UXBRIDGE, Canadá,, 11/11/2008 – (Tierramérica).- A crise ambiental do Haiti deve ser a mais desesperadora do planeta, afirmou um alto funcionário das Nações Unidas nesse país caribenho.
“Não creio que pudéssemos estar pior. A do Haiti deve ser a crise ambiental mais desesperadora do planeta”, disse ao Terramérica, de Porto Príncipe, o coordenador humanitário residente e diretor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Joel Boutroue. Boutroue se refere ao futuro desse país, o mais pobre da América, ocupado por tropas de paz das Nações Unidas desde 2004, e esclarece que “a resposta internacional ao desastre é bastante boa”, embora ainda existam regiões de desnutrição grave. Quase todo mundo tem acesso a água limpa e apenas cerca de três mil famílias carecem de abrigo, afirmou.
Por outro lado, é impossível alimentar por muito tempo um país de 9,5 milhões de habitantes com base na assistência internacional. Uma meta como o auto-abastecimento de metade dos alimentos está a anos de distância, segundo Boutroue. O Haiti perdeu boa parte de seus solos férteis pela erosão causada pelo corte de 98% das florestas para uso da madeira como lenha. Uma tempestade comum causa inundações devastadoras, porque não há mecanismos naturais de contenção e absorção da água. Doenças, como a diarréia, causadas por água contaminada, porque não há florestas nem outra vegetação ribeirinha que filtre e limpe as águas, atingem 90% das crianças haitianas.
O Haiti está há muitos anos em crise ambiental, segundo muitos especialistas, mas os esforços para melhorar a situação são muito lentos. A chave para restaurar o que alguma vez foram florestas e vales verdes é reflorestar, construir áreas para cultivos e canalizar as águas. Trata-se da restauração de bacias hídricas, de altíssima prioridade para o Haiti, mas com muito pouco trabalho no terreno. Demorou três anos para o início de um único projeto, lamenta Boutroue. Apenas 2% da bacia hídrica da cidade de Gonaïves foi restaurada, a um custo entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões, acrescentou. Mas as tempestades tropicais que atingiram essa região também arrasaram boa parte do trabalho. Outras regiões tiveram a mesma sorte.
“Quatro tempestades consecutivas devastariam qualquer região, inclusive os Estados Unidos”, disse Brad Lewis, encarregado de desenvolvimento da organização norte-americana cristã Floresta, que trabalha no Haiti há mais de uma década. “Imaginemos que Nova Orleans tivesse sido atingida por mais três tempestades nas semanas posteriores ao Furacão Katrina (2005)”, disse Lewis ao Terramérica. Floresta trabalha na plantação de 124 mil árvores e na construção de quase 300 quilômetros de barreiras para conservar os solos, mas boa parte deste esforço ficou destruída quando a tempestade tropical Fay foi seguida pelos furacões Gustav, Hanna e Ike.
“O reflorestamento e as barreiras se mantiveram após a primeira tempestade, demonstrando que servem para reduzir a erosão do solo e impedir inundações”, disse Lewis. Suas esperanças estão em que alguns de seus esforços funcionam, como o novo conceito de “terraços vivos”, que consiste no plantio de palmeiras de pinha (abacaxi) ou cana-de-açúcar que sirvam de barreiras para evitar a dispersão do solo e da água. “São tão eficazes quanto um muro de pedra e, além disso, servem de alimento”, afirmou. No círculo de pobreza em que vivem, em geral os agricultores só podem cultivar o suficiente para suas famílias e com práticas pouco aptas para conservar o solo.
Isto os impede de mudar as técnicas, em um país onde as organizações e agências internacionais chegam, dão um pouco de ajuda e apoio a novas idéias e vão embora em seis meses ou dois anos, quando acabam seu dinheiro, disse Lewis. Romper esse círculo, desenvolver a capacidade de alimentar seu próprio povo e criar resiliência diante dos futuros impactos da mudança climática são desafios enormes, reconhece Boutroue. No mês passado, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, percorreu o país e anunciou US$ 25 milhões em ajuda de emergência para reconstruir as principais pontes e ampliar programas destinados a reduzir a vulnerabilidade aos desastres naturais. Essa quantia se soma a US$ 240 milhões concedidos pelo Banco em doações e empréstimos sem juros desde 2005.
Entretanto, “esse apoio é suficiente apenas para manter o nariz fora da água”, disse Boutroue. A Organização das Nações Unidas, o Banco Mundial e outras entidades desenvolveram um plano Marco para a Recuperação do Haiti, trienal e multimilionário, que será apresentado ainda este ano para “pôr o país de pé”, especialmente em restauração de bacias, serviços básicos e segurança alimentar, acrescenta Boutroue. “Sabemos como restaurar as bacias, sabemos que funciona e temos gente e capacidade para fazê-lo. Tudo o que precisamos é de mais dinheiro”, ressalta.
* O autor é correspondente da IPS.


