Washington, 17/04/2009 – Às vésperas da quinta Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, a grande pergunta é se o presidente Barack Obama levará em sua bagagem algo mais que seu carisma e sua capacidade de escutar. Não há dúvidas entre os observadores em Washington de que Obama causará uma boa impressão em virtualmente todos seus 33 pares na reunião iniciada hoje e que vai até domingo em Puerto Espana, talvez até no venezuelano Hugo Chávez. Mas, tampouco acreditam que ofereça grandes novidades.
Talvez proponha fortalecer a cooperação em matéria de energia ou comprometa seu apoio ao aumento do capital do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mas seguramente Irã pouco além do já anunciado pelo próprio Obama em seus quase 90 dias no cargo. Líderes da América Latina o aplaudiram em várias ocasiões. Por exemplo, quando se decidiu pelo fechamento da prisão para prisioneiros da “guerra contra o terror” instalada em Guantânamo (Cuba), e quando procurou na cúpula do G-20 por mais dinheiro à disposição dos países pobres para lidar com a crise econômica mundial. Também quando levantou por decreto todas as restrições às viagens e remessas de cubano-norte-americanos para Cuba.
Mas o consenso entre os especialistas em questões latino-americanas nos Estados Unidos é que ainda resta a Obama um longo caminho a percorrer para melhorar a imagem de seu país, muito prejudicada por ações de seu antecessor, George W. Bush. Além disso, estará lidando com líderes que, em geral, têm maior confiança em si mesmos e em sua região e estão muito menos inclinados que seus antecessores a aceder às sugestões de Washington, principalmente em matéria econômica.
Muito diferente era o cenário em 2001, quando Bush participou da sua primeira Cúpula das Américas em Quebec. E muito mais do que quando, em 1994, o então presidente Bill Clintom recebeu em Miami seus pares na cúpula inaugural, convocada para abrir a falida negociação rumo a uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca). “A América Latina avança em seus próprios termos”, explicou Geoff Thale, do Escritório em Washington sobre a América Latina (Wola). “A era do domínio norte-americano sobre o hemisfério terminou. A pergunta que os líderes se farão enquanto Obama discursar é: que relevância os Estados Unidos têm hoje para a região?
Obama viajou ontem ao México, onde se encontrou com o presidente Felipe Calderón, com que já se reuniu duas vezes, uma antes de sua posse em janeiro e outra na cúpula do G-20 em Londres, no começo deste mês. O principal ponto da agenda é a campanha do governo mexicano para derrotar os cartéis do narcotráfico, em uma luta cuja violência recrudesceu nos últimos meses. Há pouco tempo se encontraram com Calderón no México a secretária de Estado, Hillary Clinton; o secretário de Justiça, Eric Holder, e a secretária de Segurança Interna, Janet Napolitano.
Esta série de visitas e a presença de Obama objetivam mostrar o forte apoio dos Estados Unidos ao governo mexicano, acelerando a entrega de helicópteros e outros equipamentos para lutar contra o tráfico no contexto da denominada Iniciativa de Mérida. Horas antes de sua partida, Obama decretou sanções econômicas e financeiras contra líderes dos cartéis de Sinaloa, Los Zetas e Família Michoacana, e designou o ex-procurador Alan Bersin encarregado da coordenação com as autoridades mexicanas na fronteira.
O comércio também será ponto alto na agenda de Puerto Espana, devido à falta de ratificação do Congresso dos Estados Unidos aos acordos com Panamá e Colômbia. De todo modo, as questões comerciais não ocuparão o espaço central como em cúpulas anteriores. Obama é a favor de acelerar a sanção do acordo com o Panamá, ao mesmo tempo em que pretende impor clausulas sobre proteção dos direitos sindicais no tratado com a Colômbia. Este acordo é considerado uma prova da credibilidade dos Estados Unidos na América Latina, segundo o especialista Sidney Weintraub, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. “Todo líder latino-americano se pergunta: se trata dessa forma seus amigos, o que devemos pensar?”, disse, se referindo à oposição do partido Democrata à ratificação do tratado. “Isto tem grande ressonância na região e creio que o governo sabe disso”, acrescentou.
Na cúpula deste final de semana, o livre comércio continental será deslocado do centro da agenda pela crise financeira mundial e pelas intenções de Washington em relação a Cuba. Prevê-se que Obama não se afaste muito do já prometido na cúpula do G-20. o coordenador da delegação norte-americana para a reunião de Trinidad e Tobago, Jeffrey Davidow, disse que o presidente irá enfatizar a necessidade de medidas para proteger da crise “os mais pobres dos pobres”, entre elas, incentivar o microcrédito.
Também estima-se que Obama anunciará seu apoio condicional à proposta de aumentar o capital do BID para US$ 280 bilhões, para o qual deve contar com aval do Congresso, onde há preocupações pelo manejo dessa instituição multilateral. A maioria dos especialistas não acredita, como acredita Davidow, que Cuba não constará da agenda em Trinidad e Tobago. Nesse sentido, alertam que todos os países latino-americanos aderem aos chamados a levantar o embargo comercial. “Não creio que haja um só assunto que os latino-americanos consideram mais importante como sinal de mudança”, disse o presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano, Peter Hakim.
Alguns simpatizantes de Obama, inclusive, expressaram frustração porque o presidente não adotou medidas complementares, entre elas tirar Cuba da lista de Estados promotores do terrorrismo, elaborada pelo Departamento de Estado, ou anunciar a abertura de negociações bilaterais diretas sobre migração ou cooperação antidrogas. “Seguramente, a cúpula será um êxito nos meios de comunicação. Obama deixará uma boa impressão, em parte ao admitir erros do passado e a responsabilidade por alguns dos problemas que a região enfrenta”, disse Thale.
“Mas se não tiver algo grande para por na mesa em termos de pobreza e desenvolvimento, ou uma grande mudança de enfoque sobre Cuba, ou uma mudança significativa na forma com se trata a violência e a insegurança em relação ao narcotráfico, o público do hemisfério ocidental se perguntará que importância tem a política dos Estados Unidos para a região”, concluiu. IPS/Envolverde

