Nova York, 11/09/2009 – Quando os líderes do mundo se reunirem para a conferência internacional sobre mudança climática no final deste mês na sede da Organização das Nações Unidas, as conversações estarão mais centradas na política do que nas finanças.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o maior incentivador da cúpula, disse acreditar que mais de cem líderes mundiais participarão da reunião de um dia prevista para o próximo dia 22. “Espero que demonstrem sua liderança política, que desempenhem seu papel como dirigentes mundiais, enfrentando os desafios que requerem liderança mundial e solidariedade global”, afirmou Ban.
O Estudo Econômico e Social Mundial 2009, divulgado na semana passada pelas Nações Unidas, estima que serão necessários por ano entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões para enfrentar alguns dos problemas causados pela mudança climática, e que estarão na agenda da próxima conferência internacional sobre o tema que acontecerá no mês de dezembro na cidade de Copenhague.
No ano passado, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, revelou o “Mapa do Caminho para Copenhague”, que inclui uma proposta para arrecadar US$ 100 bilhões por ano para financiar medidas de mitigação e adaptação diante do aquecimento do planeta, especialmente nos países mais pobres que sofrem secas, inundações, desmatamento, aumento no nível do mar e contaminação. Entretanto, esses fundos, fornecidos principalmente por doadores ocidentais, não seriam suficientes para alcançar as metas traçadas pela ONU.
“Serão necessários milhares de milhões de dólares em financiamento público”, destacou Ban Ki-moon. “Deve haver mais dinheiro, não apenas para a ajuda oficial ao desenvolvimento em um novo pacote. Se podemos resgatar os bancos, sem dúvida podemos encontrar os fundos para proteger milhões, quando não milhares de milhões, de pessoas e seus meios de subsistência”, ressaltou.
Em entrevista à IPS, o chefe da Unidade de Desenvolvimento de Estratégias e Análises de Políticas do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Richard Kozul-Wright, disse que as questões de finanças devem ser parte integral do debate sobre mudança climática. “Creio que a cúpula pode ter um impacto muito positivo. O secretário-geral insiste na necessidade de uma visão, urgência e liderança sobre o tema da mudança climática”, destacou.
IPS- No atual contexto de crise financeira mundial, quais são as possibilidades de as nações ricas aumentarem seus fundos para combate à mudança climática?
Richard Kozul-Wrigh – Falando estritamente, as oportunidades nada têm a ver. Os governos aceitaram – nas reuniões anteriores sobre mudança climática em Kyoto (Japão) e Bali (Indonésia) – cumprir as metas adicionais de custos financeiros em seus esforços de mitigação e adaptação. Mais ainda, os países industrializados, incluindo agora os Estados Unidos e a Austrália, aceitam a evidência científica de que a atividade humana está por trás do já perigoso aumento das temperaturas mundiais, e que se as nações em desenvolvimento não seguirem seu exemplo, as consequências serão graves para todos.
A atividade foi localizada, predominantemente, nos países ricos. De fato, o desenvolvimento com base no carvão dessas nações está por trás tanto dos desafio climáticos quanto das grandes brechas de renda que caracterizam o panorama econômico mundial. A boa notícia é que seu êxito também implica que os países têm os recursos para vencer a mudança climática tanto em seus próprios territórios quanto nas nações em desenvolvimento.
IPS- Há novas fontes potenciais de financiamento?
RK- O Estudo Econômico e Social Mundial sugere vários mecanismos para mobilizar novos recursos com estes propósitos, incluindo o redirecionamento dos gastos do governo – como militares ou subsídios a serviços energéticos baseados no carvão – para atender as ameaças da mudança climática no país ou no exterior. Inclusive, uma das coisas que a crise financeira demonstrou é que, se existir vontade política, os governos com determinação podem rapidamente mobilizar fundos em grande escala na resposta a um golpe no sistema, até bilhões de dólares.
Um por cento do produto interno bruto mundial (entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões), que o Estudo sugere como cifra aproximada para enfrentar os desafios da mudança climática nas nações em desenvolvimento, é a quantia que os Estados Unidos comprometeram no Plano Marshall para ajudar a reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Naquela época, muitos nos Estados Unidos argumentaram que o país não tinha dinheiro ou que este seria gasto erradamente, mas, de fato, foi um fator importante não apenas para reconstruir a Europa (e derrotar o extremismo político), mas também para promover os interesses econômicos norte-americanos no exterior.
Nosso caso atual pode ser visto em termos semelhantes, pois apresenta um cenário em que tanto o Norte quanto o Sul ganhariam, e o exemplo dado no primeiro capitulo do estudo (da ONU) procura mostrar que um grande fluxo de investimento no nível que estamos sugerindo é consistente com um forte crescimento mundial, inclusive nos países industrializados.
IPS- O que deveria ter prioridade na luta contra a mudança climática: os esforços políticos ou os econômicos?
RK- No final das contas, é a continuação do crescimento sustentável o que importa para qualquer esforço financeiro desses países. De fato, diante da crise, a mudança na dinâmica de investimentos – passando dos especulativos aos mais produtivos no longo prazo – em serviços de energia renováveis, transporte, etc, é precisamente o que todos os países necessitam fazer para criar uma economia mundial mais estável e equilibrada.
Isto não significa que não é necessário esforço político dos líderes de nações avançadas para conseguir um financiamento em grande escala. Mas espera-se que, após persuadirem seus cidadãos sobre a necessidade de usar seu dinheiro para salvar comunidades de bancos da extinção, possam ser igualmente persuasivos para convencê-los de que outras comunidades – incluindo, possivelmente, toda a ração humana – não devem sofrer esse destino. IPS- Quanto confiança o senhor tem na proposta de criar um fundo mundial de energias limpas? Quais seriam os principais objetivos de um fundo com esse perfil?
RK- Obviamente, a necessidade de um fundo surge da lógica da importância de um grande empuxo (econômico) e do reconhecimento de que os mecanismos financeiros bilaterais e multilaterais existentes – desde o Plano Marshall – não foram projetados para proporcioná-lo.
Os países doadores começam a aceitar que a arquitetura de assistência internacional não funciona muito bem, em parte por estar extremamente fragmentada e politizada, e que o financiamento multilateral não conseguiu apoiar os ajustes necessários para um crescimento includente e sustentável nas nações em desenvolvimento. Isto poderia fornecer a base para uma franca e aberta discussão a respeito de a mesma arquitetura ter condições de funcionar efetivamente quando a mudança climática se acrescenta aos desafios do desenvolvimento já existentes. O enfoque de um fundo seria em investimentos de grande escala para expandir a capacidade dos serviços de energias renováveis. IPS/Envolverde


