FLORENCIA, Colômbia, 02/06/2009 – (Tierramérica).-Em meio às idas e vindas da guerra e da coca, um grupo de camponeses colombianos abraçou a elaboração de chocolate em plena Amazônia.
O missionário chegou em 1978 a Remolinos del Caguán, povoado da selva às margens do Rio Caguán, águas abaixo do município de Cartagena del Chairá, 117 quilômetros a sudeste de Florencia, capital de Caquetá. Quase ao mesmo tempo chegou a coca. Alguns homens, entre eles um norte-americano ex-combatente da Guerra do Vietnã, levaram uma semente desconhecida que, disseram aos moradores, os tiraria da pobreza. Os promotores do cultivo guardavam o segredo sobre seu uso e compartimentavam o procedimento químico para tratar a folha do arbusto, até que os próprios produtores armaram o quebra-cabeças e reproduziram o procedimento de produção da pasta base, passo intermediário para a obtenção da cocaína.
O reino da pasta base
Por muito tempo, a pasta base foi o principal produto de Remolinos. Os compradores se multiplicaram e competiam entre si, oferecendo quantias nunca vistas. “Foram anos de delírio geral. Os camponeses que haviam ficado de fora da bonança nos pediam as sementes” de coca, conta Simeón Pérez a Franzoi no livro “Deus e a cocaína: como um missionário sobreviveu em El Caguán”, escrito pelo italiano e lançado este mês em Bogotá. No livro, Franzoi descreve esses tempos de butiques, joalherias, modernos eletrodomésticos que funcionavam com geradores movidos a óleo combustível, prostituição, pistas clandestinas de pouso e montes de dinheiro que se esfumaçavam com a mesma facilidade com que surgiam.
No final de 1964, haviam entrado no Caquetá as comunistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que em maio completaram 45 anos e cujo documento de criação reclama uma reforma agrária ainda pendente. Desde 1962, a crescente concentração da propriedade das melhores terras foi complementada com o fomento estatal ao desmatamento, em troca de títulos de propriedade aos colonos que se aventuraram além da fronteira agrícola. Uma consequência foi a expansão do cultivo da coca, como o mais rentável em regiões isoladas e distantes dos centros comerciais.
Cartagena del Chairá tem 13.622 quilômetros quadrados, e metade é parte da Reserva Florestal da Amazônia. A selva amazônica, última grande mancha de floresta do planeta, pagou em Caquetá os pratos quebrados pela droga e pelo conflito. Em tempos de coca, “havia boa afluência de dinheiro”, disse ao Terramérica Rubén Darío Montes, representante legal da Chocaguán e ex-presidente do Comitê de Cacaueiros de Remolinos del Caguán e Suncillas, rio tributário do Caguán. “Não havia controle das autoridades”, lembrou. A primeira incursão contra o narcotráfico, em 1988, destruiu um dos laboratórios de drogas que funcionavam na área na época.
Milagre do cacau
Desde 1985, as comunidades organizadas de Remolinos começaram a propor a substituição da coca por outros cultivos. Diante da ofensiva antidrogas, muitos fugiram. “O padre Jacinto (como Franzoi é chamado no local) era pároco no povoado e começou a analisar o que fazer para evitar que as pessoas partissem e não aumentassem os cordões de miséria” nas cidades, disse Montes. Oito pessoas atenderam ao chamado do sacerdote para mudar de cultivo, e em 1994 registraram o Comitê de Cacaueiros e a empresa Chocaguán. Depois, mais camponeses aproximaram-se.
A borracha foi descartada porque demora oito anos para produzir, enquanto as sementes melhoradas de cacau dão frutos um ano e meio após o plantio. Os primeiros tabletes de 500 gramas de chocolate puro foram elaborados em 1993. A fábrica de chocolates desafiava a lógica do mercado. Naquele ano, vendia-se, a cada domingo, em Remolinos, uma tonelada de pasta base, a US$ 1.350 o quilo, segundo o câmbio da época. Enquanto isso, cada produtor vendia na semana entre 20 e 50 quilos de grãos de cacau à recém-criada Chocaguán, que pagava US$ 2,70 por quilo.
A Chocaguán fabricava por semana 50 pacotinhos com nove bolinhas artesanais de chocolate puro, condimentado com canela ou cravo. Todo mundo comprava, inclusive a guerrilha e os narcotraficantes. O negócio floresceu. “Graças a Deus, e à economia da coca, tudo o que se produzia era vendido”, disse Rodrigo Velaidez, assessor da Chocaguán e agrônomo especialista em cacau.
Entre a coca e o Plano Colômbia
Em 1996, a crise rural, causada pela súbita política de abertura comercial, arrasou com mais de um quinto da área de cultivos tradicionais do país e com mais de 300 mil empregos, segundo Darío Fajardo, ex-consultor do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Isso impulsionou o cultivo de coca, sempre dizimando áreas de floresta. O consequente excesso na produção derrubou seu preço, gerando, também em 1996, as marchas de camponeses produtores de coca que pediam ao governo ações para compensar as perdas. As Farc a princípio rechaçaram a coca. Mas, quando o dinheiro do narcotráfico começou a financiar grupos paramilitares que se alinharam com o Exército na luta contrainsurgente, a guerrilha envolveu-se ativamente no negócio.
O Plano Colômbia, ativado desde 2000 com financiamento norte-americano, buscou reduzir a renda obtida com a droga pelas Farc, com fumigações aéreas usando glifosato. Enquanto isso, os associados da Chocaguán ampliavam lentamente o plantio de cacau e adquiriam máquinas para instalar sua fábrica em Remolinos, com recursos próprios, ajuda de governos nacionais e locais, e apoio internacional intermediado por Franzoi. Hoje, as vendas se dividem entre Caquetá e regiões de departamentos vizinhos. O chocolate também chegou à rede local dos supermercados Carrefour, por gestão das Nações Unidas, e a lojas de produtos vegetarianos.
Dos 200 hectares plantados, estão em produção cerca de 70, pertencentes a metade dos sócios, que fornecem à Chocaguán entre três e 200 quilos semanais do grão. Sete empregados temporários, dos quais três ou quatro são mulheres, cuidam de processar o chocolate. Agora a empresa pretende mudar parte do processamento para Cartagena del Chairá, o que economizará custos, reduzirá os riscos do transporte do produto por rio em zona de guerra e facilitará a projeção comercial. A cada semestre, a Chocaguán promove “dias de campo” para atualização de técnicas ambientalmente amigáveis. “Pelo menos 70% dos associados aplicam os conhecimentos adquiridos”, disse Velaidez.
Os diretores da Chocaguán atribuem a sobrevivência da empresa ao fato de pertencer a quatro redes nacionais de produção alternativa e de resistência à guerra, apoiadas na cooperação de Suíça e Holanda, entre outros. Na Chocaguán, “não somos extirpadores da coca. Somos promotores da substituição gradual e voluntária dos cultivos de uso ilícito. As pessoas nunca foram forçadas a nada. E assim é até hoje”, disse Velaidez. O próprio Montes tem apenas um hectare de cacau. “É pouco. O mínimo para garantir uma rentabilidade é três hectares por família. É por falta de dinheiro, porque terreno eu tenho. E esse hectare semeei por conta e risco pessoal”, contou. A guerra gera incerteza. “Se eu planto, tenho de gastar três milhões de pesos (US$ 1.350) para semear, mas eles chegam e fumigam. Não há garantia de que não fumigarão o cacau”, acrescentou.
Em Remolinos houve fumigações com glifosato em 1996, 1999, 2002 e 2005. A última foi a mais doída para os cacaueiros, porque aconteceu depois de a experiência receber o prestigiado Prêmio Nacional de Paz 2004, concedido ao trabalho de resistência civil, baseado na segurança e na soberania alimentar em momentos de uma maciça ofensiva militar. “Caquetá foi uma das regiões de principal enfoque da ajuda militar antidrogas dos Estados Unidos”, disse ao Terramérica Adam Isacson, considerado o principal especialista no Plano Colômbia e diretor do Latin American Security Programa, do norte-americano Center for International Policy.
Desde 2004, foram deslocados para Caquetá 17 mil soldados, mas não há informação sobre a proporção de recursos militares e de inteligência do Plano Colômbia destinados ao departamento. Em um cálculo pessoal, “muito conservador”, Isacson disse que “o apoio norte-americano a operações em Caquetá soma, no mínimo, US$ 5 milhões por ano, ou US$ 50 milhões desde 2000”. “Poderiam ter usado esses recursos em obras para a região, como melhorias da habitação, programas de saúde e educação – que é um problema –, e em vias de acesso”, lamentou Montes. Em 1995, as comunidades organizadas elaboraram uma proposta de substituição completa da coca em Remolinos, que somava pouco mais de US$ 19 milhões, no câmbio da época.
Perseguição
A região de Remolinos de Caguán e seus habitantes ficaram estigmatizados desde que ali aconteceram decepcionantes diálogos de paz entre o governo e as Farc (1998-2002). Com as Farc houve “momentos de tensão” e “atritos”, disseram membros da empresa camponesa. “A chave é ficar à margem, com argumentos”, acrescentaram. Mas os associados da Chocaguán não escaparam das perseguições e da prisão. Inclusive Franzoi foi acusado de ter entregue US$ 68.300 às Farc e de ter guardado armas da guerrilha em sua paróquia. Porém, em junho de 2008, a promotoria o desvinculou da investigação, e pouco depois o sacerdote voltou à Itália. “Se não se respeita o padre, ao menos vamos respeitar a pessoa”, disse Montes.
O sacerdote italiano, hoje com 66 anos, em 2005, guiou pacientemente esta repórter pelo jardim de cacau, a dois quilômetros do povoado, semeado com diversas espécies para obter sementes e preservar tipos genéticos, que testemunham a busca de alternativas para esta parte da Amazônia. “Não importa quem planta nem quem rega, Deus é quem faz crescer”, dizia na época uma placa de madeira na entrada do jardim. Em 2007, foi substituído por outro, onde se lê: “Chocaguán, uma opção de vida para uma economia solidária”.
* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).


