas essa gente ganhará ainda mais apoio de elementos extremistas se Washington mantiver sua postura e continuar exibindo uma agenda claramente anti-islâmica e anti-árabe”, concluiu Yousef. (IPS/Envolverde)

