FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: Democratização da Ciência tem Fórum especial em Belém

Belém, 27/01/2009 – -TerraViva.- Tornar a ciência, seu vocabulário e suas soluções mais próximas da sociedade é o desafio posto aos participantes do Fórum Mundial Ciência e Democracia durante o FSM. Um dos primeiros eventos a acontecer em Belém foi o Fórum Mundial Ciência e Democracia, nos dois dias que antecederam a abertura do Fórum Social Mundial. Foi uma oportunidade importante, onde representantes de diversas entidades sociais e científicas apresentaram propostas para que o conhecimento científico chegue com mais facilidade à sociedade, principalmente as classes mais pobres.

A relação entre ciência e democracia permeou o primeiro debate, “Ciência e democracia: o que está em jogo?” e trouxe novamente à tona questões que jsão recorrentes nos meios científicos e acadêmicos, como o distanciamento dos cientistas em relação às demandas sociais.

De acordo com Lionel Larqué representate da Foundation Sciences Citoyennes, da França, os cientistas precisam de maior engajamento em relação à sociedade, pois a população já se pergunta qual seu papel na sociedade. “A ciência vive uma fase de mudanças, uma espécie de biodiversidade dos saberes, que devem incluir não mais só o científico, mas também o social, por isso é necessário estabelecer um diálogo com os cidadãos”, disse.

Para Lárque é fundamental que os pesquisadores entendam que são parte de um processo, e não a solução. “Podemos perceber que isso vem mudando, há dez anos atrás era inconcebível se pensar em uma relação entre cientistas e movimento social, mas hoje isso está acontecendo. É importante criar um espaço critico que possa julgar qual a função da atual ciência para o planeta. Tem que se acabar com o que chamamos de “monopólio do saber” e trabalhar rumo à democratização do conhecimento”, afirmou.

Silvia Ribeiro, diretora da ONG ETC Group, ressaltou que é necessário medir o impacto das novas tecnologias na sociedade. De acordo com ela, três atuais crises: a econômica, ambiental e alimentar, mostram que a sociedade contemporânea tem de mudar seu estilo de desenvolvimento. “Hoje toda a produção científica é controlada por poucas transnacionais, e são tecnologias muito poderosas como a biotecnologia e a nanotecnologia, por exemplo. Uma aliança entre as organizações da sociedade civil é importante para que possa haver um estudo minucioso sobre que desenvolvimento é benéfico a humanidade, ou não”, disse.

Ciência para poucos

A socióloga e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, Priscila Faulhaber, acredita que enquanto ciência e tecnologia forem dominadas pela elite econômica mundial dificilmente elas serão democraticamente distribuídas. “É necessária uma nova ciência, onde atores e ações sejam renovados. Compartilhar o conhecimento é fundamental para que haja equidade dentro da sociedade, é preciso se pensar em ciência como um fundamento sociológico”, falou.

Acesso ao conhecimento

O segundo painel apresentou propostas para que conhecimento e o saber tradicional cheguem mais rapidamente a população.

Para Valerie Peugeout da ong francesa Vecam, o domínio do conhecimento é o coração da economia, mas infelizmente o poder econômico e político limitam o alcance desta difusão de conhecimentos científicos, “ por isso é importante compartilhar o conhecimento tradicional”, frisou.

Opinião igual tem o indiano Amit Segputa, representante do All India People Science Network (AISPN). Segundo ele a ciência de hoje é dirigida para o mercado, fechando assim um saber que tem que ser global. “Hoje as pesquisas visam o lucro dos patrocinadores, a iniciativa privada se apropria desse conhecimento e só o oferece a quem pode pagar”, ressaltou.

Segputa afirmou que já existem boas tentativas de disseminar essa informação sem precisar pagar por isso. “Alguns cientistas vem trabalhando em projetos de biologia aberta e software livres, o que vem gerando bons resultados longe do mercado. O acesso a esse conhecimento é fundamental para que haja um desenvolvimento equitativo. Temos que acabar com a idéia de propriedade intelectual e lutar pelos bens comuns do conhecimento”.

José Maria Tavares foi um dos ouvintes do fórum e alertou que um dos maiores impactos que pode ser observado é a desautorização dos conhecimentos médicos. Conforme Tavares, que faz parte da Sociedade Européia de Etnofarmacologia, a medicina esqueceu de onde vem, referindo-se ao saber tradicional. “Hoje esse saber é uma mercadoria. Uma tese acadêmica na área de química ou biologia vale dinheiro, tudo tem de passar pelo mercado e não pode ser assim!”, argumentou.

Novas formas de produzir e disseminar as informações científicas

Na visão de Sérgio Amadeu, pesquisador e professor da Fundação Casper Líbero de São Paulo, a Ciência e Tecnologia mantém o sistema econômico vigente, e por isso os governos e empresário dificultam sua disseminação.

Para ele a sociedade tem de iniciar uma transformação na lógica da reprodução industrial pela lógica da inovação. Sergio afirma que novos conteúdos e novas formas de ciência devem começar a ser difundidas. “Hoje a ciência é um conhecimento codificado e controlado. E esse é um dos elementos fundamentais no controle das riquezas”, disse.

Amadeu mostrou números que impressionaram a platéia. “No Brasil, por exemplo, quem controla a TV, também controla a internet e seu acesso e na maioria das vezes a telefonia. Temos que lutar por uma defesa dos commons, alternativas à Lei das Patentes e pela ampliação das atividades científicas abertas”, salientou.

Cécile Sabourin é presidente da Fédération Québécoise des Professeures et Professeurs d’Université (FQPPU) no Canadá, para ela é preciso propor um conhecimento mais social e menos econômico. “Em Quebec, desde 1976 estamos tentando implementar novas maneiras de produzir o saber. Uma maneira que fuja desse modelo onde as bases são esquecidas”, disse.

Cecile conta que no Canadá menos de 50% das pesquisas são financiadas pelo governo, “isso torna quase impossível que o resultado de uma pesquisa não se torne propriedade de uma empresa”. Ela ainda relata que é comum no Canadá que professores abandonem suas pesquisas devido às pressões por resultados lucrativos e políticos. “Infelizmente alguns cientistas acabam se encaixando no perfil exigido para que possam receber incentivos, o que acaba gerando uma alta competitividade nos meios acadêmicos, impedindo a realização de pesquisas conjuntas ou complementares”, expôs.

Conforme a presidente da FQPPU, o momento é de mudanças. “Temos que rever a maneira de fazer ciência, é preciso criar uma ação coletiva nas universidades. É muito importante que os cientistas comecem a pensar em trabalhar conjuntamente para que esse conhecimento possa ser disseminado de maneira democrática e a todas as classes sociais”, finalizou. (IPS/TerraViva)

Fabrício Ângelo

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