EUA-ONU: Fim de uma década de distanciamento

Nova York, 17/03/2009 – Depois de quase uma década de tensas relações com a Organização das Nações Unidas, os Estados Unidos parecem ter tomado um enfoque muito mais conciliatório e multilateral perante o fórum mundial. O presidente Barack Obama formalmente restaurou o financiamento para o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), ao assinar na quarta-feira uma importante lei de gasto, em janeiro, Obama havia assinado uma ordem executiva levantando uma proibição de oito anos aos fundos norte-americanos para grupos estrangeiros que trabalham em programas de planejamento familiar e que realizam o aborto ou promovem sua legalização.

“Estamos encantados pelo fato de os Estados Unidos. Uma vez mais, assumirem um papel de liderança em promover a saúde reprodutiva das mulheres e seus direitos”, disse a diretora-executiva do UNFPA, Thoraya Ahmed Obaid. “Este é um grande dia para as mulheres e as meninas”. O governo de George W. Bush havia suspendido os fundos para o UNFPA acusando esta agência de promover o aborto, algo que Obaid e seus funcionários negam categoricamente.

Em uma recente declaração, Obama disse que o reinicio das doações norte-americanas ajudaria não só a reduzir a pobreza, mas também a melhorar a saúde de mulheres e crianças e prevenir o HIV/Aids. O UNFPA disse que, devido às restrições de Washington aos seus programas, adotadas em 2002, milhões de mulheres em países pobres eram incapazes de ter acesso a atenção à saúde durante a gravidez e que muitas morreram em consequência dessa situação. Há uma semana, Obama assinou uma lei para fazer contribuição de US$ 50 milhões ao UNFPA.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que manteve longa reunião na quarta-feira com Obama e outras figuras-chave de Washington, também se mostrou satisfeito com a decisão de Washington. “O novo presidente está enormemente comprometido e é um líder visionário”, disse Ban aos jornalistas, ao regressar na quinta-feira à sede das Nações Unidas. “Tenho confiança de que levará à arena internacional a mesma ambição e apetite pelas medidas audazes que introduz em temas norte-americanos”.

Ban disse que manteve longa conversa com Obama sobre os atuais conflitos no Oriente Médio, Afeganistão, Somália, Haiti e República Democrática do Congo. Também discutiram a crise financeira internacional e seus possíveis impactos no desenvolvimento, bem como os esforços para lutar contra a mudança climática. “Sobre a crise, o presidente Obama e eu concordamos que os mais pobres e os mais vulneráveis não podem ser deixados para trás”, disse o secretário-geral. “Com a liderança dos Estados Unidos em sociedade com a ONU, podemos e alcançaremos um acordo sobre a mudança climática que possa incluir todas as nações”, acrescentou.

Entre as nações mais industrializadas, os Estados Unidos são o único país que não assinou o Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional contra o aquecimento global, rejeitado pela administração Bush. Apesar das iniciativas mundiais, Obama ainda deve anunciar quando os Estados Unidos, que respondem por mais de um quarto das emissões de dióxido de carbono, se somará a um tratado internacional contra a mudança climática. Mas, Ban disse que ele e Obama acertaram que 2009 “deve ser o ano da mudança climática. Isto significa alcançar um completo acordo em Copenhague este ano”.

Ban também disse que ele e o presidente norte-americano concordaram que os investimentos “verdes” têm de ser uma parte essencial de qualquer plano de estímulo global. “Se vamos gastar grandes quantias de dinheiro, temos de ser inteligentes”, afirmou. Porém, admitiu que houve discordâncias quanto a temas de segurança. Sobre o Afeganistão, por exemplo, Obama destacou a necessidade de um fortalecimento militar. “A segurança no Afeganistão continua se deteriorando. Esse país está em outra encruzilhada. Celebro o fresco pensamento da nova administração dos Estados Unidos, mas qualquer fortalecimento militar – destaquei ao presidente Obama – deve estar acompanhado de um político”, afirmou Ban. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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