HAVANA, 26/08/2009 – (Tierramérica).- A chegada do El Niño é boa notícia, por enquanto, para os países da região americana alvo dos furacões, como Cuba.

Mulher regressa à sua casa em Pinar del Rio, danificada e inundada devido à passagem do Furacão Ike - Jorge Luis Baños/IPS
Em 1992, um ano com ENOS, houve escassa atividade ciclônica e, entretanto, Andrew, um dos poucos furacões que se formaram nessa temporada, atingiu nível cinco, máximo na escala Saffir-Simpson que mede a velocidade dos ventos, devastando o Estado norte-americano da Flórida. O El Niño, fase quente do ENOS, ocorre quando a temperatura da água superficial do Oceano Pacífico central e equatorial sobe acima da média. No momento trata- se de um El Niño “fraco”, mas deve intensificar-se um pouco mais para o final do ano, disse Rubiera, que se referiu às duas fases deste fenômeno natural recorrente, que se apresenta a cada dois ou cinco anos.
Seu lado de “Niño bom” é que ajuda a neutralizar parcialmente a atividade ciclônica no Atlântico Norte e Mar do Caribe na temporada de furacões do verão boreal, já que aumenta a velocidade do vento nas camadas superiores da atmosfera, entre dez e 12 quilômetros de altura. Um dos fatores para a formação de um ciclone tropical é um padrão de ventos próximo da superfície do oceano que faça fluir o ar em espiral para uma zona central, com correntes fracas na troposfera superior, o que permite o desenvolvimento de extensas áreas de chuvas e tempestades elétricas. “Mas este El Niño também pode fazer diminuir um pouco o regime de chuvas de verão e aumentá-las no inverno boreal”, acrescentou o especialista. Em 2004, este fenômeno de interação oceano-atmosfera ocasionou em Cuba uma das secas mais graves das últimas décadas.
O El Niño aparece quando muda a pressão atmosférica no ocidente do Pacífico equatorial, diante de Nova Guiné e Indonésia, o que causa alterações na direção e força habituais dos Ventos Alísios, que sopram do sudeste para noroeste, e nas correntes marítimas. Quando não há ENOS, os Alísios mantêm enormes massas de água quente nas costas ocidentais do Pacífico. O El Niño empurra lentamente essas massas para leste, na altura da costa peruana, equatoriana e colombiana, alterando o nível do mar e sua temperatura.
Contudo, Rubiera alerta que não há dois eventos ENOS “iguais’. Agora se fala da variante Modoki – que em japonês significa “similar, mas diferente” – na qual o maior superaquecimento ocorre no Pacífico equatorial central e não no oriental. Segundo algumas pesquisas, nesse caso a atividade de furacões seria alta no Atlântico, com maior ação de ciclones em zonas terrestres. “Entretanto, deve-se dizer que estes estudos não são conclusivos e tudo isto é bastante novo, daí que se deve tomar com cautela estas conclusões”, disse o especialista.
Rubiera questionou que o atual El Niño seja a variante Modoki, “pois o maior aquecimento está ocorrendo na porção oriental e não no Pacífico central”, disse. Na sua opinião, essa afirmação é apoiada pelo fato de “haver uma ativa temporada de furacões no Pacífico oriental, em correspondência com o aquecimento que ali está se produzindo, enquanto quase nada ocorre no Pacífico central”.
Cuba ainda se refaz das consequências de três furacões ocorridos em 2008 (Gustav, Ike e Paloma), que causaram danos acima de US$ 10 bilhões, equivalentes a 20% do produto interno bruto, de acordo com o presidente Raúl Castro. Diante deste custo econômico, em meados deste mês a população cubana acompanhou com mais atenção do que nunca as trajetórias de Ana, Bill e Claudette, as primeiras depressões tropicais desta temporada. Em seu caminho para o norte, Bill foi rebaixado para categoria 1, no dia 22 de agosto, pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos, que informou que deixou de ser furacão nesta segunda- feira. Para Rubiera, a mensagem à população de qualquer lugar é que sempre se deve estar “preparado, seja a temporada ativa, normal ou inativa, pois definitivamente ninguém sabe onde ou quando chegará um furacão que ainda não existe nem se desenvolveu”
“Toda previsão de longo prazo tem uma utilidade prática bastante relativa”, disse o especialista, insistindo que “deprimir a atividade não é suprimir”, daí que haverá mais alguns ciclones tropicais, mas não na quantidade dos últimos três anos. A temporada de furacões começa em 1º de junho e termina em 30 de novembro. Em Cuba, os meses de maior atividade costumam ser outubro, setembro e agosto, nesta ordem. O sistema de prevenção de desastres, que inclui a evacuação maciça de milhares de pessoas, reduziu ao mínimo as mortes humanas, mas não as perdas econômicas.
Em seu informe do dia 19 deste mês, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) previu que o El Niño, em uma modalidade “fraca ou moderada’, se prolongará até o final de 2009 e com probabilidade no primeiro trimestre de 2010. “Não há dados sólidos do que ocorrerá após essa data”, quando o El Niño poderia continuar, se reverter para as condições da fase fria do ENOS, conhecida como La Niña, ou retornar à situação neutra do começo deste ano, disse o especialista da OMM, Rupa Kumar Kolli. O ano de 2008 foi dramático para a região do Caribe, pois se formaram 16 tempestades tropicais, das quais oito se converteram em furacões.
* A autora é correspondente da IPS.

