Londres, 01/06/2009 – O lado oculto da crise econômica mundial é uma estendida repressão dos direitos humanos, alertou ontem a secretária-geral da Anistia Internacional, Irene Khan, na apresentação do informe 2009 da organização.
A recessão também cria novos problemas, acrescentou. “Durante o ano passado vimos gente indo às ruas protestar em 17 países, e quando isso ocorreu os governos, particularmente os de cunho autoritário, responderam de maneiras muito duras”, disse. “Vimos gente assassinada em Tunis e Camarões, vimos a policia usa força excessiva em outros lugares como Egito, Mali, Senegal. Estamos vendo mais repressão a partir da recessão”, ressaltou Khan.
Além dos impactos da recessão sobre as pessoas, “alguns problemas muito importantes em matéria de direitos humanos não estão atraindo a atenção e os recursos que precisam. Falo de assuntos como a violência contra as mulheres e também de questões como os conflitos armados em Darfur (no Sudão), Somália, Congo, Afeganistão ou Paquistão”, disse Khan. Os governos estão dedicados a “redirecionar o mercado. Mas o mercado não vai abordar os problemas de direitos humanos”, acrescentou.
Quanto aos pacotes de recuperação econômica, Khan disse que estes também deveriam se ocupar dos pobres em lugar de centrar-se apenas em ajudar na recuperação de empresas e bancos. “Se não se abordar a pobreza, não se terá um plano de recuperação econômica sustentável”, acrescentou. O Banco Mundial disse que cerca de 53 milhões de pessoas estavam voltando à pobreza devido à recessão, recordou Kahn. “No ano passado, a crise alimentar afetou cerca de 150 milhões de pessoas. Isso significa que foram apagados todos os avanços obtidos na última década”, ressaltou.
A Anistia Internacional, com sede em Londres, considera que a recessão foi o segundo grande golpe contra os direitos humanos, depois da “guerra contra o terrorismo” lançada após os atentados de 11 de setembro de 2001 que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington. “No passado vimos governos usarem a segurança como argumento para debilitar os direitos humanos. O que vemos agora é que a crise econômica produziu outro imperativo para os governos, que novamente os estão ignorando”, disse Khan. “Assim, o cenário de 11 de setembro passou a ser uma espécie do 15 de setembro”, afirmou, em alusão à data do ano passado em que o banco Lehman Brothers quebrou, desatando a crise. “Por razões econômicas – sejam desculpas ou deliberadas, provavelmente uma combinação de ambas – os governos querem evitar centrar-se nos temas de direitos humanos”, disse a secretária-geral da AI.
Esta organização lançou a campanha “Exija dignidade” para lutar pelos direitos ameaçados pela crise econômica e pelos setores em consequência ignorados. Com essa iniciativa “queremos por fim aos abusos dos direitos humanos que criam pobreza e mantém as pessoas pobres. Estamos olhando a pobreza como um tema não apenas de renda, mas também de direitos das pessoas que vivem na pobreza: sua participação, acesso equitativo aos direitos humanos e, particularmente, responsabilidade dos governos, das instituições financeiras e das empresas”, afirmou Khan.
A Anistia fará campanha para acabar com a retirada forçada de moradores de favelas, assegurou Khan, e trabalhará para garantir que as mulheres tenham voz em matéria de direitos sexuais e reprodutivos, além de “exigir a responsabilidade corporativa” da indústria extrativa. Para Khan, a questão fundamental é “o poder das pessoas que vivem na pobreza. A melhor estratégia é seu direito à participação: sua voz, a transparência e responsabilidade dos governos, para que possam fazer com que seus governos se responsabilizem, e eles também possam participar das decisões que os afetam”, acrescentou. IPS/Envolverde


