La Paz, 02/12/2008 – O jornalismo indígena parece estar em um etapa análoga à vivida décadas atrás pelo jornalismo ambiental: nascido na necessidade e na denúncia, expressa a constante tensão entre ativismo e exercício profissional.
Arias é uma líder do movimento aborígine de seu país, mas também estudou jornalismo e é responsável pelas notícias do site da Onic e de sua rádio virtual Dachibedea (Nossa Voz). Dessa constatação fizeram eco vários participantes do painel, patrocinado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), do qual participaram aborígines de Bolívia, Colômbia, Equador, Guatemala, Peru e Venezuela que assumiram a tarefa de informar, educar ou denunciar em rádios comunitárias, meios alternativos ou locais e organizações sociais, com diferentes propósitos reivindicatórios ou de formação.
Dois jornalistas da Nicarágua não puderam participar. Um porque foi hospitalizado de urgência após contrair malária, e outro não conseguiu convencer a empresa aérea de que não precisava de visto para entrar na Bolívia. Seus casos ilustram o tipo de dificuldades que surgem a cada passo desde que a agência IPS me encarregou da tarefa de identificar colegas dedicados a temas indígenas, treiná-los e publicá-los em nosso serviço mundial de notícias. Nas zonas habitadas por povos originais da América Latina, a brecha digital “é um abismo”, afirmaram vários.
Alguns apenas têm acesso ao email uma vez por semana ou a cada 15 dias. Isso acontece com o venezuelano Jorge Montiel, do povo wayuu, que espera conseguir um computador pessoal dentro de alguns meses, quando conseguir juntar US$ 500 ou US% 600 para comprar um usado. No entanto, a viagem por rio que o colombiano Milton Piranga quer fazer para escrever sobre um povo amazônico em vias de extinção custa US$ 1.500,mais caro do que uma passagem de avião para a Europa. Piranga é de outro povo vulnerável, o koreguaje, concentrado no departamento do Caquetá e reduzido a cerca de 3.500 pessoas. Seu pai, um cacique importante de sua comunidade, foi morto pela guerrilha quando ele tinha 10 anos.
O idioma espanhol trazido pelos conquistadores ficou exposto também como matéria de tensões. Obrigados a dominá-lo para se comunicarem entre si e com o resto da sociedade, os indígenas às vezes o usam a contragosto. Era interessante ver os convidados chegados de outros países entrevistando camponeses ayumaras nas montanhas de Loripata, a 300 quilômetros de La Paz. Dona Teodora explicava impassível em sua língua como havia construído em 25 dias, e com ajuda de seus vizinhos, o terraço onde plantou nabos, até que uma colombiana se impacientou: “Fale-me em espanhol, assim não nos entenderemos”. Diante da insistência, Teodora concordou em intercalar em sua fala algumas palavras em castelhano.
A tradução simultânea, a cargo de um técnico da Fida, soava muito sintética e pouco nos agradou. Então, os entrevistadores decidiram gravar a entrevistada em sua língua e pedir mais tarde uma tradução do registro ao correspondente da IPS na Bolívia, Franz Chávez, que domina a língua aymara. Em Loripata, 50 famílias de três comunidades sobrevivem lutando contra a erosão de suas terras, pequenas áreas empinadas em ladeiras, cujos solos e adubos são levados pela água cada vez que chove.
Um programa financiado pelo Fida os ajuda com fundos e conhecimento técnico para recuperar antigas práticas de cultivo como os terraços, que impedem a erosão, e para plantar árvores. Cultivam batata, milho, algumas hortaliças, criam galinhas,. Mas, nada basta para superar a desnutrição. Porém, nos receberam com um banquete: batatas de diversas variedades, cozidas ou assadas, mandioca, tortillas de ovos criollos, frango assado e até salada, uma excentricidade apenas presente para receber os visitantes.
Enquanto descíamos pelo caminho das terraças até a aldeia, a peruana Milza Hinostroza, de 23 anos, formada em jornalismo e parte do programa de rádio “El Cafetalero”, passou de entrevistadora a fonte, quando começou a contar as realidades dos pequenos produtores de café de seu país, um tema dominante. No painel houve perguntas que eram desafios. “Por que temos de consultar como fonte empresas denunciadas por contaminarem ou saquearem nossas terras ou os governos, se já aprecem todos os dias nos jornais ou na televisão? Por que temos de seguir os princípios de imparcialidade, veracidade, multiplicidade de fontes, se os grandes meios não o fazem quando informam sobre nós?”. As respostas foram por aproximação.
Porque uma matéria jornalística feita com rigor pode chegar a um público mais amplo do que uma declaração de denúncia, pode comover mais pessoas, pode expor os problemas de uma maneira mais forte. Além disso, o jornalismo é uma ferramenta maravilhosa para obter uma perspectiva ampla da realidade, para aprender a armar o quebra-cabeças dos problemas cotidianos, para ver as ligações ocultas dos fatos e para notar os matizes. Os homens e as mulheres que se reuniram na semana passada em La Paz chegaram ao jornalismo por necessidade, movidos por uma urgência anterior: denunciar o que acontece aos povos originários da América Latina. Agradeceram a possibilidade do encontro, do diálogo e de receber um pouco de ajuda técnica. O tempo dirá se seguirão, ou não, neste ofício. (IPS/Envolverde)

