Washington, 24/06/2009 – Para o Sul em desenvolvimento, as previsões não poderiam ser piores: a fome e a pobreza crescem, o financiamento tem queda livre e os mercados de capitais, os doadores e os organismos oficiais de crédito sofrem uma grave crise, segundo o Banco Mundial. “Quase dois anos depois de o mercado hipotecário dos Estados Unidos precipitar a maior crise financeira desde a Grande Depressão, segue a instabilidade nos mercados financeiros mundiais, e as perspectivas de que o capital flua aos países em desenvolvimento são difusas”, disse a instituição em seu mais recente informe.
Prevê-se que “a queda no fluxo de capitais privados para o mundo em desenvolvimento marque um recorde”, bem como a primeira contração econômica em nível planetário desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), afirmou o Banco Mundial no estudo “Fluxos mundiais de financiamento para o desenvolvimento 2009: a derrota da recuperação mundial”. O documento, divulgado esta semana, reforça a preocupação de que desfazer os danos causados pela crise demore anos. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas parecem cada vez mais uma espécie de fantasma, enquanto tudo indica que se aproxima outra “década perdida” e de miséria profunda.
Esses objetivos, definidos em 200 pela Assembléia Geral da ONU, incluem reduzir pela metade a proporção de pobres e famintos com relação a 1990, garantir a educação primária universal e promover a igualdade de gênero. Entre essas metas, que devem ser cumpridas até 2015, também figuram reduzir a mortalidade infantil e a materna; combater a aids, a malaria e outras doenças, e assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento.
O Banco Mundial e várias agências da ONU alertam que até o fim deste ano a crise mundial arrastará mais de 200 milhões de pessoas para abaixo da linha de pobreza, isto é, que sua renda cairá para menos de dois dólares diários. As campanhas para melhorar a alimentação dos mais necessitados foram paralisadas há anos, mas a crise atual acelera a propagação da fome crônica, que este ano afetará 1,2 bilhão de pessoas, quantidade sem precedentes. Os países pobres estavam submetidos a uma intensa pressão mesmo antes da crise financeira, e agora enfrentam “perspectivas econômicas cada vez piores se até 2010 não se reverter a drástica deterioração em sua renda a titulo de exportações, remessas de emigrantes e investimentos estrangeiros diretos”, disse o Banco Mundial .
A instituição prevê uma contração da economia mundial da ordem de 2,9% este ano, bem como aumentos de “um modesto 2% em 2010 e de 3,2% em 2011”, enquanto a consolidação do setor bancário, a perda de riqueza e a aversão dos investidores ao risco continuam enfraquecendo a demanda global. E como demorar para as recuperações se fazerem sentir na população, o desemprego continuará alto nos países ricos e nos pobres com elevada dependência do comércio com as economias avançadas. “As condições semelhantes à recessão continuarão prevalecendo”, diz o Banco Mundial .
As economias em desenvolvimento cresceram 8,1% em 2007, mas o ritmo cairá para 1,2% este ano, graças aos resultados da China e Índia. O produto do restante do Sul cairá para 1,6%, causando uma “contínua perda de postos de trabalho e jogando mais pessoas na pobreza”, acrescenta o informe. Mesmo somando China e Índia, a recuperação somente permitirá que o crescimento chegue a apenas metade dos índices anteriores à crise. O desconcerto aumenta pelas dúvidas que persistem sobre a solidez dos bancos do Norte rico, e pela crescente preocupação quanto ao endividamento dos governos em sua tentativa de estimular a economia. Projeções atualizadas mostram que o endividamento duplicará em alguns desses países.
O déficit se financiará com impostos ou novos bônus. As consequências incluirão maiores juros, o que elevará o custo do capital para todos os prestamistas, entre eles empresas do mundo em desenvolvimento. “A necessidade de reestruturar o sistema bancário, combinada com o surgimento de limites às políticas de expansão em países de alta renda, impedirá que uma recuperação mundial ganhe força”, disse o economista-chefe do Banco Mundial , Justin Lin. A instituição prevê que este ano o fluxo privado de capital para países em desenvolvimento cairá para US$ 363 bilhões, cerca de um quarto do recorde alcançado em 2007 (US$ 1,2 trilhões) e apenas a metade dos US$ 707 bilhões recebidos em 2008.
Considerados como uma proporção da produção das nações em desenvolvimento, estes fluxos de capitais privados e investimentos em valores caíram, de 8,6% em 2007 para apenas pouco mais de 2% este ano. Esta redução é maior do que a observada durante a crise da dívida latino-americana do inicio da década de 80, e que do que a combinação das crises da Ásia oriental e Rússia no final dos anos 90. e desta vez afetou todas as regiões em desenvolvimento. Mas “a perspectiva de que os países doadores aumentem significativamente a assistência é sombria”, alerta o informe.
O estudo atribui suas previsões à intensa pressão fiscal que os doadores enfrentam devido à própria crise, mas em outras regiões o Banco Mundial observa que poucos doadores mantêm sua palavra em matéria de assistência, inclusive nos bons tempos. A União Européia prometeu 0,56% das rendas nacionais em ajuda para 2010, mas embora não o faça o valor financeiro real deste compromisso se reduzirá, pois suas economias nacionais perdem vitalidade. Apesar dos compromissos, o Fundo Monetário Internacional espera que os doadores reduzam cerca de um terço sua contribuição para este ano.
O FMI vigia de perto os países que poderiam ficar em bancarrota. Já lançou pacotes de regate para Bielorússia, Geórgia, Hungria, Islândia, Letônia, Paquistão, Romênia, Servia e Ucrânia, destinados a pagar suas contas e ajudar as reservas em divisas. Os principais governos de países ricos e emergentes concordaram em impulsionar a capacidade de empréstimo do FMI e dos bancos multilaterais de desenvolvimento. Na semana passada, o Congresso dos Estados Unidos aprovou um pacote financeiro adicional para que o FMI faça empréstimos de emergência.
O informe do Banco Mundial admite que a maioria dos empréstimos derivados da crise estendidos pela própria instituição, pelo FMI e por outros organismos de crédito apenas ajudarão o mercado emergente e as nações de renda média. “Pouco desse financiamento pode ser colocado à disposição dos países de baixa renda, que tem limitada capacidade para pedir empréstimos”, diz o Banco Mundial . Em outras palavras, se oferecerá empréstimos baratos a quem pode pagá-los, não necessariamente a quem mais precisa deles. IPS/Envolverde

