FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: Presidentes por um socialismo feminista

BELÉM, 02/02/2009 – – TerraViva.- “O verdadeiro socialismo é feminista” e já está em construção, disse o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, junto com outros três presidentes sul-americanos, todos homens, em um diálogo organizado nesta quinta-feira no Fórum Social Mundial. “Um novo mundo está nascendo, a utopia está na América do Sul”, reforçou Chávez em um discurso onde mencionou diversas vezes Fidel Castro como o precursor da onda de governantes de esquerda eleitos nos últimos anos, e a Alternativa Bolivariana para os Povos de nossa América (ALBA). Os presidentes falaram no evento Diálogo sobre a Integração Popular de Nossa América, organizado pela Via Campesina, uma rede de movimentos e grupos rurais de todo o mundo.

O presidente equatoriano Rafael Correa destacou, no entanto, as várias diferenças entre o “socialismo do século XXI”, que compartilha com seu colega venezuelano, e o “socialismo tradicional”. Uma delas é a “justiça de gênero”, o fim da discriminação da mulher, e citou o exemplo do Equador, que igualou os salários de funcionárias e funcionários.

A equidade étnica em favor dos povos indígenas e afrodescendentes, e intergeracional, seriam outras diferenças. Mas Correa foi mais contundente ao dizer que o socialismo clássico nunca questionou o modelo de desenvolvimento promovido pelo capitalismo, apenas propôs uma forma mais justa de alcançá-lo, com o mesmo objetivo de elevar a produtividade e o consumo. “Se a China alcança o mesmo modelo de desenvolvimento dos países industrializados, o planeta não seria suficiente para atender as demandas de matérias-primas”, argumentou. Segundo ele, é preciso perseguir um outro desenvolvimento, preservando a natureza, a sobrevivência da biodiversidade e a diversidade cultural, explicou.

O presidente equatoriano disse que o socialismo deste século “já existe”, e reconhece a supremacia do trabalho humano, defende a vida e o valor social dos ecossistemas, como a floresta amazônica, um pulmão do planeta. Os países amazônicos, ao contrário dos industrializados, que devastaram suas florestas, preservaram um ambiente de altíssimo valor, mas sem preço. Correa disse que seu país está trabalhando para deixar de extrair petróleo, o que representa um sacrifício em benefício da humanidade, que “deveria ser compensado pelo menos em metade do ingresso que o país poderia receber explorando as reservas”. Diante da crise climática global, um desenvolvimento alternativo é uma “imposição, inclusive técnica”, afirmou Correa.

Um “modelo alternativo já existe na América Latina” e poderá avançar muito com a integração regional, que já tem instrumentos financeiros, como o Banco do Sul, e um possível marco institucional, com a Organização dos Estados Latino-Americanos e do Caribe. Esta organização teve a fundação aprovada na Cúpula Regional de dezembro, em Salvador, Brasil, disse Correa.

As mudanças na região, mostradas pela presença em Belém dos quatro presidentes, considerados os mais de esquerda, devem muito ao Fórum Social Mundial, a “Assembléia da Humanidade”, que começou a reunir-se na cidade de Porto Alegre em 2001, concordaram os presidentes.

O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, testemunhou que seu país mudou a partir das idéias e debates do FSM. “O Paraguai mudou pela voz de esperança de vocês, dos movimentos sociais” disse ele, que participou das edições anteriores como bispo católico.

Com bandeiras antiimperialistas, o presidente da Bolívia, Evo Morales, condenou a existência de bases militares na região, produto do “intervencionismo americano”.

Com um discurso cheio de piadas e brincadeiras, Hugo Chávez conseguiu muitos aplausos quando se declarou “feminista”, especialmente entre as mulheres que cantavam em coro: “Aguarde imperialista, a América Latina será toda feminista”.

Cerca de 1.200 pessoas participaram do diálogo promovido pela Via Campesina, mas de fato organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra do Brasil (MST), com convidados de outros grupos sociais. Na mesa as mulheres se sentaram, junto a oito homens.

Magdalena de Leon, da Rede Latino-Americana de Mulheres Transformando a Economia, disse que as soberanias financeira e alimentar, e em outras áreas, como comunicação, são dimensões essenciais da ALBA, e que os pequenos produtores, muitos de subsistência, são a base de uma “outra economia em construção”.

A ALBA, uma iniciativa de Chávez, é formada por Bolívia, Cuba, Dominica, Honduras, Nicarágua e Venezuela.

A ausência do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em um encontro de tantos presidentes, “preocupa porque se trata do anfitrião”, e um sinal de insuficiente interesse na integração”, comentou Pedro Quimbiamba, dirigente da Federação Nacional de Organizações Camponesas, Indígenas e Negras do Equador (Fenocin).

O socialismo proclamado pelos quatro presidentes defensores da ALBA, se bem que Equador e Paraguai ainda não formalizaram suas adesões, pode ter sido a diferença que motivou a decisão de Lula, de não comparecer, disse Maria Gualán, dirigente de base da Fenocin

Uma maior presença das mulheres na presidência dos países “é questão de tempo”, disse Gualán, justificando o predomínio masculino e a demora em superar a cultura machista. Ter um presidente indígena no Equador, como já acontece na Bolívia, ainda demandará tempo também, mas “um dia virá”, concordaram os militantes da Fenocin, ambos indígenas.

A energia do Paraguai

A disputa entre Paraguai e Brasil em torno de uma nova negociação para a venda da eletricidade gerada pela central hidrelétrica de Itaipu não ficou fora dos discursos. O presidente paraguaio, Fernando Lugo, disse que “não descansaremos em paz, e nossa alma não descansará, enquanto não atingirmos este objetivo”, referindo-se a um preço melhor e à “livre disponibilidade” da energia de Itaipu, que o Paraguai vende ao Brasil.

Itaipú é compartilhada pelos dois países, segundo as condições acordadas em “um tratado assinado na época das ditaduras”, em 1973, e cuja revisão foi uma das principais bandeiras de Lugo na campanha eleitoral do ano passado. O Paraguai quer “reconquistar sua dignidade” e ser tatado “de igual para igual”, cumprindo uma profecia guarani, disse Lugo.

Segundo o governo brasileiro e os administradores brasileiros de Itaipu, a disputa não tem razão de existir, porque o preço é justo e o acordo é muito benéfico ao Paraguai. A construção de Itaipu, uma gigantesca central que aproveita as águas fronteiriças do Rio Paraná, foi financiada pelo Brasil. Para o Paraguai “um negócio melhor do que Itaipu só poderia ser outra Itaipu”, disse Nelton Friedrich, diretor brasileiro de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu Binacional, a empresa que administra a hidrelétrica.

O Paraguai ganha 700 milhões de dólares por ano sem ter investido nada. O Brasil se encarregou da obra e, em um momento, a dívida externa assumida para a construção de Itaipu representou 20% do total do endividamento brasileiro, disse. Além disso, nos primeiros anos de operação, quando não havia no Brasil a demanda suficiente para absorver quase toda a energia de Itaipu, o governo brasileiro obrigou as empresas de distribuição a comprar e pagar a eletricidade da hidrelétrica, beneficiando o Paraguai.

A dívida da empresa, atualmente em 18 bilhões de dólares, já está caindo e será liquidada em 2023, quando expira o tratado e o Paraguai terá metade da hidrelétrica, que hoje vale no mercado 60 bilhões de dólares, e poderá vender a eletricidade a quem quiser, concluiu.

Por agora, o Paraguai consome apenas 5% da energia gerada e é obrigado a vender ao Brasil o restante da metade que lhe corresponde.(IPS/TerraViva)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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