Nações Unidas, 07/11/2008 – Com a eleição de Barack Obama como novo presidente dos Estados Unidos, muitos observadores e diplomatas acreditam que a Organização das Nações Unidas poderá contar com maior cooperação por parte de Washington, após oito anos de difíceis relações com a administração de George W. Bush. “Creio que veremos uma participação maior dos Estados Unidos na ONU”, disse à IPS o diretor-executivo do Fórum de Políticas Globais, James Paul.
Comparado com os anos de Bush, do Partido Republicano, quando as relações entre Estados Unidos e ONU eram “extremamente tensas” – sobretudo devido à polêmica guerra no Iraque – a presidência de Obama, do Partido Democrata, “será, provavelmente, um avanço”, disse Paul. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, ao felicitar o presidente eleito disse: “estou muito otimista sobre termos uma forte relação” e uma “renovada sociedade sob sua administração”.
Além disso, Ban expressou sua expectativa sobre a possibilidade de “um novo multilateralismo”, baseando-se em declarações de Obama feitas durante sua campanha em referência a uma “nova era na sociedade global” e à construção de “pontes de cooperação com a ONU e outras nações’. O secretário-geral recordou sua primeira, e até agora única, conversa com Obama, durante um encontro casual em uma viagem aérea de Washington a Nova York, no começo do ano passado. “Passamos mais de meia hora no avião sentados juntos, discutindo muitos temas. Estava muito comprometido e sabia muito sobre as Nações Unidas, e estava muito animado”, disse Ban.
Ban Ki-moon também felicitou seu “bom amigo”, o senador Joe Biden, agora vice-presidente eleito, com que trabalhou quando integrava o Comitê de Relações Exteriores do Senado. Além de suas declarações oficiais, uma pesquisa informal entre mais de duas dezenas de funcionários da ONU e delegados estrangeiros divulgada pelo jornal The Washington Post no dia 26 de outubro mostrava um esmagador apoio a Obama, e muito pouco ao seu adversário republicano, John McCain. Uma das propostas de McCain pode ter contribuído claramente para a preferência por Obama na ONU: criar uma “Liga de Democracias” com a finalidade de promover a liberdade e a democracia no mundo.
“Poderia ser prejudicial à ONU se alguns países colocassem sua energia na Liga, não nas Nações Unidas”, disse à IPS o vice-presidente para estudos da organização independente Carnegie Endowment for International Peace, Thomas Carothers. “Mas, de todo modo, houve pouco apoio à idéia fora dos Estados Unidos”. Agora que Obama foi eleito, Carothers vê “uma possibilidade para um novo começo”, com disse o embaixador da Suíça na ONU, Peter Maurer, em entrevista para The Nation. “A nova administração encontrará uma espécie de janela de oportunidades, porque há uma enorme boa vontade em torno da ONU para ver e ouvir novas vozes”, disse Maurer.
Obama esclareceu sua postura em alguns temas que estão “pendentes ou são de alguma forma problemáticos” entre Washington e a ONU, destacou o presidente da Associação de Nações Unidas dos Estados Unidos, William Luers. “Sua intenção será trabalhar mais de perto com a ONU na manutenção da paz e na ajuda humanitária”, disse Luers. Obama também mencionou o controle de armas, a questão do desarmamento nuclear, a não-proliferação e o pagamento da dívida dos Estados Unidos com a ONU com áreas de conflito que devem ser resolvidas. Luers espera que Obama reconheça o fato de que “cada desafio que enfrentamos em política externa, além da economia, estão sob alguma forma de mandato da ONU”. Como exemplos mencionou as armas atômicas, a mudança climática e a planejada retirada das tropas norte-americanas do Iraque.
Entretanto, todos os especialistas com os quais a IPS conversou aconselharam a não se ter expectativas muito grandes com Obama. Em primeiro lugar, porque a cooperação entre Washington e ONU nem sempre foi melhor com governos democratas do que com republicanos, com disse James Paul. Durante o governo de Bill Clinton (1993-2001), por exemplo, “as relações nunca foram agradáveis”, disse. Pelo contrário, “George Bush pai (1989-1993) teve uma boa relação com as Nações Unidas”, disse, por sua vez, Luers. Em segundo lugar, durante sua campanha “Obama disse muito pouco sobre as Nações Unidas, e seu enfoque do governo ainda estará influenciado por forças conservadoras em Washington e Wall Street, embora também por forças mais progressistas no mundo. É preciso ver como atuará sobre tudo isto na ONU”, acrescentou.
Em terceiro lugar, alguns problemas básicos nas relações entre Washington e a ONU podem perdurar, disse Thomas Carothers. Um deles é o “desejo dos Estados Unidos de proteger sua soberania e, portanto, sua vacilação em dar grande poder aos instrumentos internacionais e aos acordos multilaterais. E não podemos esperar nenhuma verdadeira lua de mel do Conselho de Segurança”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

