ARGENTINA: Colheita e vacas magras

Buenos Aires, 22/01/2009 – Uma prolongada seca, que em muitas localidades é considerada a pior em cem anos, castiga a região agropecuária tradicionalmente mais produtiva da Argentina e faz prever uma forte queda na produção de grãos e carnes. As associações de produtores estimam em 30% a redução de grãos e em 1,5 milhão de animais e perda de gado, além da queda na produtividade dos sobreviventes quanto a carnes e lácteos devido à má alimentação. O governo nacional de Cristina Fernández tomou medidas de ajuda que consistem em forragem para o gado e outros benefícios, mas os produtores consideram insuficiente diante do desastre e dirigem suas reclamações aos administradores provinciais. A seca se estende desde a província de Rio Negro, sul do país, até o centro em La Pampa e Córdoba, e para leste e norte em Buenos Aires, Entre Rios, Santa Fé, Corrientes, sul do Chaco, Formosa e Santiago del Estero. Em especial abrange toda a região dos pampas de aproximadamente 600 mil quilômetros quadrados, considerada uma das mais férteis do mundo.

O governador do Chaco, Jorge Capitanich, previu que em seu distrito a colheita renderá metade da anterior. A área semeada foi menor para o trigo e o girassol e os cultivos rendem menos pela escassez de água, explicou. Chaco, Entre Rios e Santa Fé, estão entre as províncias que já declararam emergência agropecuária. A medida permite um respiro de seis meses para que os produtores afetados em mais de 50% paguem seus impostos e dividas. Por outro lado, em áreas declaradas de desastre, como é o caso dos cultivos de milho de Entre Rios, onde as perdas passam de 80%, os agricultores ficam isentos de pagar os tributos pelo mesmo período de 180 dias.

Embora as chuvas tenham diminuído quase todo o ano passado, nos últimos meses o fenômeno agravou e há dados sobre o impacto das perdas nos cultivos principais e na pecuária em 10 províncias do coração produtivo. Apenas na região norte de Santa Fé perdeu-se 300 mil animais e os que sobrevivem o fazem em condições magras. Os técnicos dos órgãos rurais já alertam que se observa uma baixa no índice de prenhez. Segundo disse à IPS o secretário de Confederações Rurais Argentinas (CRA), Javier Jayo Ordoqui, a colheita de trigo, milho, soja e girassol, principais cultivos, terão queda de 30 milhões de toneladas este ano, em relação à temporada passada.

Em 2007-2008, a colheita havia atingido um recorde de 97 milhões de toneladas, 47 milhões correspondendo à soja. Mas fatores políticos, econômicos e agora também climáticos conspiram para que finalmente haja uma colheita magra em 2008-2009. primeiro foram os protestos das associações de proprietários e produtores rurais, que entre março e julho passado enfrentaram com bloqueios de estradas a decisão do governo de aumentar os impostos para exportação de grãos, em particular oleaginosas, medida que foi, finalmente, revogada.

Mais tarde houve a crise financeira internacional, originada nos Estados Unidos, que causou redução dos preços dos produtos básicos. Por exemplo, a tonelada de soja, que chegou a ser cotada a mais de US$ 600, caiu pela metade no final do ano. Agora o problema mais grave é o climático. Segundo informes do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), “para muitas localidades da região dos pampas as chuvas foram as menores dos últimos cem anos”.

A seca causou uma queda na produção de trigo entre sete e oito milhões de toneladas. A colheita anterior foi de 16 milhões de toneladas e agora atingiu em torno dos oito milhões, segundo o INTA. “A produção de trigo foi a menor dos últimos 30 anos e tudo parece indicar que a produção nacional de milho, soja e girassol também estará muito abaixo da produção crescente dos últimos anos”, alertou o instituto. Embora afirmem que o impacto da seca será “muito importante”, os técnicos do INTA não se animam a prever a queda do volume de cada cultivo, com exceção do trigo, que já foi colhido.

Por sua vez, as associações de empresários e produtores rurais já projetam alguns números. A CRA acredita que o milho, que rendeu 22 milhões de toneladas na safra anterior, baixará para 15 milhões, e a soja, se persistir a escassez de chuva, passaria de 47 par 37 milhões de toneladas. A menor produção repercutirá na renda dos produtores, que já calculam perdas superiores a US$ 7 bilhões, assegurou Jayo, e uma conseqüente queda na arrecadação com imposto sobre exportação de grãos.

“Desta vez a seca se estendeu por todo o pampa úmido, a melhor área para agricultura e pecuária, e a chuva aumentou em zonas áridas”, explicou à IPS Alicia Urricarriet, economista da Sociedade Rural Argentina que reúne os grandes proprietários de estabelecimentos de campo. Para ela, a seca na Argentina e no Brasil, os dois países que atnedem a 50% da demanda mundial de soja, está provocando uma alta de preços no mercado de grãos de Chicago, que lida com previsões de longo prazo.

Segundo Jayo, a recuperação dos preços é uma reação à queda da produção na Argentina, mas para Urricarriet é cedo confirmar uma queda da colheita com base nos valores de mercado projetados. O certo é que, com maior ou menor otimismo, os produtores se despedem do melhor ano em matéria de produção e preços e se preparam para enfrentar uma colheita menor até que a chuva lave novamente os danos já causados. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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