Religião: A fé que divide os povos indígenas

México, 06/05/2005 – Em nome de Deus, centenas de religiões e seitas ativas em comunidades indígenas da América Latina acompanham divisões, mudanças culturais e guerras internas. Católica, nazarena, luterana, mórmon, adventista, Igreja do Verbo, de Alfa e Ômega, do Manancial da Vida ou os Guardiões do Santo Sepulcro são apenas algumas denominações. "Qualquer que seja a religião que nos imponham, causa impacto no plano espiritual, que é como se fosse nosso calcanhar de Aquiles, pois é dessa perspectiva que a maioria dos indígenas maneja sua vida", disse à IPS Luis Macas, um nativo da etnia saragura que preside a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador.

Entre os 40 milhões de indígenas que vivem na América Latina sobressai a religião católica, que nos séculos XV e XVI o conquistador europeu impôs a sangue e fogo, varrendo crenças dos povos pré-colombianos ou assimilando alguns de seus elementos. Especialmente no século XX, chegaram outras religiões para competir pela fé dos povos naturais da terra. Entre elas e o catolicismo se mantém um enxurrada de atritos. Nos últimos 30 anos, a comunidade maya tzotzil de Chamula, no Estado mexicano de Chiapas, registrou 100 mortos e 30 mil expulsos por professarem religiões protestantes distantes do catolicismo pré-conciliar de autoridades locais, que rechaça as reformas do Concílio Vaticano II dos anos 60.

Expulsão, prisão, castigos físicos e negação de serviços médicos e de educação são algumas expressões do sectarismo religioso que reinaram nos últimos anos em amplas regiões de Chiapas, Oaxaca e Guerrero, no sul do México, onde a maioria da população é indígena. No Equador, o vigoroso movimento indígena que até o início da atual década comandou protestos sociais e chegou a postos de direção do Estado, agora sofre rachas, pois um de seus setores, identificado com religiões protestantes, apoiou a gestão do presidente Lucio Gutiérrez, deposto no final de abril de pois de mais de uma semana de maciços protestos. Na Guatemala e na Bolívia, junto com México, Equador e Peru, os países com maior população nativa da região, também há divisões originadas na orientação religiosa, que às vezes se funde com o apoio a partidos políticos e autoridades locais.

"Estão à nossa vista problemas internos por causa de religião, pois algumas igrejas olham o social e outras apenas o espiritual e fomentam o conformismo, o que afeta a luta do povo indígena", disse à IPS o porta-voz do Comitê de Unidade Camponesa da Guatemala, Rafael González Yoc. "Muitas religiões destroem o que somos, e é penoso ver que as novas gerações desprezam o que fomos, consideram que as crenças mayas (o principal povo indígena da América Central) são coisas de bruxos e diabólicas", lamentou o dirigente. Segundo González, a Igreja do Verbo e a Assembléia de Deus, confissões protestantes de origem norte-americana, se aproximaram dos indígenas da Guatemala para colaborar com as ditaduras militares dos anos 70 e 80.

O sociólogo e jornalista Roger Pascual, da não-governamental Agência de Informação Solidária (AIS), com sede na Espanha, afirma que estas duas seitas foram apoiadas por governos norte-americanos para na Guatemala se oporem a tudo o que parecesse ter relação com comunismo. "O governo dos Estados Unidos contribuiu para que a seita pentecostal Assembléia de Deus se fortalecesse a ponto de chegar a controlar 1.500 locais de culto, além de diversos canais de televisão e emissoras de rádio" na Guatemala, afiram Pascual em um de seus artigos. "A administração de Ronald Reagan (1981-1909) também esteve por trás da implantação da Igreja do Verbo, que colaborou no golpe de Estado liderado pelo general José Efraín Rios Mont, em 1982", segundo o texto "Análise da incursão de seitas nos cenários políticos da América Latina", publicado pela AIS em 2003.

A guerra civil na Guatemala foi de 1960 a 1996. morreram 200 mil pessoas (45 mil desaparecidas) nas mãos das forças de segurança, a maioria indígenas mayas. Também houve um milhão de refugiados internos, 500 mil refugiados no México e 250 mil crianças órfãs. "As religiões provocam impacto em nosso comportamento coletivo e mudam o cotidiano de nossa organização, comunidade e família. Pelas religiões, a lógica coletiva que caracteriza os indígenas se torna individual e nos divide", afirmou Macas. "Existem tantas seitas, creio que mais de 300 no Equador, cujo papel é apaziguar, dividir e domesticar a gente sob o jugo de interesses dominantes ou de empresas como as de petróleo", afirmou.

Quando os críticos falam de seitas se referem à de criação recente, deixando de fora as religiões cristãs "históricas", como batistas, episcopais, evangélicas, luteranas, ortodoxas e presbiteriana, entre outras. As hierarquias católicas, junto a um setor de antropólogos e organizações sociais, acusam as seitas de se aproximarem dos indígenas com dinheiro, ofertas de salvação e discursos que rompem com tradições e crenças comunitárias. Além disso, afirmam, as seitas distorcem a mensagem de Deus e, em alguns casos, respondem a interesses de controle ideológico desenhado nos Estados Unidos. Há os que usam uma linguagem que incentiva o enfrentamento.

"É preciso não ter mãe para ser protestante", disse no México o cardeal da cidade de Guadalajara, Juan Sandoval Iñiguez, enquanto o ex-núncio papal neste país, Girolamo Prigione, afirmou que "as seitas são como as moscas e necessário acabar com elas periodicamente". A intolerância religiosa gera perseguição e nega aos indígenas o direito de mudar de crença, como se a católica fosse a única com direito de primar entre esses povos, o que é um absurdo, afirmou o escritor mexicano Carlos Monsiváis. Inclusive os católicos da Teologia da Libertação, a corrente latino-americana que defende o respeito pela cultura indígena e a luta contra a opressão que esses povos sofrem, demonstrou dureza contra as novas crenças.

"As seitas criam estúpidos, alienados. A seitas matam a alma do povo", afirmou o bispo dom Pedro Casaldáliga, um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação e que atuou por quase 40 anos no Brasil. O papa João Paulo II (1978-2005) emitiu documentos e declarações contra as seitas, enquanto manteve aproximação com as igrejas cristãs históricas, o judaísmo e o islamismo. Os cultos que baseiam seu poder em curas coletivas, exorcismo e promessas de prosperidade são um "perigo para os cristãos" e devem ser condenadas do mesmo modo que o tráfico de drogas e as campanhas pelo controle da natalidade, afirmou João Paulo II em 1991, durante uma visita ao Brasil. Casos como os da Testemunhas de Jeová, de origem norte-americana, gerou problemas com as autoridades, pois seus seguidores se negam a render homenagem às bandeiras nacionais e outros símbolos pátrios. Também não doam nem recebem sangue.

O boliviano Eugenio Poma, da etnia aymara, bispo metodista e coordenador da Pastoral Indígena do Conselho Latino-americano de Igrejas (Clai), que reúne mais de 150 religiões históricas, disse à IPS que os novos grupos religiosos "que crescem como fungo", respondem a interesses "obscuros". Existem "as igrejas que doutrinam somente em relação ao espiritual, como muitas seitas, e outras que chegam para aprender e ajudar. Evidentemente, entre nós há muitas diferenças de interesses e isso nos divide", afirmou Poma. Mas, prevalecerá "o coração indígena, que luta pela vida em comunidade e busca seus direitos", afirmou. "Finalmente, todos lutaremos junto, embora petençamos a diferentes crenças. Convido a nos unirmos e ouvirmos, pois, no fundo, todo indígena aspira o mesmo", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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