ÁGUA-NAMÍBIA: Cortando e construindo esperança

Okombahe, Namíbia, 01/09/2009 – “Nosso ganho agora é de cinco mil dólares namíbios, divididos entre 20 pessoas”, diz Anna Nauses. O silêncio é geral no escritório do projeto de Prosopis enquanto todos fazem os cálculos. Dezesseis meses de trabalho árduo cortando árvores ao longo do rio Omaruru renderam apenas 30 dólares por pessoa. O local está cheio de sacos com cubos de madeira e restos de carvão, restos das milhares de árvores que se alinhavam junto ao rio e dividiam o povoado em dois. As ferramentas de trabalho (capacetes, machados e motosserras) estão por toda sala, deixando apenas uma estreita passagem para o enorme escritório onde não há nada além do livro contábil onde são anotados os ganhos acumulados.

Duas mulheres da comunidade folheiam o livro e destacam os números com um lápis. Dois homens, um jovem e outro idoso, se apóiam na mesa e as observam. “Não é muito”, lamenta o coordenador do projeto, Johannes Jod. O Ministério da Agricultura, Água e Florestas e a Fundação Namíbia pela Natureza, lançaram o projeto-piloto em linha com a intenção do governo de integrar a administração dos recursos hídricos. O projeto Prosopis foi apoiado com fundos do governo da Dinamarca e do Programa para o Setor Regional da Água da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC). “O objetivo era duplo”, explicou o ex-chefe de programas Don Muroua. “Buscava um uso sustentável da água e melhoria do sustento das comunidades”.

Os habitantes de Oklombahe se mostraram dispostos a testá-lo. As oportunidades de emprego nesta comunidade, que fala a língua damara, com uma população estimada de 3.500 habitantes, são menos do que limitadas. O governo administra uma clinica, um posto policial e duas escolas. Quatro armazéns, duas igrejas e cinco bares são as únicas atrações com as quais conta o povoado. “No total não há mais do que cem empregos formais”, calculou Jod. “O restante das pessoas depende de pensões por idade e de ocasionais leiloes de cabras e ovelhas”.

Jod contou que “foram investidos pouco menos de dois mil dólares em equipamentos, e nos disseram que fôssemos cortar todas as arvores prosopis que encontrássemos”. Esta espécie de prosopis encontrada aqui “não é indígena, mas importada da América para fornecer sombra. Consomem muita água, e por isso cortá-las ajuda a sustentabilidade hídrica da comunidade”, explicou. “E os níveis da água subterrânea aumentaram”, confirmou Nauses à margem do rio, seco nesta temporada do ano. “Certamente existe uma diferença entre agora e quando começamos a cortar”, afirmou. “Mas isto poderia ser explicado pelas fortes chuvas este ano. Ainda é preciso fazer uma avaliação formal”.

E, para gerar renda, o custo de levar os produtos ao mercado parece ser o principal impedimento. “Vendemos madeira aos mercados na baía de Nehties, no litoral, e fabricamos conta-gotas e mourões para cercas, que vendemos por 2,50 e 9,50 dólares namíbios respectivamente” (cerca de US$ 1,20), disse Muroua. “O carvão custa 850 dólares (US$ 110) a tonelada, porém, mais da metade do dinheiro é gasta em alugar o caminhão para a distância de 200 quilômetros até a fábrica”, acrescentou.

E ainda é preciso manter o equipamento. “Estas motosserras chinesas quebram o tempo todo”, disse Johannes Goseb, um dos jovens que opera essas ferramentas, enquanto tentava ligar uma delas, sem êxito. Parece que a economia de sua pequena atividade não vai bem. Como se pode aumentar os ganhos vendendo um produto em uma área isolada? “Essa é a pergunta que vale um milhão de dólares”, disse Jod, refletindo o desespero do grupo. “Enquanto não tivermos nosso próprio transporte, não vejo como melhorar a margem de lucro”, acrescento. Embora o número de lenhadores e operadores de motosserras tenha caído de 20 para sete, os que ficaram estão decididos a continuar com o projeto.

Auguste Hai Gausses é mãe de três filhos que vão à escola em Okombahe. Para ela, o Projeto Prosopis é sua única fonte de renda. “Nós, as mães, temos de comprar uniformes escolares e pagar as matriculas”, explicou. Sobre o rio há campos de sorgo, cercados por valas de proteção. “É um experimento. Na temporada seca o leito do rio é o único lugar onda ainda podemos cultivar alimentos, porque a água subterrânea existe em grande quantidade ali e os cultivos exigem irrigação”, disse. A colheita é por volta de outubro. O cultivo “tem de crescer completamente antes que cheguem as chuvas, porque quando as águas chegam o rio inunde tudo. Em fevereiro, março e abril não podemos chegar aos nossos vizinhos do outro lado por causa da água”, disse Gausses.

Apesar da magra renda obtida até agora, Muroua está convencido de que é viável.”Foi um plano-piloto e aprendemos muito sobre os projetos nas comunidades. A dinâmica do grupo tem um papel importante também nos assuntos práticos, como um transporte acessível”, afirmou. “Um ano não é suficiente para implementar tudo isso, especialmente desenvolver métodos adequados de comercialização. Seria bom que o Ministério e o SADC dispusessem de mais fundos para continuar. Enquanto isso, simplesmente continuaremos aqui de segunda a sexta, sofrendo”, disse Nauses com um sorriso. IPS/Envolverde

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