Rio de Janeiro, 07/07/2009 – A recessão afastou as mulheres do mercado de trabalho no Brasil, o que é considerado uma interrupção do processo de feminização do âmbito trabalhista nas cidades, segundo um estudo governamental que aborda os impactos da bancarrota financeira global desde a perspectiva de gênero. O informe intitulado “A crise econômica internacional e os (possíveis) impactos sobre a vida das mulheres” foi elaborado pela Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Tomado como base de análise o período compreendido entre setembro e abril em seis regiões, o nível de ocupação feminina caiu 3,1%, contra 1,6% dos homens, dando lugar ao aumento da “inatividade feminina”. Em entrevista à IPS, Luana Simões, coordenadora do estudo e gerente de projetos da SPM, explicou que se contemplou um “período curto conjuntural”. A especialista disse que as mulheres que perderam seus empregos nesse período não necessariamente buscaram outro, ao contrário dos homens que foram demitidos.
A IPS perguntou a Luana o motivo desse comportamento, à simples vista incomum, pois tradicionalmente as crises econômicas “tiram as mulheres de suas casas para irem em busca de trabalho para ajudar no sustento familiar”. A coordenadora explicou que sua equipe está elaborando as hipóteses a respeito. Entre outras mencionou o “desânimo” das mulheres diante da perspectiva de “novamente precisar bater nas portas das empresas para conseguir trabalho”, sendo que “historicamente para elas é mais difícil de encontrá-lo”.
Luana, economista especializada em sociologia, também apontou como provável causa a perda da fonte de renda porque os pequenos empreendimentos que sustentavam as famílias não sobreviveram à atual crise. É o caso de muitos trabalhadores informais do Brasil que, por exemplo, têm um posto ambulante de venda de alimentos ou montaram uma loja em casa, entre outras “empresas familiares” informais. Diante da perda dessa fonte, “o marido sai para trabalhar, na base do velho conceito ainda arraigado culturalmente de que o homem deve sustentar o lar”, enquanto a mulher decide ficar m casa cuidando das tarefas domésticas, disse.
Nessa mesma direção, Luana considerou que, com a crise, a família não tem mais condições de manter empregada doméstica e, no que é um circulo vicioso derivado dessa situação, muitas mulheres que vivem desse tipo de trabalho também perdem sua fonte de renda. É importante esclarecer que aquilo que os especialistas chamam de “desfeminização do mercado de trabalho”, de maneira geral, ocorre tanto em nível informal como no caso de carteira profissional assinada.
Já no âmbito trabalhista estritamente formal, a crise teve um efeito inverso: “se masculinizou o desemprego”. Em termos quantitativos, esta situação se expressou com um maior aumento proporcional das taxas de desocupação dos homens, que chegou a 24,1% contra 11,2% das mulheres. Luana atribui essa tendência ao fato de a crise ter apresentado impactos mais fortes na indústria e na construção, duas áreas “que são mais masculinas” em termos de pessoal.
Embora “por trás dessa suposta feminização” do mercado de trabalho formal possa existir também uma nova estratégia do empregado, segundo Luana, como a de substituir homens por mulheres, que tradicionalmente ganham menos, mesmo com o mesmo nível de escolaridade. “Se os homens e as mulheres têm posições diferentes no mercado de trabalho era de esperar que o impacto da crise também fosse diferenciado”, disse Laís Abramo, diretora do escritório da OIT no Brasil. Para ela, é “fundamental fazer uma análise cuidadosa desses impactos para pensar até que ponto as políticas de enfrentamento da crise econômica mundial devem incorporar elementos que respondam a essa situação”.
O estudo traz outras surpresas. Por exemplo, a substituição da mão-de-obra masculina pela feminina na construção civil, onde se registra crescimento de 2,96% de mulheres empregadas contra a redução de 3,54% de homens. Luana tem uma interpretação preliminar desses dados. Explica que, embora ainda seja um setor que “não representa muito” em termos numéricos para as mulheres empregadas, o processo de feminização da construção civil já havia começado antes da crise. Nesse sentido mencionou a existência de muitos planos governamentais, inclusive dentro da SPM, e no contexto da iniciativa privada, para capacitação de mulheres na construção civil.
“O empregador prefere mulheres por causa dessa idéia de que elas são mais cuidadosas”, disse Luana. De fato, na construção civil as mulheres não exercem, em geral, tarefas de peso, “como carregar sacos de cimento ou tijolos”, pois são mais de detalhes, ou “finalização”. Segundo a SPM, nos cursos de capacitação de operarias “se percebe também que as mulheres desperdiçam menos material de construção do que os homens”, o que reduz o custo do empregado. Nos cursos comprovou-se que as mulheres conseguiram emprego rapidamente. Feminização do mercado de trabalho pelas vantagens econômicas do empregador? Uma pergunta que ainda não tem respostas claras e que terá de ser objeto de outros estudos. IPS/Envolverde

