Rio de Janeiro, 01/07/2009 – Eles querem um computador tenha sua própria cara, e para isso não vacilam em desmontá-lo e remontá-lo. Os “casemods” (o que modifica caixas, em inglês) se autodefinem como os artistas dos novos tempos guiados pela obsessão de não se parecer com nada e, portanto, com ninguém. Agathyrno Neto, um dos “casemods” pioneiros do Brasil, disse que para ser um é preciso ter um pouco de “projetista, engenheiro e cientista louco”. Os “casemods” sentem-se tristes diante de um pacote que chega da loja com um computador igual aos demais. Desparafusar, serrar e soldar à mão, assim começa a retirar e colocar novas peças, trocá-las de lugar e deixar a máquina original irreconhecível.
Neto explicou à IPS que os “casemods” são vítimas de irrefreável necessidade de mudar tudo. Caixa, teclado e monitor não resistem ao prazer de arrancar peças, fios coloridos e materiais recicláveis. “Desmontam o gabinete, acabam com ele e fazem tudo de novo, mas à maneira que lhes agrada, para que o computador fique com sua própria cara, sua própria maneira de ser”, explica o artista e analista de sistemas. Neto, conhecido nas comunidades da Internet com o “AGS Neto”, é um dos casemods brasileiros de maior reputação no meio.
Ganhador de concursos internacionais e profissionais na sua área, pois é chamado e pago para modificar os computadores de outros, diz que os primeiros casemods surgiram como em toda arte, da casualidade e da necessidade. Primeiro, o motivo foi algo tão comum e necessário como criar alternativas técnicas para evitar o aquecimento excessivo dos computadores. Começaram fazendo furos o gabinete para melhorar a ventilação, colocando mais ventiladores para baixar a temperatura. Depois veio a estética”, que surge do sentimento inicial de cansaço diante da uniformidade da informática, disse Neto.
Está descontente com a cor habitual das lâmpadas acende-apaga de seu computador? Pois as substitua por outras de várias tonalidades. O computador é cinza e quadrado? Pois pinte, deforme, revista, acrescente cabelos feitos com tubos e cordões. As técnicas são tão variadas quanto os estilos. Alguns usam pintura fosforescente para diferenciar as peças, instalam acrílicos laterais e luzes especiais para visualizar os componentes internos, pintam o metal com spray com na melhor arte do grafite de rua.
AGS Neto já usou em suas obras desde tubos de PVC e canos de esgoto até peças de motocicleta. E do computador nada se salva. As modificações incluem gabinetes, mas também monitor, teclado e outras peças. Na falta de lojas especializadas, como existem nos Estados Unidos e na Europa, os casemoders do Brasil têm de apelar para a improvisação, segundo o artista. Comprando desde lâmpadas de néon e cabos coloridos até peças de casas especializadas em bonecas, com um computador que está transformando aura sua filha, em tons rosa.
“Improvisamos muito no Brasil. Pegamos uma peça simples e a transformamos. Outras vezes compramos as peças em lojas virtuais. Mas, existem acessórios comuns como ventiladores, lâmpadas de néon e cabos coloridos”, conta Neto. As adaptações vão desde mudanças parciais como iluminar ou pintar uma peça até transformá-la em outro objeto com a mesma funcionalidade, mas de aparência diferente, como um automóvel, uma floresta de peças ou um monstro cibernético. “Ninguém que pratica casemod suporta ter um computador igual ao que vem de fabrica. Não quer que exista outro igual no mundo”, explica Neto e outros artistas acometidos pela mesma “obsessão”.
Arte, mas também funcionalidade, e para isso os casemods têm de apelar para sua “parte prática como engenheiros”. Segundo Neto, não tem nenhum sentido “uma modificação não trazer uma melhoria – por exemplo, refrigerar o gabinete – além de uma mudança estética”, ou se esta é tão exagerada que o computador deixa de cumprir sua função original. Às vezes a máquina deixa de ser um computador, e isso não vale, explica Neto. O artista, que chegou viver de sua arte, diz que para ser um casemod é fundamental ter sido uma criança do tipo “desmonta tudo”. Esses que desde a mais tenra infância não se conformam com a idéia de o brinquedo vir pronto e se dedicam a desmontá-lo até a última peça, para conhecer todos seus segredos.
Mas, para os aprendizes recomenda-se iniciar com um computador que não sirva mais. Além de criatividade e “coragem” para por a mão, ou melhor, a serra, em uma maquina tão cara, Neto diz que tão, ou mais, importante é aprender a usar os instrumentos. Para isso sugere contar com ferramentas básicas como uma serra, mas também outras para cortar com precisão, máscara de proteção para os olhos e luvas. “Quando julgar que já está prático, então pode trabalhar com computadores novos”, recomenda aos novatos, baseando-se em sua própria experiência.
No Brasil há várias comunidades na Internet, como a Casemod Rio de Janeiro, criada pelo também casemod e analista de sistemas Andre Toso, que dá orientações sobre onde comprar peças, concursos e encontros nacionais desta nova “tribo” da informática e do mundo da arte. IPS/Envolverde

