Beirute, 07/11/2008 – O porto libanês de Trípoli atraiu há alguns meses a atenção da imprensa por uma série de atentados. Mas, após um recente pacto de conciliação política, o exército assumiu a garantia da estabilidade. E o fez infiltrando uma célula extremista acusada de orquestrar ataques contra o exército libanês. Na presença do primeiro-ministro Fouad Siniora líderes de várias facções de Trípoli chegaram em outubro a um acordo de reconciliação na residência do xeque Malek Chaar, mufti (máxima autoridade religiosa) para todo o norte do Líbano. A ratificação do pacto pôs fim a quatro meses de violência entre a minoria alawita da área de Baal Mohsen, também conhecida como Jabal Mohsen, e comunidades sunitas do vizinho distrito de Bab el-Tebbaneh. Os alawitas são uma seita xiita.
O acordo foi assinado pelo líder sunita do Movimento Futuro, Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, assassinado em 2005 em um ataque com explosivos pelo qual se responsabilizou a Síria. O pacto também foi aprovado pelo líder alawita pró-sírio, Rifaat al-Assad, e seu filho, Ali Eid. Ao colocar sua assinatura, Siniora disse: “Trípoli deveria ser uma cidade desmilitarizada, livre de homens armados e de toda presença militar”. O chefe de governo continuou destacando que o exército e as forças de segurança têm ordens de aplicar a lei a e ordem. Além disso, prometeu ajuda pública às necessidades dos afetados pela violência.
Uma fonte do exército que pediu para não ser identificada admitiu, à IPS, que “a luta de poder entre as diferentes facções do norte diminuíram temporariamente desde a reconciliação”. O dinheiro que fluirá para Trípoli ajudará a aliviar a pressão nas favelas que se espalham ao redor da cidade, mas a questão das armas, que abundam na capital setentrional, continua sem solução, acrescentou. Os alawitas ainda possuem grandes reservas de armas que receberam da Sira, enquanto também se pode encontrar armas em muitas casas sunitas, acrescentou o informante.
O rachado governo libanês ainda deve abordar a questão do desarmamento, e restabelecer a paz em Trípoli demonstra ser um complexo exercício de cooperação. Desde a morte de Hariri, a maioria parlamentar libanesa, pró-ocidental e árabe – integrada pelo Movimento Futuro, Partido Socialista Progressista Druso e pelos Falangistas Cristãos e pelas Forças Libanesa – enfrenta a minoria pró-iraniana e pró-síria dominada pelo movimento xiita Hezbolá e pelos partidos Amal, aliados ao cristão Movimento Patriótico Livre.
Apesar de os dois lados formarem um governo de unidade desde julho, e da lealdade de Trípoli com a liderança da maioria, a disensão entre as duas facções, embora condenada oficialmente por todas as partes, se traduziu em intermitentes focos de violência na cidade. A área foi atingida por dois ataques terroristas que em 13 de agosto e 29 de setembro tiveram por alvos objetivos do exército, e nos quais morreram 21 pessoas. “No norte houve um definitivo colapso do poder. Cada pequena facção assumiu o controle de um bairro e impôs sua lei, e inclusive houve feudos dominados por várias facções políticas”, disse a fonte do exército.
Entretanto, os setores políticos parecem ter chegado finalmente a um consenso. A colaboração entre vários serviços de inteligência permitiu tomar medidas contra uma célula terrorista acusada dos ataques, a qual “operava de modo independente”, disse Moustapha Allouch, parlamentar do Movimento Futuro. Mas, facções islâmicas próximas à minoria acrescentaram que a ofensiva foi possível pelo medo de uma possível intervenção síria no norte, sob o pretexto de apoiar a comunidade alawita, pela possibilidade de repressão contra movimentos salafistas (outra facção radical do Islã) e pela pressão de outros países.
Historicamente, a Síria, vizinha imediata do Líbano no norte e governada por uma minoria alawita, eliminou os movimento islâmicos. E sabe-se que Trípoli é o lar de várias facções fundamentalistas. No dia 13 de outubro foram presos membros da organização terrorista supostamente envolvida nos recentes ataques contra o exército no norte do país, segundo declaração escrita divulgada pelo próprio exército libanês.
“As tensões se diluíram ater certo ponto desde a intervenção da Alta Comissão de Alívio (HCR), que maneja as compensações às vítimas da violência em Trípoli. Mas, o prolongado processo frustrou alguns cidadãos”, disse Allouch. O parlamentar destacou que o frágil processo de reconciliação ainda poderia ser atraiçoado pela atividade de serviços estrangeiros de inteligência. Em outras palavras, pela Síria. Mas, no momento, a redução no número de uniformizados circulando pelas ruas resulta em um cenário que acalma. (IPS/Envolverde)

