Washington, 01/06/2009 – Muitos meios de comunicação continuam apresentando os Estados Unidos como um país de “centro-direita”, mas a esmagadora aprovação da agenda progressista do presidente Barack Obama e de ideais mais liberais em diferentes pesquisas demonstra que isso é falso, diz uma nova pesquisa. Segundo o estudo feito pelos grupos Assuntos de Mídia para os Estados Unidos e Campanha para o Futuro dos Estados Unidos (CAF), a maioria neste país parece ter uma postura mais “liberal” (para a esquerda) quando os cidadãos são consultados sobre temas específicos.
Durante três décadas, a direita e a centro-direita dominaram as estruturas de poder em Washington. Ma, pesquisas sobre temas específicos e a esmagadora vitória eleitoral do mais liberal Partido Democrata indicam que os cidadãos norte-americanos mudaram suas posturas tradicionais e os chamados independentes e moderados aproximam-se da esquerda. É o que os autores do estudo chamam de um “mar de mudanças”. Em “tema por tema, e em crescentes proporções ao longo do tempo, independente ou moderados refletem cada vez mais a opinião dos democratas ou liberais”, diz o trabalho intitulado “Estados Unidos: uma nação de centro-esquerda”.
A virada dos independentes – como se define a maioria dos eleitores neste país – foi o que determinou a mudança. “A maioria é de centro-esquerda. É a direita que ficou isolada”, afirma o estudo. “Os que se consideram moderados e independentes com o tempo se aproximaram das visões liberais e democratas”, disse Robert Borosage, codiretor do CAF. “O eixo sobre tudo isto é formado, naturalmente, pelas opiniões a respeito do governo. O que mostra o informe é que o público, particularmente em uma crise, mas, mesmo antes, se tornou mais partidário do governo e do papel que este tem em nossas vidas”, acrescentou. O informe conjunto se baseia em pesquisas feitas por três acreditadas fontes bipartidárias.
Quanto à postura dos cidadãos sobre o governo, utilizou-se a Pesquisa Nacional de Eleições, segundo a qual 62% dos consultados viram o crescente papel do governo federal como uma resposta efetiva aos problemas da nação, enquanto 37% disseram que assim usurpava responsabilidades que cabem aos indivíduos. Além disso, dois terços dos entrevistados disseram acreditar que o governo deveria fazer mais, o que indica que a população se afasta do “centro-direita” para adotar uma postura mais liberal. Os autores dizem que os “norte-americanos mantêm um bom grau de cepticismo para o grande negócio”, o que interpretam como um indício de um sentimento esquerdista.
Estudos do Centro de Pesquisas Pew, citados no informe, mostram que mais da metade dos norte-americanos acreditam que as corporações fazem muito dinheiro e quase quatro entre cinco consideram que as firmas têm poder em demasia. Mas, alguns críticos responderiam rápido que, embora a campanha eleitoral de Obama tenha sido marcada por uma agenda progressista, houve um claro afastamento do programa desde que assumiu a Presidência em janeiro. Borosage reconhece que Obama arrisca perder apoio progressista se avançar em temas como aumento da presença militar no Afeganistão e as idas e vindas sobre a prisão de Guantânamo, em Cuba.
Porém, no momento, os progressistas norte-americanos, e a maior parte da população, parecem estar firmemente atrás de Obama, afirmou Borosage. Isto, talvez, se deva ao fato de a crise habitualmente levar a população a apoiar seu governo, e Obama enfrenta duas guerras e uma difícil situação econômica. Mas os autores do estudo dizem que a maioria progressista dos Estados Unidos não é conjuntural e chegou para ficar por um longo tempo. Os especialistas atribuem isto à crescente presença demográfica de grupos que são esmagadoramente partidários desses ideais, os quais Obama reconheceu como setores integrantes de sua nova coalizão: eleitores hispanos, afro-descendentes e jovens em geral.
“No dia das eleições, mais de 23 milhões de jovens votaram”, destacou Heather Smith, diretora-executiva do Roch the Vote, organização dedicada ao poder político juvenil. “Isto é apenas o começo, porque votaram em crescentes proporções em 2004, 2006 e 2008, e agora está se convertendo em um habito”, quando antes demonstravam desinteresse pela política, acrescentou. Por sua vez, Page Garner, presidente da organização Womens’s voices, women’s votes (Vozes das mulheres, votos das mulheres), disse que à coalizão de Obama se deve acrescentar o grupo das mulheres solteiras, um segmento da população cada vez maior.
Entretanto, a maioria por trás de Obama e de suas políticas progressistas também responde a outra realidade paralela: o colapso do conservador e direitista Partido Republicano. Uma pesquisa feita pela rede NBC e pelo The Wall Street Journal no final de abril mostra que apenas um quinto dos eleitores se identificaram como republicanos, enquanto cerca de 30% se declararam democratas. Percebe-se, em geral, que o Partido Republicano inclinou-se ainda mais à direita, com isso perdendo eleitores moderados em distritos vulneráveis para os democratas.
Sua dura política em relação à imigração afastou os hispanos, e sua oposição ao casamento entre homossexuais apenas ganhou o apoio da direita cristã, e os distanciou de outros setores. Em uma entrevista na televisão domingo passado, o ex-secretário de Estado Colin Powell disse temer que o Partido Republicano se tornasse “muito, muito estreito. Sempre senti que devia ser mais inclusive do que geralmente foi ao longo dos anos”. IPS/Envolverde

