ISRAEL-ELEIÇÕES: Ânimo em baixa

Jerusalém, 03/02/2009 – Pouco mais de uma semana antes das eleições, os israelenses estão com o ânimo em baixa. Os próprios candidatos alimentam o pessimismo, ao atacarem uns aos outros com avaliações deprimentes dos desafios futuros. “Depois de tudo, não temos outra escolha que não seja o caminho do enfrentamento. Para que devemos nos preparar mais do que para um desastre?”, afirmou em sua coluna no jornal Haaretz o jornalista Doron Rosenblum, resumindo em uma frase crua o estado de ânimo do público. A população não vê um fim para o conflito com os palestinos no mundo árabe.

Essa perspectiva acaba com a eficácia dos ataques dos partidos governantes, o centro-direitista Kadima e o centro-esquerdista Trabalhista, ao belicismo do conservador Likud, que domina as pesquisas de intenção de voto aliado com grupos de extrema direita. “Não importa”, escreveu Rosenblum, “Se Bib (Benjamin Netanyahu, líder do Likud) ganhar as eleições. A agenda de Bibi já ganhou, e de longe”. Pela primeira vez desde o fim da guerra contra Gaza há duas semanas, a quantidade de foguetes lançados dali contra o sul de Israel superou no domingo a média de antes do início da operação, dia 27 de dezembro. Os projeteis também atingiram objetivos, incluída a cidade de Ashkelon no Mediterrâneo, que não haviam sido alcançados antes da ofensiva de três semanas lançada por Israel contra o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica).

Para a opinião pública, a dissuasão, principal objetivo do ataque militar israelense, foi neutralizada. Segundo uma pesquisa feita no final de semana pelo Canal 10 de televisão, existe paridade entre os israelenses entrevistados que consideraram a guerra um “êxito” e os que o negam. A represália da força aérea israelense, em especial contra os túneis que unem a Faixa de Gaza com o Egito e pelos quais circulam armas e pessoas, não ajudou muito a reverter a opinião dos que consideram que a guerra não cumpriu seu objetivo. O pessimismo aumentou após o enfrentamento dos líderes dos dois partidos governantes sobre qual a melhor forma de responder às provocações do Hamas.

O primeiro-ministro, Ehud Olmert, e sua sucessora no Kadima, a chanceler Tzipi Livni, reclamaram uma represália enérgica. Nas palavras de Olmert, “uma resposta desproporcional”. Por sua vez, o ministro da Defesa, Ehud Barak, líder do Partido Trabalhista, rechaçou os enfoques mais agressivos. “Em tempos eleitorais falam muitas pessoas que nunca pegaram em uma arma e não entendem as condições sob as quais devemos atuar e quando é necessário se conter”, afirmou. Descontente por essas declarações, as quais seus seguidores classificaram de “puro machismo”, Livni respondeu: “Necessitamos aplicar muita força. Não há razão para esperar”.

Na reunião de gabinete do domingo, o chefe da inteligência militar, Amos Yadlin, destacou que, “apesar da fanfarronisse do Hamas”, a guerra serviu para dissuadir o movimento. “Começam a entender” a dimensão do golpe recebido, afirmou. Por sua vez, Barak levou a outra frente a idéia de que a capacidade de dissuasão de Israel foi restaurada ao advertir o pró-iraniano e libanês Partido de Deus (Hezbola) de se abster de correr um risco maior com ataques a objetivos israelenses no exterior. Inclusive, recomendou-se aos viajantes israelenses que tomassem precauções por medo de que o Hezbola pretendesse vingar o assassinato há um ano de seu líder militar Imad Mughniyeh.

“Eles sabem que não vale a pena”, disse Barak ontem a uma rádio israelense. O governo de Israel procura reverter outro “fracasso” sentido da guerra. Quase a metade dos entrevistados que consideram que o enfrentamento “não foi um êxito” alegaram que não se conseguiu libertar o soldado israelense Gilad Shalit, seqüestrado pelo Hamas há dois anos e meio. Este movimento afirma que isso depende de Israel fazer o mesmo com os mil palestinos que mantém prisioneiros.

A salvação do governo israelense depende de o Egito conseguir um amplo acordo de cessar-fogo entre Hamas e Israel. O Hamas procura mostrar que a guerra não afetou seu poder, mas o governo israelense antecipa que a trégua permitirá que o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, do secular partido Fatah, volte a controlar a passagem para a Faixa de Gaza. Uma das clausulas do acordo promovido pelo Egito estipula que a ANP controle a passagem Rafah seguindo o tratado de 2005, após a retirada unilateral de Israel da faixa de Gaza. Mas, ainda não está claro o papel do Hamas.

Porém, qualquer acordo que inclua o rearmamento do Hamas ou a reabertura da fronteira para pessoas e mercadorias não conseguirá mudar o ânimo do eleitorado israelense. Netanyanh simplesmente convenceu muitos com o argumento de que nunca se deveria abandonar Gaza sem “purgá-la” do Hamas. O Egito conseguir um acordo antes das eleições do próximo dia 10 é um fato que não mudará o estado de ânimo das pessoas.

As pesquisas divulgadas pela imprensa no final de semana estimam que o Likud e seus aliados religiosos de extrema direita obterão entre 65 e 70 cadeiras no Knesset (parlamento) de 120 membros. A maioria dos israelenses se sente refém de vários fatos, apesar do devastador ataque lançado por Israel contra o Hamas. Sentem que dependem das políticas do movimento islâmico, das ações de seu próprio governo em tempos eleitorais e de um arrazoado generalizado que determina o manejo do conflito com os palestinos, mas, não sua resolução, que excederá o mandato das autoridades que estão para colocar à frente de seu país. (IPS/Envolverde)

Jerrold Kessel

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