PeR : A realidade chegou: É preciso ouvir as vozes das mulheres

KIGALI, 19/08/2009 – Cinquenta e seis por cento dos deputados do Ruanda são mulheres, o que demonstra o papel activo que as mulheres têm desempenhado na reconstrução do país desde o genocídio de 1994. Odette Nyiramilimo, que foi Ministra dos Assuntos Sociais do Ruanda entre 2000 e 2003, e senadora entre 2003 e 2008, atribui a forte presença das mulheres ruandesas no Governo à existência de um meio ambiente que apoia a discriminação positiva no Ruanda.

Acredita que a Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres em Beijing, em 1995, exerceu uma influência crucial sobre as mulheres ruandesas, juntamente com o firme compromisso do Presidente Paul Kagame, que tornou claro que os direitos das mulheres são também direitos humanos e que o desenvolvimento não seria possível se se deixasse para trás 52 por cento da população.

Segue-se um resumo da entrevista:

IPS: Muitos países fazem discursos e leis e apresentam quotas visando aumentar a participação das mulheres no governo, mas continuam a falhar na implementação. O que é que motivou e sustentou os esforços do Ruanda para atingir a paridade do género na legislatura?

Odette Nyiramilimo: Posso dizer que é a sede de desenvolvimento. Se mais de metade da população ficar para trás, estou convencida que haveria fracasso.

Outra razão é que, depois do genocídio, as mulheres desempenharam um grande papel na reconstrução do país. As mulheres trabalharam diligentemente e tomaram conta dos orfãos, uniram as comunidades, o que levou toda a gente a verificar que eram um elemento-chave. Depois disso, apercebemo-nos que era preciso ouvir as vozes das mulheres.

IPS: Quais são alguns dos principais desafios que a senhora encontrou no seu percurso e como é que os ultrapassou?

ON: Para que as mulheres participem plenamente em posições políticas, o maior desafio são as próprias mulheres. Elas não foram treinadas para serem políticas, nem sequer para serem líderes em qualquer esfera, o que ficou muito claro durante os periodos eleitorais. Não se via uma única mulher a cadidatar-se a qualquer posição. Mas hoje as mulheres chegaram à conclusão que têm de fazer parte do processo de desenvolvimento.

O outro desafio são os homens. Eles não compreendem que uma mulher pode ser uma líder. Pensam que as mulheres estariam melhor se ficassem em casa a cuidar das famílias ou a fazer trabalho social como enfermeiras ou professoras … mas hoje em dia já percebem, porque já viram o que as mulheres conseguem fazer. Já conheceram a liderança das mulheres.

O outro desafio são as barreiras sociais, especialmente quando as mulheres sentem que têm de deixar os homens liderar. Uma mulher que é o centro da família tem um tempo limitado para estar no escritório, para procurar informação lendo jornais ou ouvindo as notícias. Tem outras responsabilidades, como tomar conta dos filhos e do marido.

Mas tem havido algumas mudanças na atitude dos homens, que agora compreendem que também eles precisam de ser pró-activos no que diz respeito a tomar conta das suas famílias, por comparação ao que se passava há alguns anos.

Diria que o desafio que as mulheres enfrentam hoje é equilibrar as suas carreiras e famílias; o ser líder – especialmente como mulheres – tem de começar em casa. Não podemos abandonar os nossos deveres como mulheres e mães e, por isso, precisamos de aprender a delicada arte do equilíbrio. Na maior parte dos casos, o fracasso em casa pode ser interpretado como fraqueza ou liderança incapaz.

Já é altura dos homens deixarem de ver as mulheres como rivais para as verem como parceiras. Como mulheres, ainda sentimos a hostilidade de alguns colegas masculinos. Alguns começaram a sentir-se ameaçados devido ao elevado número de mulheres no parlamento e começaram a exigir a mudança da legislação, afirmando que as mulheres não devem receber tratamento especial nas próximas eleições.

Mas estamos a lutar pela mesma causa: o desenvolvimento do nosso país. É isso que deviam compreender.

Estes são os maiores desafios. Reconhecemos que ainda não atingimos os nossos objectivos e que ainda há muito a fazer para conseguir igualdade para todos. O nosso objectivo é colocarmos 30 por cento de mulheres em todos os sectores, comércio, educação, saúde, etc.

IPS: Como é que conseguiram o que já alcançaram? Como é que conseguiram encorajar as mulheres e convencer os homens que também as mulheres podem ser líderes?

ON: Primeiro formulando leis que deram mais direitos às mulheres. Em 1999, aprovámos a lei sobre a herança que, pela primeira vez, deu as mulheres o direito de herdar terra das suas famílias. Depois disso, foram promulgadas diversas outras leis que permitiram às mulheres exprimir as suas opiniões.

Em 2003, a nova constituição atribuiu 30 por cento das posições de destaque às mulheres, que acabaram por ficar com 48 por cento dos lugares no parlamento, um esforço que encorajou as mulheres a participarem na política, desde o governo local até às posições mais elevadas.

As associações femininas como o Clube da União, o Grupo das Mulheres Líderes do Ruanda, e o Fórum Parlamentar das Mulheres do Ruanda, também desempenharam um papel importante, ao sensibilizarem as mulheres no sentido de uma maior participação. Os seus membros, as mulheres em posições de liderança, também organizaram conferências destinadas a mulheres e raparigas. Fomos às escolas, falámos nas associações e em encontros públicos, com os orientadores de opiniões, além de diversos outros indivíduos …. Ainda é um processo em evolução.

Um bom exemplo é a iniciativa orientada pela Primeira Dama, denominada Fundação Imbuto, que oferece prémios às raparigas com as melhores notas nas escolas primárias e secundárias. As mulheres em posições de liderança são convidadas por esta organização a encorajarem as raparigas não só a obterem bons resultados nas aulas, mas também fora delas, o que tem um impacto tremendo na mudança de mentalidades.

IPS: Já há algum tempo que a senhora e outras mulheres estão em posições de poder. Que mudanças introduziram no parlamento e no governo e como que é que essas mudanças se traduziram em melhorias gerais para as mulheres ruandesas?

ON: Em primeiro lugar, a mudança da mentalidade segundo a qual as mulheres devem sempre desempenhar um papel secundário. A cultura ruandesa – assim como a cultura africana – geralmente coloca a mulher em segundo lugar, depois do homem.

Isto agora mudou. As mulheres agora têm confiança própria e acreditam que podem ser políticas, mulheres de negócios e cientistas. Um número significativo de mulheres está a fazer um bom trabalho, influenciando o resto da população.

Hoje é mais fácil às mulheres terem acesso a empréstimos bancários – o que não era possível há alguns anos. Na minha experiência pessoal, não consegui obter um empréstimo bancário simplesmente por ser mulher!

O número de raparigas e mulheres em instituições de ensino terciário aumentou. Em particular, o número das que estudam ciências e tecnologia aumentou substancialmente por comparação a anos anteriores.

IPS: A que nível é que diria que as mulheres conseguiram influenciar mais o governo?

ON: Diria a nível nacional, porque é o nível que tem mais potencial em termos de resultados tangíveis. Um bom exemplo é a aprovação de leis cruciais: a lei da herança, a lei contra a violência baseada no género, a importância da inclusão do género no orçamento, para mencionar só algumas.

As mulheres em posições de liderança acreditam que a contínua pressão a favor da igualdade do género é necessária a todos os níveis, particularmente a nível popular, sendo também necessټria a educação dos nossos colegas sobre a importância do envolvimento das mulheres, em pé de igualdade, no processo de desenvolvimento da nossa nação.

Eunice Wanjiru

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