CHILE: Cientista alerta para perigo de geleiras rochosas

Santiago, 24/04/2009 – A recém-aprovada política chilena “é um avanço, mas não resolve todos os problemas”, disse à IPS o geógrafo alemão Alexander Brenning, que responsabiliza as mineradoras de afetar geleiras rochosas. Brenning, professor-assistente de geografia na canadense Universidade de Waterloo, conversou com a IPS após proferir uma palestra sobre as pouco conhecidas geleiras rochosas a estudantes de geologia da estatal Universidade do Chile, que o convidaram especialmente.

Brenning ficou conhecido no Chile em 2008, quando foram divulgados estudos seus responsabilizando três grandes mineradoras que operam no país de afetar vários quilômetros quadrados de geleiras rochosas, devido à construção de estradas e infra-estrutura e o deposito de material estéril sobre elas. O especialista apontou especificamente a Divisão Andina da estatal Corporação Nacional do Cobre (Codelco), a mina Los Bronces da multinacional britânica Anglo American, e a mineradora Los Pelambres, de capital chileno.

Em sua palestra, Brenning explicou que as geleiras rochosas são importantes depósitos naturais de água doce, que contribuem para a disponibilidade deste recurso no verão austral, e no contexto da mudança climática. Sob uma camada de rocha, contêm entre 40% e 60% de gelo, afirmou. Considerando que estas geleiras demoram milhares de anos para se regenerarem e que têm problemas de estabilidade porque se deslocam vários centímetros ao ano, recomenda-se não construir infra-estrutura sobre elas, disse o geógrafo alemão.

No Chile são chamadas geleiras de rocha e na Argentina escombros. “É um fenômeno muito difícil de investigar porque não são tão evidentes como as geleiras brancas. São difíceis de detectar e de monitorar seu movimento. É um desafio tecnológico da geomática”, disciplina que se ocupa da informação geográfica, explicou à IPS. Brenning, que combina a análise de imagens via satélite com fotografias aéreas e trabalho de campo, estima que as geleiras de rocha fiquem principalmente na zona central do Chile e que sua superfície seja de aproximadamente 500 quilômetros quadrados.

No entanto, a área afetada pelas três mineradoras na última década seria de aproximadamente 3,2 quilômetros quadrados, incluindo entre 23 e 25 milhões de metros cúbicos de água, acrescentou. Parte dessa área foi literalmente removida, assegura Brenning. De acordo com sua análise, até 2005 a Codelco removeu 1,3 quilômetro quadrado, enquanto a Anglo American cerca de 20 hectares. No ano passado, as empresas responderam às suas acusações dizendo contar com todas as autorizações ambientais para operar as minas, justificativa questionada pelo especialista. A empresa Los Pelambres desmentiu a existência de geleiras rochosas.

Devido ao aquecimento global, as cruciais geleiras sul-americanas estão em veloz retrocesso. Sua proteção ganhou força no Chile em 2006, quando o governo de Ricardo Lagos (2000-2006) aprovou o estudo de impacto ambiental da mina binacional Pascua Lama, propriedade da multinacional canadense Barrick Gold Corporation, que até hoje encontra resistência entre ecologistas e cidadãos. A mina, que ainda não começou a ser construída, fica na cordilheira dos Andes, nos dois lados da fronteira chileno-argentina. Inicialmente, a empresa propôs remover três geleiras do lado chileno próximos à mina para desenvolver o projeto, idéia rechaçada pelas autoridades. Mas as geleiras já foram afetadas pelos trabalhos de prospecção, denunciam diversas fontes.

Este tipo de conflito, somado ao retrocesso que sofrem as geleiras em todo o mundo pela mudança climática, levaram o governo a elaborar uma Política para a Proteção e Conservação de Geleiras, aprovada no último dia 14. Mas, algumas organizações ambientalistas discordam dela, pois apostavam em uma lei mais rígida de proteção de geleiras, que está “congelada” no parlamento. Embora o governo da presidente socialista Michelle Bachelet diga que a política é de implementação mais fácil e rápida do que uma lei, ecologistas afirmam que o lobby das grandes mineradoras inclinou a balança das autoridades para a primeira opção.

Embora Brenning considere “um avanço” essa política, questiona vários pontos. Por exemplo, por não definir especificamente o que se entende por “geleira de rocha ou recoberta”. Também critica que se deixe nas mãos do sistema de avaliação de impacto ambiental, que a seu ver demonstra ineficiência nesses casos, a aprovação dos projetos que afetam as geleiras. Da mesma forma, discute a invocação dos chamados “interesses superiores da nação”.

“Embora a política expresse a necessidade de preservação das geleiras, deve-se contemplar seu manejo adequado quando a necessidade específica da bacia assim requer, como também se contemplarão eventuais intervenções, se os interesses superiores da nação assim exigirem”, diz o texto aprovado pelo governo. “Talvez, seja preciso pensar em criar uma política de uso do solo, que ajude a enfocar estes projetos em certas zonas e manter outras áreas fora de uso mineiro. Vejo com preocupação projetos que no futuro poderiam afetar áreas de alta montanha com geleiras e glaciais rochosos”, disse Brenning.

Além disso, o especialista considera que o Chile deveria focar-se na capacitação e educação de geólogos, geógrafos, funcionários e público em geral, principalmente em matéria de geleiras rochosas, as mais ignoradas. “As geleiras rochosas são fenômenos escondidos e pouco conhecidos. Mesmo no mundo científico há pouca literatura sobre elas. Os Alpes estão melhor pesquisados”, acrescentou o especialista. Segundo detalha a política sobre geleiras, até agora foram identificados mais de 3.100 glaciais em todo o Chile, com superfície estimada de 20.188 quilômetros quadrados. Destes, mais de 15 mil quilômetros quadrados correspondem a Campo de Gelo Norte e Sul. Calcula-se que a superfície não inventariada seja de 4.700 quilômetros quadrados de gelos.

O texto diz ainda que “a maioria dos glaciais chilenos apresentam balanços de massa negativos, ou seja, estão em retrocesso e sofrem perdas de área e espessura devido à mudança climática. O retrocesso e estreitamento detectados no Chile nos últimos 30 anos se aceleraram e duplicaram na última década”. Atualmente, Brenning trabalha no monitoramento dos glaciais rochosos na cordilheira da capital com instrumentos precisos com GPS, baseado em satélites. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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