Moscou, 03/02/2009 – A chegada de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos semeia otimismo na Rússia, onde funcionários e especialistas preveem uma melhoria nas relações após um período de crescente tensão. “Os principais desafios para Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton diante da russa se referem a visões encontradas sobre o papel de Moscou na era pós-soviética”, disse à IPS Yevgeni volk, chefe do escritório nesta cidade do centro acadêmico The Heritage Foundation.
Rússia continua incluindo as ex-repúblicas soviéticas sob sua esfera de influência, enquanto Washington considera que são independentes e livres para tomarem suas próprias decisões, incluindo a entrada em alianças de segurança como a Organização do Tratado do Atlântico Norte” (Otan), explicou. “Daí a possível integração de Geórgia e Ucrânia à Otan, ou seu possível alinhamento com Rússia ou Estados Unidos, ser o principal fator de discordância entre russos e norte-americanos”, acrescentou.
No governo de George W. Bush, os Estados Unidos procuraram acelerar a integração dessas duas republicas à Otan. Mas Moscou se opõe de forma contundente, pois teme que isso represente ameaça à sua segurança nacional. Essas diferenças surgiram durante o governo Bush, segundo Volk, e é pouco provável que sejam solucionadas no de Obama. “A questão é se tanto Washington quanto Moscou estão dispostos a renunciar aos seus interesses na era pós-soviética. No momento não se avista essa possibilidade”, afirmou.
À elite russa não agradou um comentário de Obama em seu discurso de posse: “Para aqueles que se aferram ao poder mediante engano e corrupção e silenciando a oposição, saibam que estão do lado errado da historia, mas somente lhes estenderemos a mão se estiverem dispostos a relaxar os punhos”. A atual política externa russa é semelhante a da extinta União Soviética, concentrada em conter a liderança mundial dos Estados Unidos. Volk considera que “manter certo enfrentamento com os Estados Unidos permite ao Kremlin lidar com problemas políticos internos, manter coesa a sociedade frente um inimigo externo, distrair a atenção de assuntos locais como a grande corrupção e justificar o enorme gasto militar”.
Tampouco está clara a posição dos Estados Unidos. “Não creio que o novo governo tenha uma política para a Rússia”, afirmou Boris Kagarlitsky, diretor do Instituto de Estudos sobre Globalização em Moscou. “Também não está claro se Moscou é, para Washington, um adversário, um amigo ou um sócio. Além disso, a situação neste país mudará. Isso não facilita as coisas para o novo governo”. Uma forma de avançar é “deter a concentração militar norte-americana na Europa central. Isso será interpretado por Moscou como um sinal de boa vontade do novo governo”, acrescentou.
O primeiro-ministro Vladimir Putin reiterou seu pedido para que Obama cumpra a promessa de campanha quanto às relações russo-norte-americanas. “Esperamos ver na prática o que vimos durante a campanha eleitoral”, disse. “Obama parece uma pessoa aberta e sincera. Mas, o tempo dirá”, acrescentou. A Rússia se opôs aos planos dos Estados Unidos de construir um sistema de defesa antimísseis na Europa central e que Geórgia e Ucrânia se unam à Otan, porém, Putin disse que Obama “deu sinais positivos”.
Para Putin, os dois países têm muitas preocupações comuns, como o controle de armas, Oriente Médio, Irã e Afeganistão, às quais se soma agora a crise econômica e financeira internacional. “Ouvimos, e concordamos, que temos muito em comum. Estamos prontos para trabalhar em equipe”, afirmou o primeiro-ministro. O presidente russo, Dimitri Medvédev, também interveio: “Naturalmente, com um novo governo nos Estados Unidos esperamos que as relações entre os dois países se desenvolvam, já que muitos problemas aumentam nos últimos tempos”, disse Medvédev em reunião com o embaixador norte-americano, Serguei Kisliak.
Em uma sessão de confirmação perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado, Hillary Clinton disse que prevê trabalhar em estreita colaboração com a Rússia em assuntos econômicos, de segurança e não-proliferação e controle de armas. “O conteúdo de sua declaração era previsível”, segundo Victor Kremeniuk, subdiretor do Instituto Estados Unidos e Canadá em Moscou. “O novo governo abandona a postura unipolar e podemos ver como se define um conceito que difere da política de Bush. O comentário de Clinton mostra a disposição dos Estados Unidos em estabelecer relações boas e construtivas com a Rússia”, afirmou.
Obama já havia declarado que queria compor as relações entre Washington e uma Moscou “cada vez mais autoritária”. “Queremos cooperar com eles nas áreas em que for possível. Existe um monte de questões, em especial sobre a não-proliferação de armas e o terrorismo, no qual podemos cooperar”, afirmou o presidente norte-americano. Porém, os Estados Unidos também devem enviar uma mensagem clara para garantir que a Rússia não “acosse seus vizinhos”. (IPS/Envolverde)

