EUA: Veteranos de guerras apostam em Obama

Oakland, Estados Unidos, 20/11/2008 – Walter Williams, de 33 anos, esteve entre as milhares de pessoas que no último dia 4 saíram às ruas desta cidade para comemorar a eleição de Barack Obama como 44º presidente dos Estados Unidos. Williams, um veterano do exército norte-americano que serviu no Iraque e no Afeganistão, inicialmente teve problemas para enfrentar seu regresso da zona de guerra. Consumiu drogas e dormiu em seu automóvel e nas casas de amigos antes de se estabelecer por si mesmo e conseguir trabalho na organização sem fins lucrativos Swords to Plowshares (De costas para a lâmina do arado), em São Francisco, onde ajuda outros ex-combatentes a encontrar emprego.

Na noite da eleição, Williams disse à IPS que havia desistido de participar do processo eleitoral após a mentira que viu na guerra, mas, que se emocionou com a campanha de Obama após ver o presidente eleito falar aos veteranos pelo canal MTV. “Ele se preocupou o suficiente para perguntar. Não voltou as costas, com faz a maioria das pessoas. Realmente, se preocupa com o homem comum, e o homem comum é o que está ali, lutando”, afirmou o veterano.

Os que defendem os veteranos também depositam grandes esperanças em um governo de Obama. Observam como o senador co-patrocinou a Lei de Dignidade para os Combatentes Feridos, criada para solucionar problemas com o sistema médico militar depois que o jornal The Washington Post revelou, em 2007, as deploráveis condições existentes no Centro Médico Militar Walter Reed.

Obama também foi um firme defensor do fortalecimento dos benefícios educacionais para os ex-combatentes, através de uma Lei do Soldado mais generosa, e votou pelo aumento da verba destinada ao Departamento de Assuntos dos Veteranos, ao qual recorrem mais de 350 mil ex-soldados em busca de tratamento médico ao regressarem do Iraque e do Afeganistão. Em seu discurso de aceitação da indicação democrata à Presidência, em agosto, Obama se referiu várias vezes à terrível situação vivida pelos veteranos de guerra. Criticou o governo de George W. Bush por deixar “os veteranos dormirem nas ruas e suas famílias serem arrastadas para a pobreza”.

“Nos rostos destes jovens veteranos que voltam do Iraque e do Afeganistão vejo meu avô, que se alistou depois de Pearl Harbor, marchou no exército de (George) Patton e foi recompensado por uma nação agradecida com a oportunidade de ir à faculdade graças à Lei do Soldado”, disse Obama. Paul Sullivan, diretor-executivo da organização Veteranos pelo Senso Comum, disse que a organização já considera Obama “pró-veterano”, e acrescentou: “Consideramos que tem uma disposição favorável em geral para os veteranos de guerra. Nos agradou vê-lo dar um perfil muito alto aos assuntos dos veteranos e esperamos que continue quando estiver na Casa Branca”.

Donald Overton, diretor da Veteranos da Guerra Moderna, expressou à IPS ponto de vista semelhante. “Tive a oportunidade de me reunir com a equipe do presidente eleito na Convenção Nacional Democrata. Ele realmente parece ter seu coração no lugar certo. Está se comprometendo com a comunidade de veteranos e propondo mudanças significativas, por isso esperamos que seu governo e sua equipe de transição avaliem a situação, ponham as pessoas certas nos cargos e realmente criem uma mudança dentro do sistema do Departamento de Assuntos dos Veteranos”.

Em seu site oficial (www.change.gov), Obama promete aumentar a quantidade de pessoal na área de saúde mental desse departamento, reformar o burocrático sistema governamental de solicitações de incapacidade e aumentar o número de Centros de Veteranos, onde os ex-combatentes possam encontrar uma comunidade enquanto fazem a difícil transição da guerra para a vida civil. Se cumprir essas promessas, fará uma enorme diferença nas vidas de centenas de milhares de pessoas. Mas, não será fácil, porque o atual presidente, George W. Bush, deixa o Departamento de Assuntos dos Veteranos em uma situação caótica. Segundo este departamento, 18 veteranos se suicidam por dia e 200 mil, sem casa, dormem nas ruas a cada noite.

Um estudo apresentado em abril pela Corporação Rand concluiu que 300 mil veteranos das guerras do Iraque e Afeganistão sofrem hoje de estresse pós-traumático ou depressões importantes. Outros 320 mil apresentam dano cerebral traumático e dano cerebral físico. A maioria não recebe ajuda do Pentágono nem do sistema do Departamento de Assuntos dos Veteranos que, segundo os críticos, estão mais preocupados em esconder fatos desagradáveis do que fazer o que tem de fazer pelos veteranos. As organizações defensoras dos ex-combatentes apresentaram demandas legais contra o governo Bush por falta de atenção.

A queixa da Veteranos pelo Senso comum pretende obrigar o departamento a dar tratamento aos que sofrem estresse pós-traumático. Já a Veteranos da Guerra Moderna apresentou uma demanda na semana passada para forçar esse departamento a conceder subvenções por incapacidade aos que ficaram feridos de forma permanente. As duas organizações levarão adiante suas demandas mesmo após a posse de Obama. (IPS/Envolverde)

* Aaron Glantz é correspondente da IPS e autor do livro The war comes home:Washington’s battle against América’s veterans (A guerra chega à casa: a batalha de Washington contra os veteranos de guerra norte-americanos), a ser publicado em breve.

Aaron Glantz

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