Mogadíscio, 22/01/2009 – Desde que tinha 10 anos, Hassan Maye, hoje com 13, ganha o sustento para ele e sua família nas ruas da capital da Somália. Engraxa sapatos no bairro de Sinai, sul da cidade. Em um dia bom ganha 18 mil chelines, equivalente a 50 centavos de dólar. Todos os dias Maye enfrenta o perigo de obter esta magra renda. Os disparos são moeda corrente em torno do lugar onde trabalha. Também tem de estar alerta para os ladrões independentes armados que perambulam pela cidade. Seu ganho constitui uma pequena contribuição para sua casa, que compartilha com seus avós e irmã. A hiperinflação converte a sobrevivência em uma luta diária. Uma xícara de chá custa o dobro do que custava há dois meses. O custo de alimentos básicos como arroz e farinha, que já eram proibitivamente caros para muitos somalianos, aumentou 10% nesse período. Maye não é a única criança que tenta sobreviver nas ruas de Mogadíscio, onde a infra-estrutura básica quase se encontra em colapso, os serviços sociais apenas estão disponíveis e o preço dos alimentos disparou.
Mas em um país envolto no caos e na violência mortal por quase duas décadas – a Somália não tem um governo central funcionando desde a queda de Mohammad Siad Barre em 1991 – é difícil ter acesso a estatísticas precisas sobre a quantidade de crianças nas ruas. “Há vários fatores que levam a isso. Um é a pobreza causada pelo desemprego do principal membro da família, ou por sua morte”, explicou o trabalhador social Mohammad Gaab. O desemprego abunda no país, e com o colapso da assistência social que era dada pelas agências de ajuda, muitos país que não podem cuidar dos filhos permitem que vão trabalhar ou mendigar, deixando-os expostos aos riscos nas ruas. “As outras razões incluem negligência por parte de seus pais, mas a causa primordial para haver crianças nas ruas é a pobreza”, disse Gaab à IPS em Mogadíscio.
Desde 2001, fecharam muitas organizações beneficentes islâmicas que atendiam crianças em situação vulnerável, depois que tiveram seus financiamentos cortados. “Desde 11 de setembro (de 2001, quando mais de três mil pessoas morreram nos atentados terroristas de Nova York e Washington) muitas organizações de caridade islâmicas ficaram sem financiamento dos países do golfo Pérsico (ou Arábico), principalmente da Arábia Saudita, depois que os Estados Unidos erroneamente as rotulou como favoráveis às atividades terroristas. Desde então, em Mogadíscio foram fechados muitos orfanatos que dependiam de seu financiamento”, afirmou Gaab, ele mesmo um ex-empregado da organização saudita Al-Haramain.
No atual foco de violência, que obrigou quase metade dos dois milhões de habitantes de Mogadíscio abandonar suas casas, muitos órfãos ficaram sem proteção, disse Gaab. Assim, estão novamente nas ruas da capital, seja fazendo algum tipo de trabalho, com engraxar sapato, lavar carros ou pratos, ou realizando trabalhos domésticos para se manterem e às suas famílias. Maye, que já passou por tudo isso, disse que trabalhar nas ruas da capital para ganhar a vida representa uma luta pela sobrevivência em um contexto perigoso. “Meus amigos e eu engraxamos sapatos, mas às vezes há brigas perto de onde estamos e frequentemente vemos mortos e feridos em todo lugar”, contou.
Muitas crianças de rua morreram ou ficaram feridas pelas balas perdidas disparadas pelos dois lados do conflito, enquanto outras são assassinadas suspeitas de serem espiãs ou de colocarem bombas nos acostamentos das estradas. “Não chego perto de forças do governo somaliano ou estrangeiras. Eles matam as crianças que são engraxates. Acreditam que somos espiões”, disse Osman Dahir, amigo de Maye. Há outras crianças de rua que não trabalham, mas mendigam para sobreviver. A maioria pertence a grupos que recentemente abandonaram suas aldeias por causa da violência, da fome ou da seca, que os impede de continuar cultivando suas terras.
Raramente encontram inclusive trabalhos mal remunerados como o de Maye, porque o custo inicial (comprar escova e graxa, agulha e linha para remendar sapatos) é alto. Maye e seus companheiros tiveram a sorte de um parente ou vizinho lhes dar esses elementos. Alguns dos recém-chegados vão pedir esmola. Começam suas vidas na cidade destroçada sentados no exterior de alguma mesquita, vestidos com farrapos, agradecendo aos gritos os que lhe dão alguma moeda. Outros vão de casa em casa pedindo esmola.
Como seus amigos, Maye não vai à escola. Em Mogadísico, pouquíssimas crianças podem fazê-lo, já que a maioria das escolas foi destruída ou fechada pela incessante violência que atinge a cidade desde 2006, quando começaram as lutas entre insurgentes islâmicos e soldados etíopes que invadiram a Somália para ajudar a derrubar um governo islâmico que controlava boa parte do sul e centro dopais. “Gostaria de aprender a ler e escrever e ir para a universidade, mas não posso porque não tenho dinheiro e aqui não tem escolas”, lamenta Maye, acrescentando que se tivesse a oportunidade queria ser medico para ajudar os doentes e feridos de Mogadísicio.
As agências humanitárias nacionais e internacionais na Somália tentam aliviar o sofrimento das famílias mais vulneráveis na capital e nos acampamentos de refugiados que se estendem nos subúrbios, mas a violência crônica na cidade, os ilegais postos de controle nas estradas e a pirataria em águas somalianas se combinam para frustrá-las. Em sua maior parte, as crianças como Maye se esforçam para sobreviver por conta própria. Os custos que isto terá em sua geração somente serão sentidos nas próximas décadas. (IPS/Envolverde)

