AMBIENTE-CHILE: Privatização do mar?

Santiago, 24/07/2009 – Organizações ambientalistas e sociais do Chile rechaçam os planos de regulamentar por lei a questionada indústria do salmão, pois consideram que um artigo do projeto privatiza o mar costeiro. O governo responde que a iniciativa pretende precisamente o contrário. O projeto que modifica a lei de pesca em matéria de aquicultura “constitui um retrocesso brutal do ponto de vista da soberania nacional, da conservação dos recursos naturais e dos direitos das comunidades costeiras, da pesca artesanal e dos cidadãos”, disse à IPS Juan Carlos Cárdenas, secretário-executivo do não-governamental Centro Ecoceanos.

A controvertida iniciativa foi enviada ao parlamento em janeiro pelo governo de Michelle Bachelet produto da crise sanitária e econômica que vive desde 2007 o setor devido à propagação da anemia infecciosa do salmão, doença dos peixes conhecida como “virs Isa”. O Chile é o segundo produtor de salmão cultivado do mundo, atrás da Noruega. Este país exportaou em 2007 mais de US$ 2 bilhões desde os centros de cultivo, a maioria nas regiões de Los Lagos, Aysén e Magallanes, mais de mil quilômetros ao sul de Santiago.

O projeto já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e na segunda-feira vence o prazo para os senadores apresentarem emendas. Se o Senado modificar substancialmente o projeto, deverá passar a uma comissão mista das duas casas. Para pressionar os legisladores, um grupo de organizações não-governamentais, entre elas Ecocéanos, Centro de Conservação Cetácea e Observatório Latino-americano de Conflitos Ambientais, lançaram na terça-feira uma campanha para evitar a aprovação do projeto. Os ativistas questionam principalmente dois artigos, que autorizam as empresas a hipotecar suas concessões a bancos credores para renegociar suas altas dívidas.

As organizações enviaram na quarta-feira uma carta à presidente Bachelet pedindo que retire o projeto, atividade que teve apoio dos senadores Guido Girardi, do cogovernante Partido Pela Democracia, e Alejandro Navarro, candidato presidencial do partido Movimento Amplo Social e ex-militante do Partido Socialista. À campanha somaram-se instituições com Associação Nacional de Mulheres rurais e Indígenas (Anamuri), Associação de Miticultores de Quellón e Liga Cidadã de Consumidores, disse Cárdenas.

Entre outras coisas, o projeto propõe a definição de áreas apropriadas para a salmonicultura, o fortalecimento da fiscalização, exigência de normas sanitárias e ambientais à indústria e o aumento do custo das patentes pagas para obter as concessões, bem com a incorporação de motivos para caducidade. Segundo Cárdenas, o projeto “é inconstitucional e ilegal porque pretende hipotecar um bem nacional de uso público”. A “adoção dos chamados bairros salmoneiros também viola a Constituição porque estabelece um monopólio do salmão, eliminando a pesca artesanal, a mitilicultura (cultivo dos moluscos conhecidos como choros) e a operação turística”, disse o representante da Ecocéanos.

Mas, o governo afirma que o zoneamento não vai interferir em outras atividades produtivas. Consultado pela IPS, o vice-presidente da república, Edmundo Pérez Yoma, negou ontem, em reunião com correspondentes estrangeiros, que o projeto vá privatizar o mar chileno. “É justamente o contrário”, disse Yoma, que atribuiu a versão à falta de conhecimento. “Em nosso país há muito tempo, pelo menos nos últimos dois anos, o que se discute é a manchete do jornal, não o comentário. Há uma fortíssima falta de rigor no debate”, disse.

Uma alta fonte do Ministério da Economia disse à IPS que o projeto de lei “não é uma privatização domar porque o mar é um bem de uso público e o que o Estado faz é dar em concessão o direito de uso sobre uma porção do mar. Isto é, o Estado nunca deixa de ser dono. As empresas sempre hipotecaram o direito de uso nos bancos. O que agora se está fazendo é tornar isso transparente e mais efetivo”; com o projeto se passa de “uma regulamentação quase inexistente à introdução de numerosas faculdades que antes o Estado não tinha. O que se está fazendo é estatizar o mar, mais do que privatizá-lo”, ressaltou o funcionário.

Mas o senador Carlos Ominami, que renunciou há poucas semanas ao cogovernante Partido Scoialista, votou contra a idéia de legislar precisamente pelas consequências que pode ter o fato de constituir hipoteca sobre um bem de uso público com são as águas costeias. Por exemplo, a especulação financeira. No Senado também se debate a possibilidade de estabelecer limites às concessões, de 20 ou 30 anos, pois hoje são indefinidas, outro aspecto questionado pelos ativistas.

“Pedimos que se retire o projeto e que haja um processo de discussão real entre todos os atores envolvidos, não apenas a associação de bancos, indústria e governo. Aqui tem de entrar as comunidades costeiras, os pescadores artesanais, os operadores de turismo e os cidadãos”, disse Cárdenas. “Queremos que se discuta sobre quais opções de desenvolvimento queremos para Chiloé, Aysén e Magallanes que não seja continuar insistindo em uma indústria altamente contaminante e com maior concentração econômica do que antes, basicamente em poder de empresas e bancos estrangeiros”, argumentou.

Segundo os registros da Ecocéanos, nos últimos 60 meses morreram 64 trabalhadores dessa indústria e cerca de 17 mil perderam seus empregos desde que começou a crise. “Pedimos a aprovação do projeto sem os artigos 81 e 81ª e a resposta foi não, esse é o artigo central”, disse Cárdenas, convencido de que “as regulamentações ambientais e sanitárias foram colocadas como uma espécie de recheio para permitir a privatização da faixa costeira e dos canais interiores”. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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