AMBIENTE-MÉXICO: Afogados pelo lixo

México, 25/09/2009 – Os habitantes da capital mexicana podem sofrer o mesmo que os protagonistas do filme norte-americano “Wall-e”, que afogados pelo lixo vivem em uma estação espacial enquanto o simpático robô que leva esse nome compacta os dejetos no que resta do planeta. As intensas chuvas que caíram na cidade do México desnudaram um de seus maiores problemas ambientais, que é a geração de lixo e seu manejo, pois as águas inundaram El Bordo Poniente, o maior depósito de lixo do país.

Os alagamentos impediram a coleta normal das 13.300 toneladas de lixo geradas na cidade, média de 1,51 quilos por habitante. Diante disso, o governo da capital abriu um caminho alternativo para chegar ao lixão, sem que o serviço de coleta estar totalmente normalizado. “O problema que vemos é que não se está acatando a redução de volumes de resíduos sólidos, não existe uma diretriz para estimular as pessoas a não produzirem lixo”, disse à IPS Patrícia Ramos, coordenadora da Campanha de Resíduos Sólidos da organização ambientalista Greenpeace.

El Bordo, situado na zona leste da capital mexicana, se estende ao longo de 600 hectares e em seu subsolo há 70 milhões de toneladas de lixo. Seu funcionamento é motivo de disputa entre o governo nacional e o da cidade, pois o primeiro argumenta que o aterro sanitário deveria ter sido fechado em 2008, devido à sua já nula capacidade de receber e processar lixo, enquanto o segundo assegura que ainda lhe resta uma vida útil de três anos. Para escapar do fechamento, o governo do prefeito esquerdista Marcelo Ebrard obteve amparo da justiça, o que lhe permitiu continuar operando.

Outros dois aterros, também no leste da capital, recebem mais de um milhão de toneladas por ano. As autoridades da cidade prometeram a construção de um Centro Integral de Reciclagem e Energia no sudeste da metrópole, o que ainda não saiu do papel. Diante das inundações ocorridas, o Tribunal Internacional de Arbitragem e Conciliação Ambiental (Ciaca), com sede na cidade espanhola de San Sebastián, denunciou que os líquidos produzidos pelo ligo contaminam o solo e lenço freático.

O Ciaca nasceu no México em 1994 com o objetivo de dirimir conflitos ambientais mediante a negociação entre Estados, indivíduos e instituições legalmente constituídas, como empresas e organizações não-governamentais. Mas a crise do maior aterro da capital não está isolada da realidade dos lixões mexicanos. Das 142 cidades do país com mais de cem mil habitantes, apenas 18% contam com aterros sanitários.

Trinta e seis por cento do lixo gerado no México acaba em lixões a céu aberto, os quais tiveram de fechar há três anos, segundo o regulamento da Lei Geral de Resíduos. Além disso, no México o lixo não é aproveitado para gerar eletricidade ou produzir fertilizantes orgânicos em grande escala. “A separação do lixo é muito pobre e não é negócio para ninguém, existe um enorme desperdício. Deveria ser reciclado”, sugeriu Patrícia Ramos.

Um diagnóstico preparado pelo Centro Interdisciplinar de Pesquisas e Estudos sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, vinculado ao estatal Instituto Politécnico Nacional e entregue às autoridades municipais, recomenda a prevenção e minimização da produção de lixo, manejo integral, valorização e aproveitamento, prevenção e controle da contaminação do solo e campanhas de comunicação e educação ambiental. No ano passado, 1.533 empresas industriais, comerciais e de serviços apresentaram planos de manejo do lixo.

O governo da capital trata apenas 10% dos ácidos líquidos provenientes do lixo e outros 620 mil litros infiltram-se diariamente e contaminam o solo. Em seis lugares da cidade do México existem usinas de compostagem. Com o biogás produzido pelo lixo confinado há cinco anos no território mexicano se poderia gerar 80 megawatts (MW) de eletricidade a adicionar outros 16 MW com o novo lixo que se acumula anualmente, segundo o Instituto de Pesquisas Elétricas, da estatal Universidade Autônoma do México. Em 10 anos, a capacidade de geração total poderia chegar a 240 MW.

A Lei Federal de Resíduos não deixa claro quem é o proprietário do lixo – o gerador, o coletor ou o administrador do deposito – até que este chegue às mãos das autoridades, sejam federais ou municipais, o que dificulta seu emprego para fins econômicos. O estudo do Centro Interdisciplinar sugeriu a instalação de mais usinas de compostagem e seleção do lixo, mais centros de armazenamento e um uso maior de resíduos na construção.

Por outro lado, em locais como Argentina e União Européia vigoram leis específicas sobre empacotamento e embalagem, de maneira que os bens vendidos possuem exclusivamente o invólucro necessário, que implica menor proporção de lixo. O Greenpeace se dedica, até agora sem sucesso, à promoção de uma legislação semelhante no México. IPS/Envolverde

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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