ZWEDRU, Libéria, 27/05/2009 – Três mulheres com roupas garridas caminham lentamente em redor das árvores derrubadas e queimadas, espalhadas ao acaso na clareira enegrecida, cada uma delas com conchas de caracóis cheias de sementes de arroz local que vão ser plantadas no solo fértil. As mulheres pertencem a uma cooperativa local, o Secretariado para o Desenvolvimento de Mulheres e Crianças (WOCDES), e levantam-se cedo para uma caminhada de 5 quilómetros por uma estrada de terra batida que as leva às suas terras perto de Zwedru, no Distrito de Grand Gedeh, na vasta região florestal liberiana, na fronteira com a Costa do Marfim.
Passam o dia a fazer trabalho manual duro, dobradas, a cavar o solo com pequenas pás. Plantam sementes em três hectares de terra, sob um forte sol tropical, interrompendo o trabalho só para comerem uma simples refeição de arroz e folha de mandioca.
Jeanet Gay é uma dessas agricultoras. Trata-se de uma mãe de 35 anos que fugiu dos combates da guerra civil em direcção a Monróvia, capital da Libéria, e cujo marido foi assassinado por milícias na principal ponte da cidade. A mãe, pai e sobrinhas foram todas mortas em casa. Nenhuma das suas companheiras de trabalho tem maridos que as sustentem, ou aos filhos.
A cultura de arroz nas terras montanhosas onde estas mulheres trabalham vai demorar seis meses a crescer antes de ser colhida, e pelo menos 40 por cento da colheita poderá perder-se devido aos pássaros, marmotas e outros animais daninhos. Entretanto, as terras pantanosas mais baixas, que são irrigadas naturalmente, estão reservadas para a introdução de um hectare de semente reprodutora de arroz chamada Nerica.
A Nerica, uma abreviatura da expressão ‘Novo Arroz para África’, é uma espécie híbrida asiático-africana que está a ser intensamente promovida pelo Ministério da Agricultura da Libéria devido ao seu curto período de crescimento (três meses) e que, segundo um estudo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), conseguiu um aumento de produção de 25 por cento por comparação a outras estirpes não-híbridas.
As duas explorações comerciais de arroz da Libéria, incluindo uma com 17.000 hectares no fértil Distrito de Lofa, que conta com o apoio da Líbia no valor de 30 milhões de doláres, estão bem colocadas para oferecer a marca Nerica, tendo a capacidade financeira para repor as sementes de duas em duas colheitas, ter acesso a maquinaria eficiente, fertilizantes, sistemas de irrigação e de transporte.
Trinta quilos de sementes reprodutoras de Nerica foram recentemente doados ao WOCDES pela secção local da Acção Alemã pela Agricultura, instituição de caridade e desenvolvimento internacional, e serão plantadas nas próximas duas semanas.
A Nerica está a ser promovida como antídoto contra o penoso ‘vazio da fome’ neste país da África Ocidental, uma realidade que se faz sentir durante a estação chuvosa, desde Abril até Julho. É nesta altura que os 75 por cento da população rural da Libéria, que vivem da agricultura de subsistência, começam a esgotar as suas reservas alimentares antes das novas colheitas estarem prontas.
“Isto representa um sonho para mim”, disse a fundadora do WOCDES, Betty Doh, referindo-se às actividades da organização no terreno da família de 275 hectares. Apesar das leis da Libéria proíbirem as mulheres de herdarem terra, os irmãos de Doh, que herdaram a propriedade depois da morte do pai, encorajaram sem reservas a sua iniciativa agrícola.
“Sabemos que existem necessidades alimentares. Especialmente entre as mulheres. Temos de ajudá-las”, explicou Doh. “Algumas delas estão a tentar encontrar algo que as possa ajudar. Os maridos desapareceram – morreram durante a guerra ou foram-se embora – e os filhos não têm apoio de ninguém. Estas mulheres debatem-se com muitos problemas”.
Doh é oriunda de Zwedru mas a sua carreira profissional decorreu no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Monróvia, durante a guerra civil que devastou o país e que durou décadas. “Regressei brevemente em 2003 só para ver – e vi muita terra vazia e muitas casas abandonadas”, conta com tristeza.
Contudo, para os agricultores de subsistência como Jeanet Gay, a Nerica poderá não oferecer uma solução rápida para o ‘vazio da fome’, podendo até pôr em perigo a sua sobrevivência.
“Para conseguirem bons resultados, os agricultores têm de ter fácil acesso aos fertilizantes, pesticidas e serviços de extensão, que não são acessíveis à grande maioria” explicou a GRAIN, organização não governamental que promove o desenvolvimento sustentável e o uso da biodiversidade agrícola com base nos conhecimentos locais. “Talvez a maior preocupação com a Nerica é o facto de estar a ser promovida como parte de um esforço alargado no sentido de expandir o agronegócio em África, que ameaça eliminar a verdadeira base da soberania alimentar africana, ou seja, os pequenos agricultores e os seus sistemas de semeação locais”.
No Distrito de Grand Gedeh, o WOCDES, organização a que pertence Betty Doh, assim como a Associação de Desenvolvimento das Mulheres da Região Sudeste (SEWODA) e o projecto das Mulheres Rurais de Grand Gedeh, são algumas das iniciativas de cooperação agrícola promovidas por mulheres que esperam fazer o salto da agricultura de subsistência para um sistema de pequenos negócios agrícolas rentáveis.
Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Num país pobre, onde o desemprego ronda os 85 por cento, todos andam à procura de fundos. Doh financiou ela própria a aquisição das sementes para a propriedade, mas ainda lhe faltam máquinas, fertilizantes e pesticidas para poder cultivar a sua colheita de arroz com eficácia. Não tem a certeza se vai receber outro lote de sementes Nerica para as terras baixas, especialmente depois das que recebeu terem acabado.
Para os agricultores de subsistência habituais, existe a ameaça de que o ciclo anual de colheitas e fome irá continuar, o que pode confiná-los a toda uma vida de trabalho incessante para satisfazer as suas necessidades básicas.
“Quando regressei, chorava todos os dias depois de ter visto Zwedru destruída, e sentia-me sem forças”, recorda Jeanet Gay. “O meu marido, mãe, pai e irmãos desapareceram. Mas adaptei-me passado algum tempo e nunca mais parti”.
“Quero ganhar algum dinheiro e tomar conta dos meus filhos. Depois do trabalho, tento esquecer, vou para a cama e, no dia seguinte, sinto-me bem”.

