Nações Unidas, 19/06/2009 – Perguntado quem representaria seu país na cúpula da Organização das Nações Unidas que na próxima semana examinará a crise financeira mundial, um diplomata ocidental respondeu: “Enviaremos nossos tomadores de notas”, no jargão diplomático, o termo “tomadores de notas” se refere aos funcionários encarregados de registrar por escrito o que se diz em uma reunião, os quais carecem de qualquer autoridade para intervir ou tomar decisões. A decisão de realizar uma cúpula da ONU sobre a recessão mundial correspondeu à unanimidade dos 192 países que a integram, representados na conferência sobre financiamento para o desenvolvimento, realizada em novembro na cidade de Doha. A intenção era que a reunião entre os dias 24 e 26 no âmbito da Assembléia Geral das Nações Unidas participassem chefes de Estado e de governo. Mas as nações ocidentais, ao que parece, voltaram atrás na decisão que elas mesmas haviam tomado na capital do Qatar.
“Os Estados ocidentais tentam enfraquecer a reunião enviando representantes de baixo escalão”, disse à IPS um diplomata asiático que pediu para não ter o nome revelado. “A razão é obvia. O Ocidente sente que a Assembléia Geral não é o fórum adequado para discutir a crise financeira mundial. Pensa que a crise pertence ao Banco Mundial e, o que é mais importante, ao Fundo Monetário Internacional”, acrescentou. Perguntado se havia algum chefe de Estado ou de governo do Ocidente com participação prevista na cúpula, Enrique Yeves, porta-voz do presidente da Assembléia Geral, Miguel D’Escoto, respondeu à IPS que não há nenhum.
“Porém, cerca de 30 chefes de Estado e de governo, principalmente de nações em desenvolvimento, estarão presentes”, acrescentou. “Teremos uma forte presença da América Latina e especialmente do Caribe. Também me disseram que teremos boa participação da África e da Ásia”, disse Yeves. “Mas, como já disseram em público, os países industriais, principalmente os europeus e os Estados Unidos, disseram que não poderão estar representados ao nível de chefes de Estado, mas por ministros”, acrescentou.
A reunião da próxima semana estava originalmente programada para os dias 1, 2 e 3 deste mês. Mas os delegados queriam mais tempo para negociar o documento final do encontro. O processo de negociação desse texto foi muito lento, e espera-se que continue até a véspera do encontro. Após consultas com vários grupos regionais, D’Escoto, organizador da reunião, decidiu adiá-la. Enquanto isso, vários artigos publicados em grandes meios de comunicação citaram diplomatas ocidentais declarando-se muito descontentes com a agenda de esquerda de D’Escoto, ex-chanceler do governo sandinista (esquerdista) da Nicarágua.
Consultado a respeito, Yeves respondeu que considera estranho nos últimos dois ou três artigos é que se continua “ouvindo estas fontes anônimas citarem diplomatas de países industrializados dizendo, basicamente, que a reunião não é uma boa idéia, que será um fracasso ou que nada se conseguirá com ela. Gostaria de fazer dois comentários. O primeiro é que é muito difícil discutir com fontes anônimas porque não sabemos quem disse o quê e em qual contexto”, enfatizou Yeves. “Mas, o presidente da Assembléia Geral fala por si próprio, ou eu falo por mim mesmo, oficialmente todo o tempo, e somos muito claros”, continuou. “O segundo comentário é sobre substância. As críticas são estranhas, porque a cúpula e todo o processo que leva a ela foram aprovados por consenso pelos 192 Estados-membros”, acrescentou o porta-voz. IPS/Envolverde

