DIREITOS HUMANOS: A recessão engendra repressão

Londres, 01/06/2009 – O lado oculto da crise econômica mundial é uma estendida repressão dos direitos humanos, alertou ontem a secretária-geral da Anistia Internacional, Irene Khan, na apresentação do informe 2009 da organização.

Irene Khan - Daniela Estrada/IPS

Irene Khan - Daniela Estrada/IPS

“A crise econômica está agravando problemas de direitos humanos já existentes, como marginalização dos povos indígenas, situação de retirada forçada de moradores de favelas e a crise dos refugiados e migrantes”, disse em entrevista à IPS.

A recessão também cria novos problemas, acrescentou. “Durante o ano passado vimos gente indo às ruas protestar em 17 países, e quando isso ocorreu os governos, particularmente os de cunho autoritário, responderam de maneiras muito duras”, disse. “Vimos gente assassinada em Tunis e Camarões, vimos a policia usa força excessiva em outros lugares como Egito, Mali, Senegal. Estamos vendo mais repressão a partir da recessão”, ressaltou Khan.

Além dos impactos da recessão sobre as pessoas, “alguns problemas muito importantes em matéria de direitos humanos não estão atraindo a atenção e os recursos que precisam. Falo de assuntos como a violência contra as mulheres e também de questões como os conflitos armados em Darfur (no Sudão), Somália, Congo, Afeganistão ou Paquistão”, disse Khan. Os governos estão dedicados a “redirecionar o mercado. Mas o mercado não vai abordar os problemas de direitos humanos”, acrescentou.

Quanto aos pacotes de recuperação econômica, Khan disse que estes também deveriam se ocupar dos pobres em lugar de centrar-se apenas em ajudar na recuperação de empresas e bancos. “Se não se abordar a pobreza, não se terá um plano de recuperação econômica sustentável”, acrescentou. O Banco Mundial disse que cerca de 53 milhões de pessoas estavam voltando à pobreza devido à recessão, recordou Kahn. “No ano passado, a crise alimentar afetou cerca de 150 milhões de pessoas. Isso significa que foram apagados todos os avanços obtidos na última década”, ressaltou.

A Anistia Internacional, com sede em Londres, considera que a recessão foi o segundo grande golpe contra os direitos humanos, depois da “guerra contra o terrorismo” lançada após os atentados de 11 de setembro de 2001 que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington. “No passado vimos governos usarem a segurança como argumento para debilitar os direitos humanos. O que vemos agora é que a crise econômica produziu outro imperativo para os governos, que novamente os estão ignorando”, disse Khan. “Assim, o cenário de 11 de setembro passou a ser uma espécie do 15 de setembro”, afirmou, em alusão à data do ano passado em que o banco Lehman Brothers quebrou, desatando a crise. “Por razões econômicas – sejam desculpas ou deliberadas, provavelmente uma combinação de ambas – os governos querem evitar centrar-se nos temas de direitos humanos”, disse a secretária-geral da AI.

Esta organização lançou a campanha “Exija dignidade” para lutar pelos direitos ameaçados pela crise econômica e pelos setores em consequência ignorados. Com essa iniciativa “queremos por fim aos abusos dos direitos humanos que criam pobreza e mantém as pessoas pobres. Estamos olhando a pobreza como um tema não apenas de renda, mas também de direitos das pessoas que vivem na pobreza: sua participação, acesso equitativo aos direitos humanos e, particularmente, responsabilidade dos governos, das instituições financeiras e das empresas”, afirmou Khan.

A Anistia fará campanha para acabar com a retirada forçada de moradores de favelas, assegurou Khan, e trabalhará para garantir que as mulheres tenham voz em matéria de direitos sexuais e reprodutivos, além de “exigir a responsabilidade corporativa” da indústria extrativa. Para Khan, a questão fundamental é “o poder das pessoas que vivem na pobreza. A melhor estratégia é seu direito à participação: sua voz, a transparência e responsabilidade dos governos, para que possam fazer com que seus governos se responsabilizem, e eles também possam participar das decisões que os afetam”, acrescentou. IPS/Envolverde

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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