ECONOMÍA-AMÉRICA LATINA: Sequelas que perduram

Santiago, 16/07/2009 – Após seis anos de crescimento contínuo, o produto interno bruto da América Latina e do Caribe diminuirá 1,9% este ano, elevando a taxa de desemprego de 7,4% para 9%, afirmou ontem a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe em sua sede na capital chilena. A crise “deixará seqüelas”, disse a secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, na apresentação do Estudo Econômico da América Latina e do Caribe, um dos informes mais importantes que esta agência das Nações Unidas pública. Embora haja indícios de recuperação econômica, esta será muito lenta e não podem ser descartar novos episódios de instabilidade, disse Bárcena.

A Cepal espera que cerca de três milhões de pessoas fiquem sem trabalho este ano e que aumente a informalidade, colocando em risco o cumprimento do primeiro Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, sobre reduzir à metade a porcentagem de indigência em relação a 1990, até 2015. Como os motores do crescimento da região se apagaram, os países estão funcionando com mecanismos de “emergência”, disse a representante da Cepal, numa referência aos milionários planos fiscais implementados para enfrentar a crise, através do aumento gasto ou na redução de impostos.

Segundo Bárcena, há sinais positivos que permitem projetar uma expansão do PIB de 3,1% até 2010, entre elas a reativação nas cotações das bolsas, melhora da situação do sistema financeiro, aumento dos preços dos produtos básicos e expectativas mais positivas de empresas e consumidores. Mas esta porcentagem de crescimento é insuficiente para melhorar os indicadores sociais da região, ressaltou. O comércio, as remessas, o turismo e o investimento estrangeiro direto foram os setores mais golpeados na América Latina e no Caribe pela crise econômica global.

No primeiro semestre deste ano as exportações de bens da região caíram 7% em volume e 30% em valor devido à redução da demanda externa. As remessas de trabalhadores emigrantes, por sua vez, diminuíram entre 5% e 10% entre o quarto trimestre de 208 e o primeiro deste ano, e espera-se que os fluxos de investimento estrangeiro caiam 40%. A Cepal também prevê um déficit na conta corrente equivalente a 2,3% do PIB, enquanto em 2008 foi de apenas 0,6%. Por sua vez, os termos de intercâmbio cairão 10,8% este ano, em comparação ao aumento de 3% registrado em 2008.

O país mais afetado da região é o México, cujo PIB diminuiria 7% este ano, segundo a Cepal. Em 2007 esta nação cresceu 3,3% e em 2008 1,3%. Em seguida estão Costa Rica e Paraguai, com queda projetada de 3% do PIB, e Honduras, que veria sua economia baixar 2,5%. Além disso, a Cepal estima que os PIBs de Chile, Guatemala e Nicarágua terão uma variação negativa de 1% e o do Brasil de 0.8%. para os demais países a previsão é de cifras positivas. O PIB da Venezuela crescerá 0,3% e o da Colômbia 0,6%, enquanto os de Cuba, Equador, República Dominicana e Uruguai crescerão 1%.

Os melhores desempenhos serão para Argentina, com crescimento do PIB de 1,5%, Haiti e Peru, com 2%, e Panamá e Bolívia, com 2,5% cada um. “Os países que podem ter maior eficácia na aplicação de seus programas estímulo são Brasil, Chile e México”, disse Bárcena à IPS. Na apresentação do informe, a representante da Cepal exortou os organismos financeiros internacionais a fornecerem recursos para custear políticas contracíclicas em condições adequadas de prazo e custo, especialmente para as nações mais vulneráveis. “O Fundo Monetário Internacional está fazendo mudanças de política muito importantes para uma região como a nossa. Vemos com grande otimismo o fato de estar havendo um reforço com fundos, mas nos preocupa que a atenção do FMI se volte mais para a Europa do leste e menos para a América Latina”, disse Bárcena à IPS.

“Cremos também que é importante considerar as enormes necessidades que têm, por exemplo, os países do Caribe e da América do Norte. Nem tanto para que aumentem seus níveis de endividamento, que já são muito altos, mas para considerar outras formas de apoio, por exemplo, ajuda oficial ao desenvolvimento, inclusive ajudas concecionárias”, acrescentou. A seu ver, o mais urgente no plano regional “é a recapitalização do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) porque é o banco que temos mais à mão e, como vimos aqui, o problema central da América Latina em seu conjunto não será referente ao FMI, mas vai exigir mais do banco de desenvolvimento.

“O processo (de recapitalização do BID) vai bem, mas, um pouco lento. eles acabam de se reunir em Santiago e há notícias positivas de que pode se concretizar no final deste ano, porém, nossos países precisam de financiamento já”, ressaltou Bárcena. Finalmente,a secretária-executiva da Cepal expôs as incertezas que permanecem sobre a crise, perguntando-se, por exemplo, se haverá uma nova arquitetura financeira internacional ou apenas “mudanças cosméticas”. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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