MUDANÇA CLIMÁTICA: Parlamentares pessimistas sobre redução das emissões de CO2

Copenhague, 27/10/2009 – A concentração de dióxido de carbono (CO²) na atmosfera deve ser limitada a 350 partes por milhão (ppm) e não a 450 ppm como se propõe, alertou o economista britânico Samuel Fankhauser diante de legisladores – muito cépticos – dos oitos países mais industrializados e de grandes economias emergentes. Fankhauser disse que o limite que indicou é a única maneira de evitar o branqueamento irreversível de corais nas áreas costeiras, com tudo o que isso implica.

Para fundamentar seu chamado, usou nova evidência científica obtida por biólogos e zoólogos marinhos da Austrália, Grã-Bretanha e Quênia, publicada no dia 29 de setembro no Marine Pollution Bulletin, a qual indica que quando a concentração de CO² na atmosfera ultrapassa as 350 ppm a maior parte de corais do mundo sofre “um colapso irreversível”. A preocupação maior tem em conta a importância central dos corais no fornecimento de recursos alimentares e ambientais a uma população de um bilhão de pessoas nos países mais pobres.

O branqueamento, produto da acidificação do mar, deixa os arrecifes expostos aos raios ultravioletas, e isso faz com que percam as algas que vivem em seu interior e das quais se nutrem, por isso morrem de fome. Também se reproduzem menos e ficam expostos às enfermidades. O chamado de Fankhauser aconteceu no fórum promovido em Copenhague no final de semana pela Organização Global de Legisladores para o Equilíbrio Ambiental (Globe) com 120 legisladores do Grupo dos oito países mais industrializados (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) além de Brasil, China, Índia, México e África do Sul, Austrália, Coréia do Sul e a anfitriã Dinamarca.

O limite de 450 ppm a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, que hoje é de 387 ppm e com tendência à alta, é a manejado nas discussões prévias à 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 15), que entre 7 e 18 de dezembro, em Copenhague, tentará chegar a novo acordo de redução de emissões a partir de 2012. Essa concentração é medida na fração constituída por número de moléculas de CO² dividido pela quantidade das moléculas no ar, incluído esse gás, quando o valor de água é removido. Um valor medido de 0.0004 é expresso como 400 ppm.

Confrontado com a proposta de Fankhauser, o presidente da assembleia da Globe, o parlamentar inglês Barry Gardiner, perguntou aos 120 legisladores reunidos na capital dinamarquesa se eles acreditavam que limitar a concentração de dióxido de carbono em 350 ppm até 2060 é realizável. Apenas dois responderam que sim. Reagindo a tal manifestação de pessimismo, Gardiner disse à assembleia: “Deveríamos estar aterrorizados”. Se os legisladores ambientalistas não crêem na possibilidade de implementar uma meta ambiciosa para deter as consequências da mudança climática, “então a humanidade está perdida”, acrescentou.

E mais, se considerar-se que, segundo seus principais dirigentes, a Globe organizou o encontro para “acordar princípios-chave” para a aprovação de legislação contra a mudança climática nos países participantes, para que contribua a fim de um “avanço significativo na limitação do aumento médio da temperatura global em dois graus, e assim evitar a mudança climática incontrolada”, acrescentou Gardiner.

Outros líderes mundiais também participantes do fórum como o primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Rasmussen, dissera que se estava no “momento critico para as negociações” da Organização das Nações Unidas para criar um novo tratado sobre a mudança climática. De fato, no encontro de Copenhague, economistas, ambientalistas e funcionários de organismos internacionais proporcionaram aos legisladores presentes informação científica atualizada que confirma a gravidade das crises ambiental e social que a humanidade enfrenta.

Graeme Wheeler, diretor-gerente do Banco Mundial, disse que, “baseado nas tendências atuais, as emissões de dióxido de carbono pelo setor energético duplicarão até 2050, colocando o mundo em uma trajetória catastrófica que poderia aumentar a temperatura global média em mais de cinco graus, tomando por base a época pré-industrial”. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que sobrevive em condições de pobreza extrema “continua aumentando”, disse Wheeler, e já chega a “cerca de 1,4 bilhão de pessoas, mais que o dobro da população da Europa”.

Para Wheeler, não poderão ser atendidos nenhum dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODN) aprovados em 2000 na ONU, com prazo até 2015 e baseados em indicadores de 1990. Os ODM contêm o compromisso dos governos de erradicação da pobreza e da fome, fornecer educação primária universal, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o HIV/aids e outras doenças, garantir a sustentabilidade ambiental e assentar as bases para uma aliança mundial para o desenvolvimento.

Wheeler disse no fórum que a mudança climática aumenta os riscos associados com subdesenvolvimento e pobreza, e que as nações mais pobres do planeta, especialmente na África a no sudeste da Ásia, sofrerão “entre 75% 5 80% dos custos causados pelo aquecimento global. Por esta razão, e devido à responsabilidade dos países industrializados na emissão dos gases que provocam o efeito estufa, responsáveis pelo aumento da temperatura mundial, “as negociações (para um tratado internacional a ser ratificado em Copenhague em dezembro próximo) representam considerações muito graves de moral e justiça”, afirmou.

Os argumentos econômicos a favor de uma política ambiental que reverta a mudança climática também são graves e convincentes, destacou Fankhauser, pesquisador do Instituto Grantham da London School of Economics. “As políticas para reveter a mudança climática podem custar até 3% do produto interno bruto mundial nos próximos 40 anos. Mas esse preço é baixo comparado com os custos a serem pagos se nada fizermos para deter o aquecimento global”, acrescentou o economista.

Fankhauser afirmou que as políticas que já foram implementadas para mitigar a mudança climática estimulam a economia no setor ambiental e estão gerando benefícios em todo o mundo. “O setor global ambiental está em plena expansão”, assegurou. “A renda gerada pela política contra a mudança climática em todo o planeta passa dos US$ 500 bilhões em 2008, e podem chegar aos US$ 2 trilhões em 2020”, ressaltou.

Por outro lado, os danos causados pela falta de ação ambiental são enormes. O branqueamento de corais custa US 375 bilhões anuais, devido à destruição de fontes de alimentos e dos serviços que regulam o meio ambiente, bem como de cultura que estes fornecem nas áreas costeiras do mundo. Fankhauser destacou que cerca de 500 milhões de pessoas “vivem a menos de cem quilômetros dos ecossistemas nas áreas costeiras, e dependem dos serviços que os corais proporcionam”. Pelo menos um bilhão de pessoas dependem da pesca em áreas dominadas por corais. Apenas no sudeste asiático, corais, mangues e ecossistemas marinhos costeiros geram renda anual de US$ 3 bilhões.

“Outro serviço importante fornecido por ecossistemas costeiros sãos e pelos corais são a regulação climática e a proteção ambiental nas regiões, através da captura de carbono, tratamento de resíduos e proteção contra fenômenos naturais, como furacões e outros”, disse Fankhauser. Por todas estas razoes, este economista britânico pediu ao fórum de legisladores da Globe considerar a ambiciosa meta de limitar a concentração de CO² na atmosfera em 350 ppm. Porém, a vasta maioria dos legisladores ambientais que o ouviram considera esta meta irrealizável. IPS/Envolverde

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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