CUBA-EUA: País pequeno, vizinho grande

Havana, 13/01/2009 – Mais além das carências, sonhos não realizados e incertezas,o sentido de independência e soberania de um pequeno Estado situado geograficamente a pouca distância da nação mais poderosa do mundo surge como o mérito menos questionado da Revolução Cubana, que acaba de completar meio século. “Primeiro, a revolução demonstrou que na América Latina era possível escapar da órbita dos Estados Unidos, depois, que uma pequena nação podia sobreviver após ficar à deriva, sem potência que a desejasse, como aconteceu após o desaparecimento da União Soviética”, disse à IPS a jovem teatróloga cubana Josefina Paredes. Em sua opinião, aí é que radica o legado que deixa às novas gerações o processo político que no último dia 1º completou 50 anos e cujos principais protagonistas viveram em confronto com todas as administrações norte-americanas posteriores a 1959.

Sonia Benavides, cubana de 28 anos que estuda atualmente na Grã-Bretanha, se confessa nada condescendente com o que não tem no país que a viu nascer. Nos falta “livre arbítrio, possibilidade de pensar diferente, de seguir a ideologia do Feng Shui (prática tradicional da cultura chinesa), se assim eu quiser”, ressaltou. Mas, acredita que se não fosse a Revolução esta ilha do Caribe seria uma “republica bananeira onde a lei seria o dinheiro americano, os amos americanos, a ideologia americana”. Por isso, desde fora de cuba sente “o orgulho de sermos diferentes, corajosos, reconhecidos por dizermos não aos vizinhos do norte”, afirmou.

A partir de sua experiência pessoal, considera que a Revolução deixa aos jovens cubanos “o infinito prazer de dizer com a boca meio torta em pleno inverno inglês I’m from Cuba e observar o rosto de espanto, estranheza, curiosidade, admiração… Sim, admiração. E isso, quando está cercada por pessoas que vêm desde o Tibet até a Groelândia, te dá um sentido especial de individualidade. É uma reação que somente Cuba provoca. Deixa outra revolução pela frente”, disse Benavides via e-mail desde Londres.

Do lado opositor, Manuel Cuesta, porta-voz da agrupação de tendência moderada Arco Progressista, considera que o “único bem conseguido” nesse meio século de historia “tem a ver com o ciclo da independência e soberania” de Cuba. “Este problema histórico foi resolvido com a Revolução”, disse à IPS. Nesse sentido, considera que esse consenso em toro da independência e soberania é importante para conseguir o que, em sua opinião, “está para ser feito”, como completar a nação em termos de integração racial, democratizar a política e avançar para um “novo pacto social” sem o qual Cuba “não poderá se reencontrar e prosseguir”.

Mas o consenso também será necessário diante da chegada à Casa Branca do primeiro presidente norte-americano nascido depois de 1959, em plena era revolucionária cubana, e perspectivas certas de mudança em cinco décadas de confronto entre Washington e Havana. Barack Obama, que assumirá no próximo dia 20, falou em sua campanha eleitoral de uma possível “diplomacia direta” com cuba e prometeu, em um prazo aparentemente mais imediato, eliminar restrições ao envio de dinheiro para familiares e às viagens de cubano-americanos para a ilha.

As autoridades cubanas parecem perceber que uma distensão real e perdurável com o “inimigo ideológico” implica todo um desafio para uma sociedade formada em 70% por pessoas nascidas na era revolucionaria e nem sempre convencidas dos “males” do capitalismo. Se Obama cumprir sua promessa, “Nascerá uma nova etapa no combate ideológico entre Revolução Cubana e imperialismo, na qual será necessário o desenho de uma nova concepção teórica e propagandística sobre nossas idéias e sua origem”, afirmou Armando Hart, figura histórica do processo liderado por Fidel Castro, em um artigo que escreveu sobre o assunto.

Preocupação semelhante pareceu gravitar na celebração do 50º aniversario da Revolução Cubana, quando o presidente Raúl Castro pediu aos dirigentes do futuro que não sucumbam diante “do canto da sereia do inimigo”, permaneçam unidos junto ao povo e aprendam com a “história”. Cabe “à direção histórica da Revolução preparar as novas gerações para assumir a enorme responsabilidade de levar adiante o processo revolucionário”, disse Castro sem eu discurso de 1º desde mês em Santiago de Cuba. Um dia ante,s em entrevista à televisão cubana, Castro havia reiterado a posição de seu governo diante de um eventual dialogo com o novo governo dos Estados Unidos. “No dia em que quiser conversar, conversaremos em igualdade de condições, de igual para igual”, disse o mandatário, destacando que não haverá “gestos unilaterais”.

Enquanto chega o momento da aproximação com o vizinho, o governo cubano trabalhou forte no ano passado para estreitar suas relações com amigos tradicionais como China e Rússia, para diminuir as tensões com a União Européia e por sua reinserção definitiva na América Latina e no Caribe a partir do ingresso no Grupo do Rio, o principal fórum político regional. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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