Havana, 26/08/2009 – Com um bom emprego no setor estatal de Cuba, Mariela Sánchez aproveita o horário flexível de seu trabalho para realizar outro em temo parcial e para colaborar com uma publicação especializada.
“Enquanto conservava meu trabalho, que me agrada e me deixa feliz, limpava a casa de uma família estrangeira. Foi a maneira de garantir uma renda em dólares que nos permitisse viver um pouquinho melhor e, sobretudo, alimentar bem a menina”, contou à IPS esta cubana de 45 anos.
Depois os papéis se inverteram. O marido conseguiu um posto bem remunerado em uma empresa de capital estrangeiro. Ela continuou no seu e fazendo um trabalhinho aqui outro ali, até que, como tantas mulheres em Cuba, ficou sozinha para manter um lar que compartilhava com seus avós maternos.
Embora, de alguma maneira, Sánchez esteja há quase 20 anos envolvida em formas informais e alternativas de emprego, não está muito convencida em aderir às novas oportunidades abertas pelo governo com a aprovação no final de junho do Decreto Lei 268 que modifica o Regime Trabalhista.
A medida legalizou o pluriemprego no setor estatal e o trabalho remunerado em tempo parcial dos universitários, duas atividades proibidas até então, com o objetivo de “estimular as forças produtivas, possibilitar um aumento da renda” e enfrentar o envelhecimento da população.
Os quadros dirigentes, o pessoal da saúde, os docentes, os investigadores e os auditores ficaram, no momento, fora da reforma e do pluriemprego.
Mas a mudança não resolve uma contradição básica. O valor real do salário em pesos cubanos continua sendo muito baixo, apesar dos aumentos decretados nos últimos anos. Salvo raras exceções, um segundo contrato estatal não representará a renda em divisas que hoje as famílias necessitam para sobreviver.
Os cubanos gozam de vários subsídios e serviços gratuitos, mas o salário médio não supera os 417 pesos, apenas US$ 17 no câmbio oficial.
“O pluriemprego pode ser uma alternativa, sempre e quando não se pensar que é a varinha mágica que vai salvar ou solucionar os problemas”, disse à IPS um economista pedindo para não ser identificado.
Viver a crise
Estudos do final da década passada previam que Cuba necessitaria muitos anos para recuperar os níveis de vida anteriores à crise econômica desatada pela desintegração da União Soviética e pelo desaparecimento do antigo bloco socialista, principal sócio comercial à época.
Além da queda abrupta da economia, a crise provocou outras mudanças importantes na ilha caribenha de regime socialista: inverteu a pirâmide social, gerou ou acentuou as diferenças entre grupos e classes, estratificou a renda e agravou a vulnerabilidade de populações em condições de desvantagem social.
Vinte anos depois, Mariela Sánchez assegura que sua família “não pôde sair da crise”.
Aproximadamente, 80% da população ocupada se concentram no setor estatal e a taxa de desemprego apenas alcança 1,6%, mas um estudo do Centro de Pesquisas Psicológicas e Sociológicas concluiu, no começo desta década, que um número importante de pessoas busca opções fora do Estado.
Entre as estratégias para aumentar a renda aparecem os trabalhos de jornada parcial, renúncia ao perfil profissional por empregos melhor remunerados, início precoce da vida trabalhista, atividades por conta própria e esforço para conseguir propinas.
Entretanto, as alternativas são desiguais para mulheres e homens. A psicóloga social Mareelén Díaz analisou que enquanto eles “realizam estratégias que requerem execução fora do lar”, elas costumam ficar “portas adentro”.
“As jovens de Havana saem do ambiente doméstico para vender produtos, alguns elaborados por elas mesmas ou outras mulheres, e outros de duvidosa procedência. As da terceira idade optam, mais do que as jovens, pelo trabalho doméstico e são contratadas como empregadas de limpeza no setor estatal”, disse a pesquisadora.
Dados do Escritório Nacional de Estatísticas indicam que cerca de 26% dos que exercem trabalho por conta própria são mulheres. Aquelas que optam por esta via se concentram, justamente, nas atividades menor remuneradas: vendedora em cafeterias, tecelã, costureiras, cabeleireiras ou cozinheiras.
Na ampla gama de “trabalhos pela esquerda” (informais), elas são maioria entre os profissionais que se dedicam a dar as mais diversas aulas a crianças e adolescentes, desde idiomas até aula particular para reforçar seus estudos escolares.
Um estudo comparativo da situação sobre mulher e trabalho em Cuba e Espanha destaca que nesta ilha, ao contrário de outros países da América Latina, “o autoemprego e a informalidade constituem opções mais lucrativas do que o emprego no setor estatal”.
“Entretanto, é neste setor onde participam em menor medida as mulheres, o que contribui para agravar a disparidade salarial entre mulheres e homens”, afirma.
As cubanas continuam ocupando os postos de pior remuneração, segundo os analistas, embora a legislação trabalhista garanta igual salário para igual trabalho a homens e mulheres, e a população feminina representa mais de 66% da força técnica e profissional do país.
Neste contexto, economistas consultados pela IPS consideraram que a aprovação do pluriemprego pode ser uma alternativa viável para que a mulher tenha acesso a maiores rendas, sem necessidade de optar por caminhos perigosos e muitas vezes ilegais.
“Quando se tem uma oportunidade, é uma oportunidade a mais. Será preciso dar um tempo para ver como se comporta a incorporação de mulheres e homens nesta modalidade”, disse à IPS a psicóloga Norma Vasallo, presidente da Cátedra da Mulher da Universidade de avana.
Olhares juvenis
Ao contrário de Sánchez, sua filha Ana preferiu uma escola de ofícios em lugar da universidade e neste verão boreal, pela primeira vez, trabalha como vendedora nos finais de semana em uma feira de artesanato. “Não tem contrato, ajuda uma família amiga e, em troca, recebe o equivalente a US$ 15 por duas jornadas”, explicou a mãe.
A universidade era o desejo majoritário para a geração em torno dos 40 anos, mas a situação é diferente para quem está na faixa dos 20. A crise econômica da década passada estimulou a busca de outros camelôs, incluído o abandono dos estudos aos 15 e 16 anos.
Paralelamente, os centros de educação superior ficam femininos. Entram mais mulheres do que homens e a brecha cresce até representar 63% dos que se formam.
Dados da III Pesquisa Nacional de Juventude, realizada em 2004 pelos governamentais Centro de Estudos sobre a Juventude (CEJ) e Escritório Nacional de Estatísticas, indicavam que 19,3% das pessoas entre 15 e 29 anos não tinham “vínculo formalizado” de estudo ou trabalho com entidades estatais.
Do total, 69,3% eram mulheres e 30,7% homens. “Uma análise histórica do desemprego em Cuba, tanto nos momentos de maior como de menor alcance, nos revela uma notável incidência feminina, juvenil e da região oeste do país”, assegurou a especialista do CEJ Maria Josefa Luis.
A desvinculação juvenil ocorre em um cenário onde as ofertas de emprego não costumam coincidir com as expectativas deste grupo. Há décadas, o setor trabalhista cubano vive um paradoxo: a convivência do desemprego com uma insatisfeita demanda por pessoal em setores produtivos, como construção e agricultura.
Alejadnra Menéndez,de 21 anos, disse à IPS que tem clara a necessidade de compatibilizar sua necessidade de dinheiro com a universidade, mas também que “não estudarei e trabalharei várias horas por um salário em pesos cubanos”.
Por outro lado, para Raque Sierra, do semanário Tribuna de Havana, nos meios de comunicação a reforma tem beneficiários imediatos.
Desde o começo da carreira muitos estudantes de jornalismo trabalham na mídia “e trabalham muito, mas até agora não havia como pagá-los. A aprovação do pluriemprego muda essa realidade”, explicou à IPS. IPS/Envolverde
(Envolverde/IPS)


