ECONOMÍA: Especulação é entrave para a recuperação mundial

Nova York, 14/09/2009 – A crise econômica mundial continuará durante vários anos se a comunidade internacional não adotar ações firmes e coordenadas para regular o fluxo de capitais, segundo alerta de pesquisadores que acabam de elaborar um estudo para a Organização das Nações Unidas. “Não houve muitos avanços para regular os mercados financeiros”, disse Heiner Flassbeck, um dos autores do estudo, associado à Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). “O mundo ainda está atolado em uma profunda crise econômica”, acrescentou.

O Informe sobre Comércio e Desenvolvimento da Unctad diz que, apesar do professado compromisso de reverter a recessão, muitas nações do Norte industrial não tomaram as rédeas da indústria financeira para acabar com os investimentos especulativos. Segundo o estudo, esta crise reflete a “predominância” dos mercados financeiros sobre a economia real. Flassbeck criticou os governos dos países mais industrializados por não fazerem o suficiente para controlar a indústria financeira.

Apesar de reconhecer que os Estados Unidos foram o único país que adotou medidas concretas contra a recessão, realizando audiências no Congresso, Flassbeck afirmou que Washington estava principalmente concentrado no mercado de moradias e na indústria do credito. Acrescentou que o setor privado somente poderá retomar o crescimento através do consumo e dos investimentos, mas, disse que o crescente desemprego e os salários achatados prejudicam a expansão e o consumo. “Não há demanda de novos investimentos”, afirmou, destacando a necessidade de os governos darem passos significativos para estimular a economia.

Ao explicar como determinados países no Sul têm mais dificuldades para enfrentar a crise, disse que muitas nações ricas optaram por reduzir as taxas de juros e aumentar as medidas de estímulo, enquanto outras mais pobres, devido às condições impostas pelo Fundo Monetário Internacional, são obrigadas a fazer o contrário. Como exemplo citou a Hungria, onde os mercados mostraram confiança durante sete anos. Quando a crise financeira mundial atingiu esse país, a moeda local caiu, porque o FMI disse ao governo de Budapeste que devia recuperar a confiança dos próprios mercados financeiros que haviam “supervalorizado” sua moeda. Esse tipo de coisa deve ser revisto pela comunidade internacional, disse Flassbeck, e sugeriu a criação de uma nova instituição mundial.

“Agora há uma necessidade de assimetria entre os países com déficit e os que têm superávit”, prosseguiu. “As taxas de juros não deveriam estar nas mãos dos mercados, mas serem fixadas por um acordo internacional ou um órgão que as estabilizasse com base na competitividade, e não na especulação”. A Organização Mundial do Comércio “não aceita estas intromissões, enquanto o FMI ano aborda os temas do mercado”, ressaltou. Para este especialista, “apenas uma instituição com um mandato mais amplo poderia ser responsável pela coerência da economia internacional”.

Por outro lado, disse que o problema da mudança climática não poderá ser enfrentado se os preços dos combustíveis continuarem submetidos à especulação. E o presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel d’Escoto, concorda com isto. No lançamento do informe esta semana, afirmou: “A real crise mundial e econômica ainda está por vir”. Para ele, a especulação teve um papel “muito grande” que deve ser considerado ao se formular políticas monetárias para enfrentar o ciclo de recessão.

O informe de 181 páginas apresenta um negro panorama dos esforços contra a pobreza na África no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e prevê um “obscuro” futuro para a recuperação da maioria dos países do Norte industrializado. Os autores do estudo recomendam reformas nas instituições financeiras internacionais, incluindo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, algo que vem sendo reiterado por grupos da sociedade civil nos últimos anos. IPS/Envolverde

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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