MULHERES-COLÔMBIA: Vítimas perenes do tráfico de pessoas

Bogotá, 26/05/2009 – A expressão triste de Maria (nome fictício) se mistura com raiva, impotência e muito medo. É um medo que não lhe termina apesar de já terem se passado cinco meses desde que conseguiu escapar de seus captores nos Estados Unidos, para onde a levaram com o argumento de um falso contrato de trabalho. As contratações falsas são um dos ganchos para atrair pessoas, especialmente mulheres e jovens, para a exploração sexual. Mas, também são vítimas do tráfico homens e mulheres de qualquer idade, usados sob condições de escravidão em diferentes trabalhos.

Na Colômbia o crime afeta anualmente, segundo os dados disponíveis, cerca de 70 mil pessoas, o que coloca o país em terceiro lugar da América Latina, atrás da República Dominicana e do Brasil. Em conjunto, a América Latina é atualmente o novo destino destacado do tráfico humano, um lugar que o Japão ocupou na década de 80 e a Espanha nos anos 90.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, no ultimo dia 13, em Nova York, pediu que os países endureçam as medidas contra o que se chama de escravidão do século XXI, e, também, que se diminua a impunidade diante do escândalo de que a cada ano milhões de pessoas são compradas e vendidas como se fossem gado, e recordou que “a maioria das vítimas é de mulheres e crianças”. A Colômbia, por exemplo, se converteu nos últimos anos em receptor de vítimas desse crime, procedentes quase sempre dos vizinhos Equador e Peru. Os Estados Unidos foram e são o principal receptor do tráfico de latino-americanos com fins de exploração.

“No ano passado desmantelamos um grupo que detinha 30 peruanos, trabalhando forçado em Bucaramanga”, capital do departamento de Santander, disse à IPS um oficial de Investigação da Interpol-Colômbia, que pediu para não ser identificado. Mas as estatísticas refletem apenas parcialmente a dimensão do crime, porque muitas vítimas não denunciam por temerem que os traficantes cumpram suas ameaças, por vergonha social ou porque não compreendem a magnitude da violação de seus direitos. “Uma mulher me disse que foi mais do que ruim, não lhe pagaram nada, mas que não denunciaria porque foi apenas uma questão de má sorte”, disse a advogada Lina Parra, da não-governamental fundação Esperança, que atende as vítimas de tráfico de pessoas na Colômbia há 13 anos e no Equador há três.

“E se a vítima não quer, não insistimos, porque consideramos que já foram suficientemente violados todos seus direitos e não devemos exercer maior pressão”, continuou Parra. A reação das vítimas não muda o fato de a dimensão do crime se equiparar com o tráfico de drogas e de armas. Além disso, se desenvolve com estruturas que tornam muito complexo determinar os responsáveis, porque cada passo dado é desvinculado com o seguinte. “Primeiro fazem a captação, depois o traslado e em seguida a exploração. Mas, algumas pessoas são regatadas sem serem captadas, outras são levadas, mas não exploradas, o que deriva as denúncias para crime de sequestro”, por exemplo, explicou a advogada.

Quanto a dificuldade de desmantelar as redes concordam três funcionários da Interpol que falaram com a condição de não serem identificados. Ressaltaram que a Colômbia há dois anos passou a liderar a luta contra o tráfico na região, após um trabalho de 15 anos com melhoria nos métodos de investigação e coordenação entre as instituições. O impulso inicial foi dado pela Fundação Esperança, que em 1995 formou o primeiro grupo interinstitucional contra o tráfico. Agora se transformou em um Comitê integrado por 14 instituições, entre elas a ONU, dois ministérios, a Procuradoria Geral, o Instituto de Bem-Estar familiar, Interpol e a própria Fundação.

Neste mesmo mês, cerca de 30 colombianas foram recrutadas por meio de artimanhas e levadas para a cidade de Ibarra, no Equador, onde tiveram a sorte de serem resgatadas dias depois de estarem confinadas em um centro de prostituição. Mas Parra explicou que o episódio também mostrou que o trauma não acaba com a libertação. O que foi vivido no cativeiro se soma ao sensacionalismo e à insensibilidade com que os meios de comunicação trataram o resgate e a situação das mulheres, o que representou um novo trauma, contaram as vítimas no abrigo da Fundação no Equador. Esta entidade recebe as vítimas por pelo menos durante um mês, cuida de sua saúde física e psicológica, ajuda a retomarem suas vidas e as apóia na denúncia e no julgamento, quando acontecem.

Por sua vez, os funcionários da Interpol reconhecem a falta de recursos para enfrentar a “complexidade do crime, diferente de qualquer outro”. Mas, consideram positivo que tenha sido modificado o Código penal para endurecer o castigo. As penas para os traficantes ou exploradores de pessoas agora variam de 10 a 15 anos. Entretanto, resta muito para se fazer.

Citaram como exemplo a necessidade de capacitar juizes e promotores para que compreendam a dimensão do crime, suas causas e consequências. Somente assim – afirmaram – o sistema de justiça deixará de ver as vítimas como responsáveis pelo próprio delito. “Muitas vezes ouvimos durante os processos frases como ‘por que se foram’ ou ‘como não perceberam’ que a oportunidade oferecida era falsa”, disse um dos entrevistados.

(IPS/Envolverde)

Helda Martínez

Helda Martínez escribe para IPS desde Colombia, en especial sobre desarrollo y sociedad. Se graduó en 1981 como comunicadora social y periodista. Ese mismo año obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar en la categoría Mejor Trabajo Social, modalidad radio. Trabajó para medios de comunicación masivos de su país, como el periódico El Espectador y la radio Todelar. También se desempeñó como investigadora y redactora de varias publicaciones. Entre ellas se destacan "La guerra: Una amenaza para la libertad de información", editado por Medios para la Paz en 2002; "Prensa, conflicto armado y región. Aprendizajes del diplomado - Periodismo responsable en el conflicto armado" - Medios para la Paz, 2006; "Colombia y las Sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos" - IIDH, 2010.

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