Cidade do Cabo, 17/04/2009 – Os sul-africanos que compram produtos com embalagem de plástico biodegradável costumam ser enganados por empresas que, na verdade, buscam se beneficiar economicamente da consciência ambiental. Embora os plásticos se desintegrem em pequenos fragmentos, continuam sendo tóxicos e potencialmente perigosos para a saúde humana. Em uma tentativa de reduzir a contaminação e a quantidade de dejetos que vão parar nos lixões, na África do Sul começou a ser usada uma nova forma de plástico que se degrada rapidamente, conhecida como oxo-biodegradável.
Mas, a falta de regulamentações ambientais permite que o rótulo engane, e os consumidores não necessariamente obtenham o que lhes é prometido. A África do Sul não tem um sistema de certificação em práticas que diferenciem entre plásticos degradáveis e biodegradáveis. Como outros plásticos, o oxo-biodegradável é fabricado a partir do petróleo, com um aditivo químico que desintegra o produto em diminutos fragmentos. Assim, estes plásticos não ocupam lugar nos lixões, mas produzem dejetos tóxicos que contaminam o meio ambiente e prejudicam a saúde humana.
O governo “se apressou muito em permitir às empresas divulgar produtos sem nenhum tipo de controle”, lamentou Muna Lakhani, coordenador nacional do Instituto de Zero Dejeto, com sede em Durban. “A quantidade de novos produtos químicos postos à venda a cada ano, com zero de requisitos de avaliação de impacto ambiental, social e sanitário, é uma grande preocupação”, acrescentou. Na África do Sul não existe um contexto regulatório que obrigue as empresas realizarem avaliações sanitárias independentes, por exemplo. “A legislação tende a intervir apenas quando há dano, por isso não se aplica o princípio precautório”, disse Lakhani.
No ano passado, a fabricante britânica Symphony Environmental Technologies obteve um acordo para fornecer embalagens plásticas às Padarias Albany, subsidiaria do gigante sul-africano dos alimentos Tiger Brands. A empresa britânica disse que sua embalagem contém um composto químico que faz o plástico se degradar em menos de seis meses, sem deixar nenhum fragmento ou resíduo prejudicial. Porém, especialistas ambientais dizem que isto não é suficiente para que o produto seja considerado biodegradável.
“Para ser benéfico ao meio ambiente, um polímero (plástico) deve desaparecer completamente. Em termos de biodegradação, isto significa uma conversão natural a dióxido de carbono e água”, explicou Bruno de Wilde, gerente de laboratório na Organic Waste Systems (OWS), firma consultora belga que analisa e certifica a qualidade de biodegradável dos produtos e suas embalagens.
Sem certificação
Outro problema com os plásticos oxo-biodegradáveis é que só podem ser reciclados de modo seguro se forem capturados na corrente de reciclagem com poucos dias de uso. “Na coleta de lixo não se sabem qual a idade dos plásticos, por isso é provável que no processo de classificação mecânica os oxo-biodegradáveis possam terminar ma fabricação de outros produtos e continuar se degradando”, disse David Hughes, diretor-executivo da Federação do Plástico da África do Sul.
Hughes convenceu pesos pesados da indústria, como Coca-Cola e Woolworths, a evitarem o plástico oxo-biodegradável. “As empresas de reciclagem não querem produtos feitos como esse material. Isto alterará a indústria da reciclagem, que cria postos de trabalho na África do Sul”, acrescentou. Padarias Albany não é a única empresa do país que tenta apelar aos consumidores com consciência ambiental vendendo suas embalagens como biodegradáveis. Astrapak, um dos maiores produtores de envoltórios de plástico da África do Sul, fábrica sacos de lixo biodegradável.
Mas especialistas em meio ambiente como De Wilde alertam que os minúsculos fragmentos de plástico em que o saco se desfaz podem entrar na cadeia alimentar e representar risco para a saúde. A maioria dos plásticos contém produtos químicos prejudiciais, como óxidos de sulfuro e de etileno, que podem causar problemas respiratórios e reprodutivos. Até agora, os plásticos oxo-biodegradáveis cumpriram todos os padrões internacionalmente aceitos para embalagens biodegradáveis e “compostáveis” – isto é que se converte em composto, ou abono orgânico – se desintegrando completamente nos lixões comunitários ou industriais.
Para ser certificado como biodegradável, um produto deve ser plenamente analisado e aprovado por organismos internacionalmente reconhecidos, como a Organização para a Padronização. Como na África do Sul não há um sistema de certificação, as empresas podem livremente promover suas embalagens como biodegradáveis sem precisar provar que realmente o são.
Poderosos grupos de pressão
“Na África do Sul, o lobby da indústria é poderoso, o nosso governo aceita cegamente qualquer coisa que, por exemplo, é aprovado pela Administração de Drogas e Alimentos dos Estados Unidos”, disse Lakhani. Também exigiu dos ambientalistas que pressionaram o Departamento de Assuntos Ambientais e de Turismo, bem como o de Saúde, para garantir que as regulamentações ambientais nacionais se ajustem aos padrões internacionais.
“Gostaria que fosse criado um órgão para erradicar produtos e processos insustentáveis e inseguros, incluídos muitos plásticos, e que se encarregasse de substituí-los por alternativas seguras, locais, renováveis e que criassem postos de trabalho”, acrescentou Lakhani. IPS/Envolverde

