Nações Unidas, 29/03/2005 – A tuberculose tem cura. Mas no ano passado matou mais pessoas do que a soma de todas as guerras, terremotos, inundações, tsunamis, acidentes aéreos, atentados terroristas e assassinados registrados em todo o mundo. A tuberculose afeta em algum momento de suas vidas um em cada três habitantes do planeta e mata 1,8 milhão a cada ano. O tratamento é barato e efetivo. Porém, milhões de doentes no mundo em desenvolvimento não têm acesso aos medicamentos necessários para sobreviver. "A tubérculos foi a tragédia mais estúpida do ano passado", disse o médico Bobby John, presidente da Campanha Esforço Maciço, rede de organizações da sociedade civil que lutam contra a aids, a tuberculose e a malária e que divulgaram o "Informe TB Global 2005". Segundo John, "quase todos esses 1,8 milhão de mortes poderiam ter sido evitados se os doentes tivessem sido adequadamente tratados com remédios eficientes".
A tuberculoso é, basicamente, uma doença do sistema respiratório, e o agente causador, o bacilo de Koch, é transmitido através da tosse e do espirro. O mal foi quase eliminado em muitos países ricos do Ocidente, mas não está derrotado. A doença afeta desproporcionalmente os países pobres, onde se registram 98% das infecções mundiais, e sendo que 80% se concentram em apenas 22 países. Desnutrição, insalubridade e, especialmente, a infecção pelo vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV), causador da aids, enfraquecem o sistema imunológico dos pobres do Sul, muito mais vulneráveis ao bacilo de Koch do que os habitantes do Norte rico. A negligência dos governos converteu uma enfermidade completamente curável no pesadelo dos pobres do planeta, segundo ativistas da saúde.
"A maioria dos governos do mundo rico vêem a tuberculose como uma doença do passado", disse à IPS Joanne Carter, diretora legislativa da organização Results International, co-patrocinadora do "Informe TB Global 2005". Quando "são registradas mortes em um acidente aéreo, por um tsunami ou em qualquer outro tipo de grande desastre que ocorre em algum lugar e em um momento determinado, essa tragédia é destacada com maior intensidade no cenário mundial", afirmou Carter. "Mas, diariamente morrem cinco mil pessoas em pequenos povoados e bairros pobres de todo o mundo vítimas de uma doença curável, e somente existe silêncio", lamentou a ativista. Os medicamentos para o tratamento completo da tuberculose custam apenas entre US$ 10 e US$ 12. A Organização Mundial da Saúde informou que graças a essas drogas se consegue a cura de aproximadamente 85% dos casos.
"Com um tratamento tão barato, é inconcebível que alguém morra sem recebê-lo. Mas, esse é o cenário que se repete todos os dias em todo o mundo", diz o relatório da Results International. O chamado "tratamento direto sob observação direta" (conhecido pela sigla em inglês DOTS), para ser eficaz deve ser contínuo por seis meses, sem interrupção. Se forem registrados intervalos por falta de recursos, ou qualquer outra razão, podem se desenvolver no organismo do paciente cepas de bacilos de Koch resistentes aos medicamentos. "De uma perspectiva de saúde pública, um tratamento mal supervisionado ou incompleto é pior do que a falta total de tratamento", considerou a OMS.
Embora o contágio da tuberculose tenha caído 20% desde 1990, e se estabilizado em muitas regiões, o mal continua aterrorizando áreas como o sudeste asiático – com três milhões de novos casos em 2005 – e a Europa oriental, onde aumentaram as mortes depois de quatro décadas de redução, segundo o Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária. Os especialistas deste fundo, formado pela Organização das Nações Unidas e diversas agências, pelo Banco Mundial e doadores privados, calcularam que, se não houver avanços, quase um bilhão de pessoas mais estarão doentes até 2020, com um resultado de 35 milhões de mortes. A prevalência da tuberculose triplicou na África desde 1990, e a doença continua crescendo entre 3% e 4% ao ano, fundamentalmente por sua mortal combinação com a aids.
Quase uma em cada três pacientes de aids contraíram em seu organismo o bacilo de Koch, principal causa de morte entre os portadores do vírus HIV. O diretor-geral da OMS, Lee Jong-wook, reiterou a necessidade de incorporar o tratamento da tuberculose na luta mundial contra a aids. No ano passado, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela declarou: "A tubérculos é com demasiada freqüência uma sentença de morte para as pessoas com aids. Não podemos combater a aids a menos que lutemos muito mais contra a tuberculose". (IPS/Envolverde)

