TACARIGUA DE LA LAGUNA, Venezuela, 08/09/2009 – (Tierramérica).- A recuperação de lixo reciclável se converte em sustento de um grupo de mulheres nas salobras águas de Tacarigua, reduto de biodiversidade no Mar do Caribe venezuelano.

Eduarda Román junto a uma pintura alegórica à Lagoa Tacarigua, onde fica sua casa - Humberto Márquez/IPS
“Aqui as mulheres se organizaram em uma pequena empresa para recolher o que antes era visto como lixo”, disse ao Terramérica Maria Auxiliadora Uriepero, mãe de seis filhos e com 11 netos, de pé na porta do quarto de sua casa ainda em construção, com paredes de blocos sem acabamento e teto de zinco, e que serve como depósito para seus sacos de garrafas que recolhe. Como a sua, com falta de paredes divisórias e de uma escada de acesso ao terraço, são muitas as casas de Tacarigua de la Laguna, povoado às margens do parque nacional de mesmo nome. Cerca de cinco mil habitantes, aqui e no vizinho Belén, vivem da pesca e de serviços aos turistas que vão às praias próximas. O desemprego é enorme.
Uriepero faz suas contas. “Preciso recolher umas 58 mil garrafas para terminar minha casa. Onde vejo uma garrafa jogada, recolho. Toda a minha família faz o mesmo. Já temos 90 sacos” de 20 quilos cada um, com garrafas de vidro ou plástico que são vendidas a empresas de reciclagem. Não significa que Uriepero confie apenas nessa atividade. Também costura e faz bonecas de pano, bolos e doces, vende refrescos e balas na porta de sua casa, e tece “chinchorros”, ou redes. “Agora, com um grupo, criamos a empresa de separação na origem e a chamamos Flor do Mangue”, contou.
A floresta de mangue vermelho (Rhizophora mangle) forma o ecossistema principal da Lagoa, cobrindo cerca de quatro mil hectares, embora também existam as variedades branca (Laguncularia racemosa), negra (Avicennia germinans) e de botão (Conacarpus erectus). O parque nacional, criado por decreto em 1974, tem 39.100 hectares divididos entre a Lagoa, seus braços e margens, e a restinga. Em 1991, ganhou mais 20 mil hectares de mar adjacente. É um dos locais protegidos pela Convenção de Ramsar sobre os Mangues de Importância Internacional, adotada nessa cidade iraniana em 1971.
Em uma rua estreita, à sombra de mangueiras e a poucos metros de um braço da Lagoa, Vilma Gutiérrez retira terra e rótulos das garrafas plásticas de refrigerantes de 1,5 litros. “Em uma jornada caminhamos vários quilômetros pela praia e recolhemos e classificamos vidro, plástico e alumínio”, disse ao Terramérica. “Não me envergonha que me vejam e digam que sou uma ‘coletora de lixo’, porque o pessoal do governo (do Estado de Miranda) explicou que não se trata de lixo, mas de matéria-prima secundária, com a qual faremos funcionar nossa associação, a Corocora Mar e Sol”, disse Gutiérrez. O guará (Eudocimus ruber), corocora roja em espanhol, é uma espécie de íbis que existe em abundância em Tacarigua, onde são encontradas mais de 250 tipos de aves.
No Parque fazem seus ninhos quatro espécies de tartarugas marinhas, entre elas a Chelonia mydas e a Caretta caretta, mundialmente ameaçadas, e vive o crocodilo americano (Crocodylus acutus). A área marítima e a Lagoa são áreas de pesca e criação de espécies apreciadas no mercado local, como o robalo (Centropomus undecimalis) e a parati ou tainha (Mugil curema). Entre os 20 mamíferos da fauna local, há o veado mateiro (Mazama americana), o macaco caiarara ou capuchinho (Cebus olivaceus) e o ameaçado ocelote (Leopardus pardales).
Flor do Mangue e Corocora Mar e Sol são duas microempresas coletoras, a primeira registrada como companhia anônima e a segunda como associação civil. O governo de Miranda promove a formação de outras. “Desenvolvemos este projeto para ajudar na conservação do Parque como reserva de biodiversidade e de segurança alimentar, ao mesmo tempo em que apoiamos grupos de moradores vulneráveis e criamos consciência ecológica na área”, disse ao Terramérica Evelyn Pallota, diretora de Meio Ambiente do governo.
A Corocora Mar e Sol, onde “começamos com nove e ficamos em cinco associadas”, disse Gutiérrez, propôs a aquisição de cestos adequados para a coleta, uniformes, luvas e máscaras, “e, por que não?, talvez um caminhãozinho”. O candidato a motorista é seu marido desempregado. “Até agora nos associamos com mulheres, mas com o volume de carga que queremos manejar serão necessários homens trabalhando”, acrescentou.
“Uma das associadas, que encheu três barris de vidro, me disse que já se sente uma pequena empresária e quer conseguir um microcrédito em algum órgão oficial e um seguro HCM (hospitalização, cirurgia e maternidade) para todas elas”, disse ao Terramérica Milagro Liberón, professora na escola local e animadora do projeto. Liberón está constituindo a empresa que será centro de armazenagem, de formação, e de apoio logístico e legal dos grupos coletores, junto com Eduarda Román, uma vizinha cuja casa dá para um braço da Lagoa, onde alimenta iguanas, tartarugas e garças que se aproximam.
Em sua casa nada é desperdiçado. Até os restos de alimentos são destinados para compostagem com as plantas de mamão e tangerina que colhe. Minhas vizinhas “já separam na origem o lixo sólido em suas casas e chamam as coletoras para retirar”, disse Román ao Terramérica. Liberón trabalha papel machê e ensina artesanato, “porque depois da empresa de armazenagem poderemos seguir para o elo seguinte, que é o ecodesign, para elaborar objetos artísticos ou utilitários com alguns materiais coletados”, destacou Pallota.
Além do governo, apoiam o projeto a embaixada britânica em Caracas, com a doação de balanças para pesar os materiais, e o fabricante norte-americano de embalagens Owens-Illinois, que forneceu uma trituradora de vidro. “Pagamos 300 bolívares (US$ 140) por tonelada e nos agrada apoiar grupos que se organizam para melhorar suas vidas e o entorno”, disse ao Terramérica Marycarmen Polanco, diretora da Owens-Illinois da Venezuela. “Para nossas fábricas, o material de reciclagem representa cem mil toneladas ao ano, 30% da matéria-prima”, acrescentou.
A região de Tacarigua é a fachada marinha de Barlovento, uma fértil planície de 4.600 quilômetros quadrados regada pelo Rio Tuy e seus afluentes que, desde os tempos da colônia, foi local de plantações de cacau trabalhadas por escravos negros. “Mantém-se como um reduto de pobreza, com baixa atividade econômica e desemprego, 47% da população carece de necessidades básicas, segundo estatísticas governamentais, há déficit de escolas e os jovens emigram”, disse Pallota. Por isso “lançamos projetos como o de Tacarigua, para conscientizar, formar cidadãos ambientalmente responsáveis, evitar a contaminação da Lagoa, da praia e do campo, e gerar empregos que permitam às pessoas subirem o primeiro degrau para sair da pobreza e da vulnerabilidade”, concluiu.
* O autor é correspondente da IPS.

