Santiago, 19/12/2008 – A região da América Latina e do Caribe crescerá apenas 1,9% em 2009, e a quantidade de desempregados poderá aumentar de 16 milhões para 17,8 milhões de pessoas, devido à crise financeira internacional, informou ontem a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Latina e do Caribe 2008”, apresentado na capital chilena pela secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena. Apesar das turbulências, em 2008 a economia da região cresceu 4,6%, completando seis anos de crescimento consecutivo, afirma o “Balanço preliminar das economias da América Latina e do Caribe 2008”, apresentado na capital chilena pela secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena.
A Cepal espera uma “desaceleração” no primeiro semestre de 2009 e uma “gradual recuperação” nos seis meses seguintes, afirmou a representante desta agência da Organização das Nações Unidas. Se isso não ocorrer, o produto interno bruto da região “poderá ter crescimento zero”, o que implica não-crescimento, alertou Bárcena. A América do Sul cresceria 2,4%, a América Central 2,1% e o Caribe 1,9%. Lidera a lista o Peru, com crescimento estimado de 5%, seguido de Panamá com 4,5%, Uruguai e Cuba com 4% cada, Venezuela e Bolívia com 3% cada. Mais abaixo estão Argentina, com 2,6% e Brasil com 2,1%.
A atividade econômica de Chile, Colômbia, Equador, Nicarágua, Honduras e Paraguai crescerá 2%, enquanto o México encerra a lista com crescimento esperado de apenas 0,5%. O mais preocupante de 2009 será o mercado de trabalho, disse Bárcena. A taxa de desemprego pode aumentar dos 7,5% atuais para 7,8% a 8,1%, somando entre um milhão e 1,8 milhão de novos desempregados. Também se espera aumento no emprego informa, mais precário e pior pago.
Em sua apresentação, Bárcena comparou as economias da região com um avião sem motor, que voa como um planado. Seu único impulso é o crescimento dos anos anteriores, explicou. Os motores do crescimento estão se apagando “um a um”, tanto no “canal real” quanto no “canal financeiro”, disse. No primeiro, se destaca a desaceleração das exportações, queda no preços dos bens primários, redução das remessas, menor renda com turismo e redução dos fluxos de Investimento Estrangeiro Direto (IED).
Em matéria financeira, aumentou o custo do crédito externo e diminuiu a disponibilidade de financiamento internacional. Segundo a Cepal, em 2008 a conta corrente da América Latina terá ligeiro déficit de 0,6% do PIB regional, enquanto em 2009 o déficit chegaria a 2,5%. No entanto, as contas públicas anotarão em 2008 superávit de 0,3% do PIB regional, e déficit de 1,5% em 2009. Bárcena disse que as reservas internacionais da região somaram US$ 510 bilhões em 2008.
Mas, entre os fatores que contribuíram para seu aumento estão as entradas de capital financeiro. “Esta característica dá alguma dose de fragilidade ao estoque de reservas, especialmente em alguns países da região, tendo em conta a volatilidade que caracteriza esse tipo de recurso”, diz o documento de mais de 90 paginas. Ao contrário de outras crises, o setor privado é o mais exposto nestes momentos. No Chile, por exemplo a dívida externa privada representa 9% do PIBV, enquanto a pública é de 2%.
A boa notícia é que a inflação baixaria de 8,5% em 2008 para 6% em 2009. Embora Bárcena reconheça que vivemos “uma crise econômica inédita, desde a Grande Depressão de 1929” e que o cenário projetado para a região no curto prazo é preocupante, mostrou-se relativamente otimista diante do futuro, graças aos últimos sinais dados pelos governantes latino-americanos. Em particular, se referiu às quatro cúpulas simultâneas mantidas esta semana pelos 33 países da região na Costa do Sauípe, na Bahia.
“Vejo o futuro com um otimismo cuidadoso porque a região está se fortalecendo muito. Sem esta crise, talvez não tivéssemos todos os chefes de Estado na mesma sintonia, preocupados com as mesmas coisas”, disse Bárcena à IPS. “Independente das cores políticas, estamos conseguindo na região uma convergência de intenções, de dizer vamos todos colocar em prática políticas sociais, vamos aprender uns com os outros”, afirmou.
“Há uma enorme avidez por entender o que cada país está fazendo, como podem se combinar, como podem fazer mais esforços de cooperação”, acrescentou Bárcena. A seu ver, a região aprendeu algumas lições do passado, entre elas a implementação de políticas contra-cíclicas que promovem a demanda no momento em que esta se contrai, por meio do aumento no gasto público. Bárcena exortou os países a impedirem que a crise aumente a desigualdade, que preservem o gasto social, apostem no investimento em infra-estrutura e evitem o protecionismo.
Além disso, os convidou a buscarem soluções conjuntas, promovendo a integração regional, coordenando políticas macroeconômicas, aprofundando o comércio intra-regional e fortalecendo a institucionalidade da região. Por fim, Bárcena disse que a crise abre uma porta para pensar em um novo papel para o Estado e para reabrir a discussão sobre os modelos do desenvolvimento econômico dominantes. Neste último sentido, disse à IPS que os países já estão convergindo em duas idéias principais: evitar tendências de desigualdade nas medidas do Estado e avançar em “maior regulamentação e supervisão”, mas sem cair nos excessos, concluiu. (IPS/Envolverde)

