REPORTAGEM: Os camponeses trocaram a coca pelo cacau

FLORENCIA, Colômbia, 02/06/2009 – (Tierramérica).-Em meio às idas e vindas da guerra e da coca, um grupo de camponeses colombianos abraçou a elaboração de chocolate em plena Amazônia.

Colheita de cacau em Remolinos del Caguán. - Gentileza Rodrigo Velaidez/Chocaguán

Colheita de cacau em Remolinos del Caguán. - Gentileza Rodrigo Velaidez/Chocaguán

A Chocaguán Amazônico, empresa camponesa de produção alternativa nascida em plena bonança da coca colombiana, comemorará em setembro 15 anos de existência no coração da guerra. A Chocaguán elabora chocolate com o cacau amazônico cultivado por 115 associados, em Caquetá, departamento do sul da Colômbia, país que há 45 anos sofre uma guerra interna. Cerca de 20% de seus integrantes são mulheres chefes de família. Há quase 20 anos, o sacerdote católico italiano Giacinto Franzoi lançou ali sua campanha “Não à droga, sim à borracha e ao cacau”.

O missionário chegou em 1978 a Remolinos del Caguán, povoado da selva às margens do Rio Caguán, águas abaixo do município de Cartagena del Chairá, 117 quilômetros a sudeste de Florencia, capital de Caquetá. Quase ao mesmo tempo chegou a coca. Alguns homens, entre eles um norte-americano ex-combatente da Guerra do Vietnã, levaram uma semente desconhecida que, disseram aos moradores, os tiraria da pobreza. Os promotores do cultivo guardavam o segredo sobre seu uso e compartimentavam o procedimento químico para tratar a folha do arbusto, até que os próprios produtores armaram o quebra-cabeças e reproduziram o procedimento de produção da pasta base, passo intermediário para a obtenção da cocaína.

O reino da pasta base

Por muito tempo, a pasta base foi o principal produto de Remolinos. Os compradores se multiplicaram e competiam entre si, oferecendo quantias nunca vistas. “Foram anos de delírio geral. Os camponeses que haviam ficado de fora da bonança nos pediam as sementes” de coca, conta Simeón Pérez a Franzoi no livro “Deus e a cocaína: como um missionário sobreviveu em El Caguán”, escrito pelo italiano e lançado este mês em Bogotá. No livro, Franzoi descreve esses tempos de butiques, joalherias, modernos eletrodomésticos que funcionavam com geradores movidos a óleo combustível, prostituição, pistas clandestinas de pouso e montes de dinheiro que se esfumaçavam com a mesma facilidade com que surgiam.

No final de 1964, haviam entrado no Caquetá as comunistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que em maio completaram 45 anos e cujo documento de criação reclama uma reforma agrária ainda pendente. Desde 1962, a crescente concentração da propriedade das melhores terras foi complementada com o fomento estatal ao desmatamento, em troca de títulos de propriedade aos colonos que se aventuraram além da fronteira agrícola. Uma consequência foi a expansão do cultivo da coca, como o mais rentável em regiões isoladas e distantes dos centros comerciais.

Cartagena del Chairá tem 13.622 quilômetros quadrados, e metade é parte da Reserva Florestal da Amazônia. A selva amazônica, última grande mancha de floresta do planeta, pagou em Caquetá os pratos quebrados pela droga e pelo conflito. Em tempos de coca, “havia boa afluência de dinheiro”, disse ao Terramérica Rubén Darío Montes, representante legal da Chocaguán e ex-presidente do Comitê de Cacaueiros de Remolinos del Caguán e Suncillas, rio tributário do Caguán. “Não havia controle das autoridades”, lembrou. A primeira incursão contra o narcotráfico, em 1988, destruiu um dos laboratórios de drogas que funcionavam na área na época.

Milagre do cacau

Desde 1985, as comunidades organizadas de Remolinos começaram a propor a substituição da coca por outros cultivos. Diante da ofensiva antidrogas, muitos fugiram. “O padre Jacinto (como Franzoi é chamado no local) era pároco no povoado e começou a analisar o que fazer para evitar que as pessoas partissem e não aumentassem os cordões de miséria” nas cidades, disse Montes. Oito pessoas atenderam ao chamado do sacerdote para mudar de cultivo, e em 1994 registraram o Comitê de Cacaueiros e a empresa Chocaguán. Depois, mais camponeses aproximaram-se.

A borracha foi descartada porque demora oito anos para produzir, enquanto as sementes melhoradas de cacau dão frutos um ano e meio após o plantio. Os primeiros tabletes de 500 gramas de chocolate puro foram elaborados em 1993. A fábrica de chocolates desafiava a lógica do mercado. Naquele ano, vendia-se, a cada domingo, em Remolinos, uma tonelada de pasta base, a US$ 1.350 o quilo, segundo o câmbio da época. Enquanto isso, cada produtor vendia na semana entre 20 e 50 quilos de grãos de cacau à recém-criada Chocaguán, que pagava US$ 2,70 por quilo.

A Chocaguán fabricava por semana 50 pacotinhos com nove bolinhas artesanais de chocolate puro, condimentado com canela ou cravo. Todo mundo comprava, inclusive a guerrilha e os narcotraficantes. O negócio floresceu. “Graças a Deus, e à economia da coca, tudo o que se produzia era vendido”, disse Rodrigo Velaidez, assessor da Chocaguán e agrônomo especialista em cacau.

Entre a coca e o Plano Colômbia

Em 1996, a crise rural, causada pela súbita política de abertura comercial, arrasou com mais de um quinto da área de cultivos tradicionais do país e com mais de 300 mil empregos, segundo Darío Fajardo, ex-consultor do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Isso impulsionou o cultivo de coca, sempre dizimando áreas de floresta. O consequente excesso na produção derrubou seu preço, gerando, também em 1996, as marchas de camponeses produtores de coca que pediam ao governo ações para compensar as perdas. As Farc a princípio rechaçaram a coca. Mas, quando o dinheiro do narcotráfico começou a financiar grupos paramilitares que se alinharam com o Exército na luta contrainsurgente, a guerrilha envolveu-se ativamente no negócio.

O Plano Colômbia, ativado desde 2000 com financiamento norte-americano, buscou reduzir a renda obtida com a droga pelas Farc, com fumigações aéreas usando glifosato. Enquanto isso, os associados da Chocaguán ampliavam lentamente o plantio de cacau e adquiriam máquinas para instalar sua fábrica em Remolinos, com recursos próprios, ajuda de governos nacionais e locais, e apoio internacional intermediado por Franzoi. Hoje, as vendas se dividem entre Caquetá e regiões de departamentos vizinhos. O chocolate também chegou à rede local dos supermercados Carrefour, por gestão das Nações Unidas, e a lojas de produtos vegetarianos.

Dos 200 hectares plantados, estão em produção cerca de 70, pertencentes a metade dos sócios, que fornecem à Chocaguán entre três e 200 quilos semanais do grão. Sete empregados temporários, dos quais três ou quatro são mulheres, cuidam de processar o chocolate. Agora a empresa pretende mudar parte do processamento para Cartagena del Chairá, o que economizará custos, reduzirá os riscos do transporte do produto por rio em zona de guerra e facilitará a projeção comercial. A cada semestre, a Chocaguán promove “dias de campo” para atualização de técnicas ambientalmente amigáveis. “Pelo menos 70% dos associados aplicam os conhecimentos adquiridos”, disse Velaidez.

Os diretores da Chocaguán atribuem a sobrevivência da empresa ao fato de pertencer a quatro redes nacionais de produção alternativa e de resistência à guerra, apoiadas na cooperação de Suíça e Holanda, entre outros. Na Chocaguán, “não somos extirpadores da coca. Somos promotores da substituição gradual e voluntária dos cultivos de uso ilícito. As pessoas nunca foram forçadas a nada. E assim é até hoje”, disse Velaidez. O próprio Montes tem apenas um hectare de cacau. “É pouco. O mínimo para garantir uma rentabilidade é três hectares por família. É por falta de dinheiro, porque terreno eu tenho. E esse hectare semeei por conta e risco pessoal”, contou. A guerra gera incerteza. “Se eu planto, tenho de gastar três milhões de pesos (US$ 1.350) para semear, mas eles chegam e fumigam. Não há garantia de que não fumigarão o cacau”, acrescentou.

Em Remolinos houve fumigações com glifosato em 1996, 1999, 2002 e 2005. A última foi a mais doída para os cacaueiros, porque aconteceu depois de a experiência receber o prestigiado Prêmio Nacional de Paz 2004, concedido ao trabalho de resistência civil, baseado na segurança e na soberania alimentar em momentos de uma maciça ofensiva militar. “Caquetá foi uma das regiões de principal enfoque da ajuda militar antidrogas dos Estados Unidos”, disse ao Terramérica Adam Isacson, considerado o principal especialista no Plano Colômbia e diretor do Latin American Security Programa, do norte-americano Center for International Policy.

Desde 2004, foram deslocados para Caquetá 17 mil soldados, mas não há informação sobre a proporção de recursos militares e de inteligência do Plano Colômbia destinados ao departamento. Em um cálculo pessoal, “muito conservador”, Isacson disse que “o apoio norte-americano a operações em Caquetá soma, no mínimo, US$ 5 milhões por ano, ou US$ 50 milhões desde 2000”. “Poderiam ter usado esses recursos em obras para a região, como melhorias da habitação, programas de saúde e educação – que é um problema –, e em vias de acesso”, lamentou Montes. Em 1995, as comunidades organizadas elaboraram uma proposta de substituição completa da coca em Remolinos, que somava pouco mais de US$ 19 milhões, no câmbio da época.

Perseguição

A região de Remolinos de Caguán e seus habitantes ficaram estigmatizados desde que ali aconteceram decepcionantes diálogos de paz entre o governo e as Farc (1998-2002). Com as Farc houve “momentos de tensão” e “atritos”, disseram membros da empresa camponesa. “A chave é ficar à margem, com argumentos”, acrescentaram. Mas os associados da Chocaguán não escaparam das perseguições e da prisão. Inclusive Franzoi foi acusado de ter entregue US$ 68.300 às Farc e de ter guardado armas da guerrilha em sua paróquia. Porém, em junho de 2008, a promotoria o desvinculou da investigação, e pouco depois o sacerdote voltou à Itália. “Se não se respeita o padre, ao menos vamos respeitar a pessoa”, disse Montes.

O sacerdote italiano, hoje com 66 anos, em 2005, guiou pacientemente esta repórter pelo jardim de cacau, a dois quilômetros do povoado, semeado com diversas espécies para obter sementes e preservar tipos genéticos, que testemunham a busca de alternativas para esta parte da Amazônia. “Não importa quem planta nem quem rega, Deus é quem faz crescer”, dizia na época uma placa de madeira na entrada do jardim. Em 2007, foi substituído por outro, onde se lê: “Chocaguán, uma opção de vida para uma economia solidária”.

* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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