DESTAQUES: Ninguém prevê ar mais limpo em Santiago

SANTIAGO, 17/03/2009 – (Tierramérica).- Santiago se prepara para passar um inverno pelo menos tão duro quanto o anterior em matéria de poluição do ar.

A perigosa bruma que envolve Santiago - Photo Stock

A perigosa bruma que envolve Santiago - Photo Stock

A professora Olívia González dá aula em Cerro Navia há 30 anos, uma das comunidades da capital chilena onde mais se concentra a poluição atmosférica entre abril e agosto. Testemunha direta dos efeitos na saúde, está pessimista sobre o ar que vai respirar este ano. “Todos os anos, os estudantes da escola municipal onde trabalho têm muitas dores de cabeça e problemas respiratórios. Por isso faltam constantemente às aulas e seu rendimento cai”, conta ao Terramérica González, de 51 anos. Em 2008, a escola teve de suspender por três vezes as aulas de educação física ao ser decretado o estado de emergência. Professoras e familiares também sofrem com a poluição, sobretudo os mais velhos, garante González, que se prepara para uma nova temporada cinzenta.

Nas últimas semanas, três autoridades ligadas ao Plano de Prevenção e Despoluição Atmosférica (PPDA) de Santiago renunciaram. No dia 3, demitiu-se o “gerente do ar”, Marcelo Mena, que durou dois meses como assessor nacional em despoluição. Seu cargo foi criado para evitar que este ano se repitam os erros que ocorreram nas previsões de 2008 em matéria de smog. Mena disse que houve “resistências” ao seu trabalho no serviço público, particularmente dentro da Comissão Nacional do Meio Ambiente (Conama) da região metropolitana. Mena foi seguido pelo diretor e pelo chefe de despoluição atmosférica, Alejandro Smythe e Marcelo Fernández, respectivamente.

Para a ministra do Meio Ambiente, Ana Lya Uriarte, esta situação se deve apenas a “uma reorganização das equipes regionais”. Porém, organizações ecologistas, parlamentares e especialistas falam de “crise da institucionalidade ambiental” e de “sinais públicos negativos”. Jorge Lagos, substituto interino de Smythe, assegurou que “seremos extremamente rigorosos em decretar os episódios críticos (alertas ambientais, pré-emergências) que forem necessários. Em nenhum momento vamos duvidar que nosso foco principal é a saúde da população”.

Este ano, não serão implementadas as propostas feitas em 2008 por um painel especializado, convocado pelo próprio governo e que havia sugerido a adoção de novos instrumentos para medir a poluição, entre outras iniciativas. Com 6,5 milhões de habitantes, Santiago tem graves problemas de ventilação natural, por estar rodeada por montanhas. As principais fontes de poluição são os veículos e as indústrias. Nos últimos anos, somaram-se o forno à lenha, as restrições impostas às importações de gás natural da Argentina – que levaram as empresas a queimarem mais petróleo –, e o ineficiente funcionamento do transporte público.

Entre abril e agosto de 2008, as autoridades constataram 20 episódios críticos: 14 alertas e seis pré-emergências. Em 2007, houve 22 alertas e igual número de pré-emergências. Foram os dois piores anos desde 2002, quando foram decretados 17 alertas e sete pré-emergências. O alerta é ativado quando se detecta uma média diária de 200 microgramas de partículas de menos de dez micrômetros de diâmetro (PM10) suspensas em um metro cúbico de ar. Em 2008, o incidente mais grave ocorreu no dia 1º de julho, em Cerro Navia, com 444 microgramas por metro cúbico de ar.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que a concentração diária de PM10 não passe dos 50 microgramas por metro cúbico, já que este e outros poluentes causam infecções respiratórias, cardiopatias e câncer de pulmão. Estudo do Ministério da Saúde indica que, em 2007, a poluição do ar foi responsável pela perda de mais de cem mil anos de vida neste país por causa de mortes prematuras ou incapacidade, e foi o quarto fator de risco sanitário, depois do consumo de álcool, excesso de peso e obesidade e pressão arterial. Apesar dos avanços registrados entre 1997 e 2008, as medidas até agora são insuficientes para cumprir as metas de despoluição fixadas para 2011.

Isso motivou, no ano passado, uma segunda atualização do plano PPDA. Mas as novas disposições ainda não vigoram porque o decreto está sendo revisado na Controladoria Geral da República. Também é uma incógnita quando será aprovada a lei que regula as quantidades aceitáveis de material fino suspenso no ar (menos de 2,5 micrômetros de diâmetro). Para os ambientalistas, o novo PPDA tampouco contém as reformas necessárias, como freio à expansão urbana, melhoria no transporte público e incentivo às empresas para que se mudem para regiões menos saturadas.

O mais provável é que, este ano, os santiaguinos novamente dependam das condições meteorológicas da capital, disse ao Terramérica Paola Vasconi, da não-governamental Fundação Terram. O chefe do Departamento de Meteorologia e Climatologia da Direção Meteorológica, Jorge Carrasco, explicou ao Terramérica que é impossível fazer prognósticos, mas deu algumas pautas. Até maio, o país estará sob a influência do fenômeno oceânico-climático La Niña – fase fria do El Niño –, o que implicará menos precipitações na capital. “Isto se relaciona com uma estabilidade atmosférica maior e menor ventilação” da bacia de Santiago, disse Carrasco, embora ressaltando que são apenas probabilidades. Em junho, o La Niña passará para uma fase neutra e a incerteza será ainda maior.

* A autora é correspondente da IPS.

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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